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Resíduos de substâncias no esgoto expõem consumo na Europa e desafiam políticas proibicionistas

by Redação

Estudo europeu mostra que análise de águas residuais revela uso generalizado de substâncias, com cannabis liderando e cocaína em alta

O que circula silenciosamente pelos sistemas de esgoto das cidades europeias tem revelado um retrato preciso do consumo de drogas no continente. Um novo estudo da Agência da União Europeia sobre Drogas, em parceria com a rede SCORE, mostra que, apesar de décadas de proibição, o uso de substâncias ilícitas segue disseminado, diverso e em constante transformação.

A pesquisa analisou águas residuais de 115 cidades em 25 países, entre março e maio de 2025, cobrindo cerca de 72 milhões de pessoas. A metodologia identifica metabólitos de drogas excretados pela população, permitindo estimar o consumo real sem depender de entrevistas ou autodeclaração — o que a torna uma das ferramentas mais confiáveis para monitoramento epidemiológico.

Os dados confirmam uma tendência consolidada: a cannabis continua sendo a substância ilícita mais consumida na Europa, com cerca de 24 milhões de usuários, segundo a própria EUDA. Ainda assim, os níveis detectados nas águas residuais variam entre as cidades.

De acordo com o levantamento, entre 2024 e 2025, 33% das cidades analisadas registraram aumento nos níveis do metabólito THC-COOH, enquanto 44% apresentaram queda e 22% permaneceram estáveis, evidenciando um cenário heterogêneo, mas com presença constante da substância em todo o continente.

Em Portugal, os dados foram coletados em três cidades. Lisboa apresentou o maior consumo estimado, com média diária de 124,96 miligramas por mil habitantes, enquanto Almada registrou o menor índice, com 44,56. O Porto aparece em posição intermediária, com 80,05, conforme dados da EUDA.

As maiores concentrações de cannabis foram identificadas em países da Europa Ocidental e Central, com destaque para Países Baixos, Alemanha e Eslovénia. Ainda assim, os níveis europeus permanecem abaixo dos observados em países como Canadá e Estados Unidos.

Se a cannabis se mantém estável, outras substâncias apresentam mudanças mais acentuadas. O estudo aponta uma queda de 16% no consumo de MDMA entre 2024 e 2025, com redução registrada em 62% das cidades monitoradas, segundo a EUDA.

Na direção oposta, a cocaína segue em expansão. O levantamento indica aumento de quase 22% no mesmo período, com crescimento registrado em 57% das cidades analisadas. As maiores concentrações continuam sendo observadas em países como Bélgica, Espanha e Países Baixos.

A cetamina também aparece em ascensão, acompanhando a diversificação do mercado de drogas sintéticas. Já as metanfetaminas mostram expansão geográfica, ultrapassando regiões historicamente associadas ao consumo, enquanto as anfetaminas permanecem concentradas no norte e centro da Europa.

Para especialistas, os resíduos encontrados nas águas urbanas reforçam uma evidência central frequentemente ignorada: a proibição não impede o consumo. Todas as substâncias monitoradas foram detectadas na maioria das cidades analisadas, independentemente das legislações locais.

A diretora executiva da EUDA, Lorraine Nolan, afirmou que a análise de águas residuais revela um fenômeno “generalizado, variado e em constante mudança”, destacando a importância desses dados para orientar políticas públicas mais eficazes.

O estudo também reacende o debate sobre os limites do modelo proibicionista. Sem regulação, o mercado ilegal opera sem controle de qualidade, aumentando riscos à saúde pública. Substâncias adulteradas, dosagens imprecisas e ausência de informação ampliam os danos associados ao consumo.

Nesse contexto, cresce a defesa de políticas baseadas em evidências, com foco em redução de danos e regulação. Os dados da EUDA indicam que, apesar de décadas de repressão, o consumo persiste — e se adapta.

Ao transformar o esgoto em fonte de informação, a ciência expõe uma realidade difícil de ignorar: as drogas continuam presentes no cotidiano das cidades. E enquanto isso não for reconhecido nas políticas públicas, os riscos seguirão fluindo, invisíveis, junto com a água.

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