Caso envolvendo religiosos no aeroporto de Colombo evidencia os efeitos colaterais de políticas repressivas e reacende debate sobre regulação
A prisão de 22 monges budistas no Sri Lanka, flagrados com cerca de 110 quilos de cannabis no aeroporto de Colombo, expõe um fenômeno recorrente em países que mantêm políticas rígidas de proibição: a expansão de mercados clandestinos que atravessam diferentes camadas da sociedade, inclusive instituições tradicionalmente associadas à moral e à espiritualidade.
A apreensão, considerada a maior já registrada no terminal para esse tipo de substância, envolveu o transporte da variedade Kush, escondida em compartimentos secretos nas bagagens. Cada monge carregava aproximadamente 5 quilos da planta, em uma operação que chama atenção pelo nível de organização e pelo perfil dos envolvidos.
Mais do que um episódio isolado, o caso revela como a criminalização da cannabis não impede sua circulação, mas cria um ambiente propício para cadeias informais e arriscadas. Em contextos proibicionistas, o mercado não desaparece, ele apenas se desloca para redes sem qualquer tipo de controle sanitário, fiscalização ou transparência.
A presença de religiosos no episódio reforça uma dimensão pouco discutida do debate: quando uma substância amplamente consumida globalmente permanece ilegal, sua cadeia de distribuição tende a se infiltrar em diferentes setores sociais, muitas vezes sem distinção de perfil. Isso evidencia que o problema não está necessariamente na planta em si, mas no modelo de política pública adotado para lidar com ela.
Enquanto países que avançaram na regulação tratam a cannabis como questão de saúde, economia e direitos individuais, locais que mantêm abordagens repressivas seguem enfrentando episódios de grande apreensão sem impacto duradouro sobre a oferta.
O caso no Sri Lanka, portanto, vai além da prisão de um grupo específico. Ele ilustra como a proibição pode gerar distorções sociais e econômicas, alimentando um mercado paralelo que poderia ser substituído por um sistema regulado, com controle, segurança e arrecadação pública.
