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Cannabis assusta… mas a tarja preta virou “normal”?

by Redação

Por Cinthia Rosolem*

Durante décadas, bastava alguém ouvir a palavra “cannabis” para imaginar cenas dignas de filme policial dos anos 90. Enquanto isso, medicamentos tarja preta ganharam crachá VIP dentro de consultórios, farmácias e da rotina de milhares de famílias. Viraram quase personagens fixos da vida moderna: ansiedade? remédio. Insônia? remédio. Dor? remédio. Estresse? talvez dois.

Mas uma pergunta começou a circular nos corredores da medicina, e também entre responsáveis de pets: por que ainda existe tanto medo da cannabis medicinal, mesmo quando muitos medicamentos tradicionais apresentam efeitos adversos bastante pesados?

Spoiler: a resposta tem menos a ver com ciência… e muito mais com cultura, história e desinformação.

O medo tem memória longa

Os medicamentos controlados estão presentes na medicina há décadas. Antidepressivos, anticonvulsivantes, ansiolíticos e sedativos já fazem parte da paisagem clínica há tanto tempo que muita gente os considera automaticamente seguros.

A cannabis medicinal viveu o caminho oposto.

Por muitos anos, ela foi empurrada para o campo do tabu, do preconceito e da criminalização. Resultado? Mesmo com pesquisas avançando no mundo inteiro, muita gente ainda associa cannabis apenas ao uso recreativo e ignora completamente sua aplicação terapêutica.

E aí nasce um fenômeno curioso: algumas pessoas aceitam com tranquilidade medicamentos capazes de causar dependência, sedação intensa e alterações hepáticas… mas travam quando escutam a palavra “canabidiol”.

Tarja preta não é vilão… mas também não é bala de goma

Importante deixar claro: medicamentos controlados têm papel fundamental na medicina e salvam vidas diariamente. O problema não é a existência deles, e sim a ideia de que “tradicional” significa automaticamente “mais seguro”.

Na prática, muitos medicamentos controlados podem provocar efeitos adversos importantes, como:

  • sonolência intensa;
  • perda de apetite;
  • alterações hepáticas;
  • dependência química;
  • tremores;
  • vômitos;
  • desorientação;
  • mudanças comportamentais;
  • redução da interação social;
  • tolerância medicamentosa ao longo do tempo.

Na veterinária, muitos responsáveis relatam sofrimento ao ver cães e gatos excessivamente sedados, sem energia ou praticamente “desligados” após certos tratamentos.

E onde entra a cannabis nessa história?

A cannabis medicinal vem ganhando espaço justamente porque apresenta, em muitos casos, um perfil terapêutico promissor com menos efeitos colaterais severos.

Os compostos mais conhecidos da cannabis medicinal são o CBD (canabidiol) e o THC (tetra-hidrocanabinol), mas eles atuam de formas diferentes no organismo. O CBD é o mais utilizado na medicina veterinária e humana porque não possui efeito psicoativo relevante. Ele atua no sistema endocanabinoide, um sistema biológico presente em humanos e animais que ajuda a regular funções como dor, sono, apetite, humor e inflamação. Por isso, o CBD vem sendo estudado e utilizado em casos de ansiedade, epilepsia, dores crônicas e doenças inflamatórias.

Já o THC é o composto responsável pelos efeitos psicoativos da cannabis, mas na medicina ele é utilizado em doses controladas e com acompanhamento profissional. Em alguns tratamentos, principalmente relacionados à dor, apetite e relaxamento muscular, ele pode atuar de forma complementar ao CBD, potencializando os efeitos terapêuticos. Na medicina veterinária, o uso exige ainda mais cuidado, já que cães e gatos são mais sensíveis ao THC, tornando fundamental o acompanhamento veterinário especializado

Entre os benefícios mais relatados em tratamentos veterinários estão:

  • redução de crises convulsivas;
  • melhora da dor crônica;
  • controle da ansiedade;
  • melhora do sono;
  • aumento do apetite;
  • redução de inflamações;
  • melhora da mobilidade em animais idosos;
  • maior disposição e interação social.

Já os efeitos adversos mais comuns tendem a ser leves e ajustáveis, como:

  • sonolência moderada;
  • aumento da sede;
  • leve desconforto gastrointestinal;
  • relaxamento excessivo em doses elevadas.

Segundo uma revisão publicada na revista Frontiers in Veterinary Science, o uso de CBD em cães vem demonstrando boa tolerabilidade e potencial terapêutico para dor, epilepsia e ansiedade, embora os pesquisadores reforcem a necessidade de mais estudos clínicos para padronização das doses. 

O que os responsáveis contam na prática?

A medicina veterinária vem acumulando relatos que chamam atenção:

  • cães idosos voltando a caminhar com mais conforto;
  • pets epilépticos reduzindo crises;
  • animais ansiosos finalmente conseguindo dormir tranquilos;
  • gatos com dor crônica recuperando o interesse por brincar e interagir.

Claro: cannabis medicinal não é solução mágica e nem substitui todos os medicamentos convencionais. Mas em muitos casos ela aparece como alternativa complementar e, às vezes, menos agressiva ao organismo.

Então por que ainda existe tanto receio?

Porque preconceito demora mais para sair de cena do que evidência científica.

Muita gente ainda confunde cannabis medicinal com uso recreativo, sem saber que existem protocolos médicos, acompanhamento veterinário e produtos desenvolvidos exclusivamente para fins terapêuticos.

Além disso, a cannabis ainda está conquistando espaço regulatório e científico em diversos países. Já os medicamentos controlados tiveram décadas para construir sua reputação de “normalidade”.

O debate real não é “cannabis versus tarja preta”

A discussão moderna não deveria ser uma briga entre tratamentos. O ponto central é outro: qualidade de vida, segurança terapêutica e individualização do cuidado.

Cada paciente, seja humano ou animal, responde de forma diferente. E se existe uma alternativa que pode oferecer benefícios importantes com menos efeitos adversos em determinados casos, ela merece ser analisada sem medo e sem preconceito.

A cannabis medicinal não nasceu de moda de internet. Ela é resultado de pesquisa, ciência e anos de investigação clínica.

Talvez esteja na hora de trocar o susto pela informação.

*Cinthia Rosolem é Médica Veterinária Comportamentalista e Dermatologista
Médica Veterinária do NOC da Polícia Civil de Carapicuíba
Coordenadora das Pós Graduações em Comportamento Animal, Cinotecnia e Bem-Estar e Atividades Bioapropriadas e Manejo de Fauna pela SPMV
Coordenadora da pós Graduação em Psiquiatria Veterinária pela Faculdade Anclivepa
Mestranda pelo programa PCVet da USP
Palestrante em APH-Tático, Bem-Estar Animal e Enriquecimento Ambiental

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