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Ucrânia realiza primeiras prescrições de cannabis medicinal e inicia nova fase no acesso a tratamentos à base da planta

by Redação

Pacientes com esclerose múltipla e dor crônica relacionada à guerra estão entre os primeiros beneficiados pela regulamentação da cannabis medicinal no país.

A Ucrânia registrou um marco histórico em sua política de saúde ao realizar as primeiras prescrições oficiais de cannabis medicinal desde a entrada em vigor da legislação que regulamenta o setor. As prescrições ocorreram no dia 11 de junho, no Hospital Clínico Psiconeurológico Regional de Vinnytsia, e beneficiaram uma paciente com esclerose múltipla e um veterano de guerra amputado que convive com dores decorrentes de ferimentos sofridos em combate.

Os pacientes receberam medicamentos à base de THC prescritos por neurologistas da instituição. Entre eles está Lyudmila Monastyrska, diagnosticada com esclerose múltipla, e Yaroslav Yurchuk, ex-combatente que perdeu uma das pernas durante operações militares na região de Pokrovsk.

O avanço acontece quase dois anos após a aprovação do novo marco regulatório da cannabis medicinal na Ucrânia. A legislação foi sancionada em agosto de 2024 e autorizou o cultivo, processamento, fabricação e distribuição de produtos derivados da cannabis para fins medicinais, científicos e educacionais, sob um rígido sistema de licenciamento e controle estatal.

Segundo estimativas do Ministério da Saúde ucraniano, cerca de seis milhões de cidadãos poderão se beneficiar de tratamentos com medicamentos à base de cannabis.

A regulamentação permite a prescrição para uma série de condições médicas, incluindo dor crônica e neuropática, espasticidade, náuseas e vômitos associados à quimioterapia, doença de Parkinson, síndrome de Tourette, epilepsias farmacorresistentes, síndromes convulsivas infantis como Lennox-Gastaut e Dravet, esclerose tuberosa e perda de peso relacionada ao HIV.

Neste primeiro momento, a legislação autoriza apenas determinadas formulações farmacêuticas, como gotas orais, soluções, emulsões, suspensões, cápsulas duras, pastas e géis de uso bucal. De acordo com médicos locais, os primeiros pacientes receberam cápsulas contendo THC.

Para especialistas envolvidos na construção da regulamentação, o início das prescrições representa o resultado de anos de mobilização de pacientes, profissionais de saúde e organizações da sociedade civil.

“Após mais de oito anos de trabalho contínuo junto a organizações de pacientes, finalmente estamos vendo os resultados desse esforço com o primeiro paciente da Ucrânia recebendo um medicamento à base de cannabis medicinal”, afirmou Hennadii Shabas, presidente da Associação Ucraniana de Cannabis Medicinal.

Segundo ele, a implementação efetiva do programa representa apenas o início de uma nova etapa para o setor. O próximo desafio será desenvolver a produção nacional de cannabis medicinal, reduzindo a dependência de importações e fortalecendo a indústria farmacêutica local.

De acordo com Shabas, as primeiras instalações destinadas ao cultivo e à produção de cannabis medicinal já estão em construção no país.

A expectativa também é compartilhada por especialistas da Complant Consulting, empresa que atua na estruturação da cadeia de suprimentos da cannabis medicinal na Ucrânia. Para Lisa Fomenko, cofundadora da consultoria, a consolidação da primeira cadeia farmacêutica funcional voltada à cannabis medicinal representa um passo fundamental para ampliar o acesso dos pacientes.

“Nós acreditamos que o acesso informado à cannabis medicinal, baseado em evidências científicas comprovadas, pode contribuir para a redução de danos e para a promoção da saúde”, afirmou.

Já Oleksandr Alba, também cofundador da empresa, destacou que a próxima fase deve priorizar a capacitação de profissionais da saúde e farmacêuticos.

“Uma distribuição segura de cannabis medicinal começa com educação. Programas de formação para médicos, farmacêuticos e educadores são essenciais para garantir que os pacientes tenham acesso adequado e seguro aos tratamentos”, ressaltou.

A implementação da cannabis medicinal ocorre em um contexto particularmente desafiador para a Ucrânia, que segue enfrentando os impactos da invasão russa iniciada em 2022. Mesmo diante das dificuldades impostas pela guerra, o país avança na construção de uma política pública voltada ao acesso de pacientes a terapias canabinoides, acompanhando uma tendência observada em diversos países da Europa e de outras regiões do mundo.

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