Pesquisa com mais de 107 milhões de adultos identificou queda significativa em intoxicações não fatais por opioides em estados com acesso legal à cannabis medicinal e recreativa
Um novo estudo financiado pelo governo federal dos Estados Unidos reforça as evidências de que a legalização da cannabis medicinal e recreativa pode contribuir para a redução de overdoses relacionadas a opioides. A pesquisa identificou uma associação significativa entre o acesso legal à cannabis e a diminuição de intoxicações não fatais por opioides entre adultos com seguro de saúde privado ligado ao emprego.
O estudo foi conduzido por pesquisadores da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de Kentucky e publicado na revista científica Preventive Medicine Reports.
Os cientistas analisaram dados de 107,5 milhões de adultos com idades entre 18 e 64 anos, distribuídos nos 50 estados norte-americanos e em Washington, D.C., entre os anos de 2011 e 2021.
Segundo os resultados, estados que possuem dispensários de cannabis medicinal apresentaram redução de 15,47% nos casos de overdose não fatal por opioides a cada 100 mil segurados por trimestre. Já os estados com leis que permitem o uso adulto da cannabis registraram queda de 11,92%.
Os pesquisadores destacaram que os impactos foram ainda mais expressivos entre homens e adultos jovens. Na faixa etária entre 18 e 34 anos, a redução chegou a 23,27%.
Para os autores, os dados sugerem um possível “efeito substituição”, em que pacientes passam a utilizar cannabis no lugar de opioides prescritos para controle da dor e outras condições clínicas.
“Maior acesso à cannabis por meio de dispensários medicinais e leis de uso adulto pode reduzir overdoses em populações fortemente afetadas, indicando uma possível substituição dos opioides pela cannabis”, afirmaram os pesquisadores.
O estudo chama atenção por ser o primeiro a identificar essa associação especificamente em casos de intoxicação não fatal entre adultos com seguro de saúde corporativo. Até então, a maior parte das pesquisas havia focado na relação entre legalização da cannabis e redução de mortes por overdose.
Os autores defendem que políticas de redução de danos e ampliação do acesso a tratamentos baseados em evidências continuem sendo prioridade, mas afirmam que a regulamentação da cannabis pode atuar de forma complementar no enfrentamento da crise dos opioides.
A pesquisa foi financiada pelo National Institutes of Health (NIH), principal órgão de pesquisa biomédica dos Estados Unidos.
Os resultados se somam a um número crescente de estudos que apontam a cannabis medicinal como alternativa terapêutica para pacientes que utilizam opioides, especialmente em tratamentos de dor crônica.
Pesquisas recentes já haviam mostrado que pacientes usuários de cannabis medicinal reduziram o uso de opioides, antidepressivos e medicamentos para dormir após iniciarem o tratamento com derivados da planta.
Outros estudos publicados pela American Medical Association (AMA) também identificaram redução no uso de opioides entre pacientes com câncer em estados que legalizaram a cannabis medicinal ou recreativa.
Além disso, levantamentos anteriores observaram diminuição nas prescrições médicas de opioides e até queda em pagamentos realizados pela indústria farmacêutica de opioides a médicos especialistas em dor após a legalização da cannabis medicinal em determinados estados norte-americanos.
O tema voltou ao centro do debate nos Estados Unidos após o governo Donald Trump anunciar recentemente o avanço da reclassificação federal da cannabis medicinal, transferindo a planta da Tabela I para a Tabela III da Lei de Substâncias Controladas.
Durante declarações públicas recentes, o próprio Trump afirmou que a cannabis pode ajudar pacientes a se sentirem melhor e servir como substituta para analgésicos opioides “viciantes e potencialmente letais”.
A crise dos opioides segue como uma das maiores emergências de saúde pública dos Estados Unidos. Segundo autoridades sanitárias norte-americanas, centenas de milhares de mortes por overdose foram registradas nas últimas décadas, especialmente relacionadas ao uso de fentanil e outros opioides sintéticos.
