Proposta de limitar venda em coffeeshops a moradores locais divide cidade e levanta alerta sobre efeitos colaterais da proibição
A cidade de Amesterdã, historicamente associada a políticas mais tolerantes em relação à cannabis, voltou a discutir a possibilidade de proibir turistas estrangeiros de comprar a substância nos coffeeshops. A medida, conhecida como critério de residência, permitiria restringir o acesso apenas a quem vive nos Países Baixos e ganhou força após as eleições municipais de 2026, em meio ao aumento da pressão sobre o turismo de massa.
A proposta surge como resposta ao crescimento recorde de visitantes internacionais nos últimos anos, que tem impactado diretamente o cotidiano da cidade. Autoridades locais defendem que limitar o acesso à cannabis pode ajudar a reduzir a superlotação em regiões centrais e melhorar a qualidade de vida dos moradores. No entanto, a medida enfrenta forte resistência de especialistas e representantes do setor, que apontam riscos econômicos e de segurança pública.
Experiências anteriores em outras cidades holandesas indicam que restringir a venda legal não reduz o consumo, mas desloca a demanda para o mercado ilegal. Em locais onde o critério de residência foi adotado, houve aumento do comércio clandestino nas ruas, com perda de controle sobre qualidade e origem dos produtos, além de maior exposição a redes criminosas. A avaliação predominante é de que a política não elimina a procura, apenas muda o caminho pelo qual ela é atendida.
O impacto econômico também está no centro do debate. Coffeeshops são parte importante da dinâmica turística de Amesterdã e movimentam bilhões de euros anualmente. Dados da consultoria Ipsos I&O, divulgados em março de 2026, mostram que milhões de turistas frequentam esses estabelecimentos todos os anos, gerando cerca de 2,2 bilhões de euros para a economia local. A possível restrição pode afastar uma parcela relevante desses visitantes, com reflexos diretos em hotéis, bares, restaurantes e no comércio em geral.
Além da queda de receita, há preocupação com o aumento dos custos de fiscalização. Com a migração do consumo para o mercado ilegal, o poder público pode precisar ampliar investimentos em segurança, ao mesmo tempo em que perde arrecadação tributária. Esse cenário cria um efeito duplo de pressão sobre as finanças municipais.
Apesar das críticas ao turismo canábico, pesquisas indicam que ele não é o principal fator de incômodo para a população. Levantamentos recentes mostram que problemas como consumo excessivo de álcool e superlotação urbana são mais citados pelos moradores do que o uso de canábis. O apoio à proibição também não é majoritário, o que reforça a complexidade do tema e a divisão de opiniões dentro da própria cidade.
No campo político, o debate se intensificou e divide partidos. Enquanto algumas legendas defendem a restrição como forma de reorganizar o centro urbano, outras argumentam que a medida é ineficaz e pode gerar consequências indesejadas, como o fortalecimento do mercado clandestino. Há também quem defenda uma abordagem mais ampla, baseada na regulação e na redução de danos, em vez de novas restrições.
A discussão ocorre em um momento de transformação global das políticas de drogas, com diversos países avançando na regulamentação da canábis. Nesse contexto, restringir o acesso pode afetar a posição de Amesterdão como destino internacional e reduzir sua competitividade frente a outros mercados emergentes.
Mais do que uma decisão local, o debate expõe um dilema que se repete em diferentes partes do mundo, incluindo o Brasil: até que ponto políticas restritivas são capazes de reduzir problemas sociais ou se acabam deslocando-os para contextos menos controlados. Em Amesterdã, a resposta ainda está em construção, mas os efeitos dessa escolha tendem a ultrapassar as fronteiras da cidade.
