Estado norte-americano aposta em modelo público para desenvolver substância psicodélica com potencial terapêutico, apesar de desafios regulatórios e financeiros
O estado do Texas anunciou que irá financiar integralmente um programa de pesquisa com ibogaína, uma substância psicodélica com potencial terapêutico para dependência química e transtornos mentais. A decisão foi tomada após autoridades não conseguirem atrair empresas farmacêuticas interessadas em participar do desenvolvimento do composto para aprovação pela Food and Drug Administration.
O vice-governador Dan Patrick e o presidente da Câmara estadual Dustin Burrows afirmaram que o estado utilizará os US$ 50 milhões já aprovados pelo Legislativo em 2025 para avançar com pesquisas em parceria com universidades e centros médicos locais. “Temos a intenção de financiar integralmente este programa”, disseram em comunicado oficial.
A iniciativa surge após propostas apresentadas por empresas do setor não atenderem às exigências estabelecidas pelo estado. Entre os critérios estavam a obrigação de igualar o investimento público, estabelecer sede no Texas, apresentar um plano de aprovação junto à FDA e ainda destinar 20% das receitas futuras ao estado — condições consideradas excessivamente rígidas.
Segundo Katharine Neill Harris, pesquisadora de políticas de drogas do Baker Institute for Public Policy da Rice University, o fracasso em atrair empresas era previsível. Ela destacou que o desenvolvimento de medicamentos psicodélicos envolve riscos elevados e custos que podem ultrapassar US$ 100 milhões, tornando o modelo proposto pouco atrativo para a iniciativa privada.
A ibogaína é um alcaloide extraído de um arbusto africano tradicionalmente utilizado em rituais espirituais. Nos últimos anos, tem despertado interesse científico por seus potenciais efeitos no tratamento de dependência química, transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) e lesões cerebrais. Apesar disso, a substância permanece proibida nos Estados Unidos.
Mesmo com a ilegalidade, há anos pacientes viajam para clínicas no México em busca de tratamento com ibogaína, fenômeno que evidencia a demanda reprimida por alternativas terapêuticas fora dos modelos tradicionais.
O programa foi instituído a partir da sanção da lei estadual SB 2308 pelo governador Greg Abbott, que criou um consórcio entre universidades, hospitais e desenvolvedores de fármacos para conduzir ensaios clínicos e buscar a aprovação da substância como medicamento.
Na prática, a ausência de parceiros privados pode exigir ajustes legais para viabilizar o uso dos recursos públicos, já que a legislação previa contrapartidas financeiras da iniciativa privada. Ainda assim, instituições como a UTHealth Houston e a University of Texas Medical Branch já foram selecionadas para liderar estudos clínicos com duração inicial de dois anos.
Especialistas avaliam que a iniciativa coloca o Texas na vanguarda da pesquisa com psicodélicos nos Estados Unidos, em um momento em que diferentes estados começam a discutir políticas mais abertas para substâncias antes restritas.
O movimento acompanha uma tendência global de revisão de políticas de drogas baseada em evidências científicas. No Brasil, esse debate também ganha força no campo da cannabis medicinal, que já movimenta cerca de R$ 971 milhões por ano e atende aproximadamente 873 mil pacientes, segundo o Anuário da Cannabis Medicinal no Brasil 2025, elaborado pela Kaya Mind.
Assim como ocorre com a cannabis, pesquisadores e ativistas defendem que o avanço científico sobre substâncias como a ibogaína pode abrir caminho para novos tratamentos e, ao mesmo tempo, pressionar governos a rever modelos proibicionistas que historicamente dificultam o acesso à saúde e à inovação terapêutica.
