Marca do ícone da música country cresce rapidamente nos EUA enquanto Brasil amplia acesso à cannabis medicinal e discute novos modelos de consumo
Aos 92 anos, Willie Nelson segue reinventando sua trajetória e consolidando um novo papel no mercado legal da cannabis. Longe da imagem de “fora da lei” que marcou parte de sua carreira, o artista agora lidera um negócio milionário com foco em bebidas infusionadas com THC, reforçando uma tendência global que conecta saúde, bem-estar e redução de danos.
Sua marca, Willie’s Remedy+, alcançou faturamento anual de US$ 80 milhões, segundo a empresa, menos de um ano após iniciar as vendas online. O desempenho chama atenção não apenas pela velocidade, mas pelo posicionamento: bebidas à base de cannabis como alternativa ao consumo de álcool.
Para Nelson, que abandonou o tabaco e a bebida alcoólica após décadas de uso, a motivação é pessoal. Ele defende que produtos com cannabis podem substituir o álcool de forma mais segura, especialmente diante dos impactos associados ao consumo excessivo de bebidas alcoólicas.
A empresa nasceu de uma parceria com a JuneShine Brands, responsável por operações, marketing e distribuição. Em poucos meses, a marca lançou tônicos e águas gaseificadas derivadas de cânhamo, com doses controladas de THC, consolidando-se rapidamente no mercado norte-americano.
O crescimento acelerado também atraiu investidores. A startup levantou US$ 15 milhões em uma rodada Série A liderada pela Left Lane Capital, com participação da Second Sight Ventures. O objetivo agora é expandir a distribuição física e alcançar até 10 mil pontos de venda.
A estratégia inclui presença em varejistas e plataformas de entrega, além de investimento em estoque após sucessivas rupturas de produtos. Em menos de um ano, a marca chegou a registrar lista de espera com 10 mil consumidores.
Mais do que números, o caso evidencia uma mudança de comportamento. Diferentemente de outras marcas do setor, o público da Willie’s Remedy+ é majoritariamente mais velho e com maior poder aquisitivo, o que desafia a ideia de que a cannabis legal está restrita às gerações mais jovens.
Essa transformação também passa por eventos ao vivo e experiências presenciais. A marca patrocinou a turnê recente de Nelson e aposta na experimentação social das bebidas com THC como motor de crescimento, em um movimento que pode reposicionar a cannabis como substituta funcional do álcool em ambientes públicos.
No Brasil, embora bebidas com THC ainda não sejam permitidas, o avanço do mercado de cannabis medicinal aponta para uma mudança gradual na percepção social e regulatória. O país já ultrapassa 430 mil pacientes em tratamento com produtos à base de cannabis, segundo dados da Agência Nacional de Vigilância Sanitária e levantamentos de entidades do setor como a Kaya Mind (2024).
Relatórios de mercado indicam que o setor brasileiro de cannabis medicinal movimenta mais de R$ 1 bilhão ao ano, com projeções de crescimento contínuo impulsionado pela ampliação do acesso via importação e decisões judiciais (Fonte: Kaya Mind, 2024).
Além disso, o debate sobre cultivo nacional e ampliação de categorias de produtos segue em pauta, com expectativa de evolução regulatória nos próximos anos. Especialistas apontam que modelos internacionais, como o de bebidas infusionadas, podem futuramente influenciar discussões sobre novos formatos de consumo no Brasil, especialmente sob a perspectiva de redução de danos.
Apesar do avanço, o cenário global ainda enfrenta incertezas regulatórias, especialmente nos Estados Unidos. Ainda assim, investidores seguem apostando no potencial de expansão da categoria, que pode alcançar escala comparável à indústria de bebidas alcoólicas nos próximos anos, segundo análises de mercado da Brightfield Group e Grand View Research.
A trajetória de Willie Nelson sintetiza esse momento histórico: de símbolo da contracultura à liderança de um mercado legal em crescimento, onde a cannabis deixa de ser marginalizada para ocupar espaço como alternativa terapêutica, econômica e socialmente mais responsável.
