Ciência e Pesquisa

THC provoca mudanças no coração e nos músculos respiratórios, revela pesquisa brasileira

J
João Negromonte

28 de outubro de 2026

Compartilhar:
THC provoca mudanças no coração e nos músculos respiratórios, revela pesquisa brasileira

Durante um teste respiratório com resistência, voluntários que haviam ingerido óleo de tetrahidrocanabinol (THC) apresentaram frequência cardíaca mediana de 84 batimentos por minuto, contra 72 após receberem placebo. A diferença, registrada duas horas e meia depois da administração, foi estatisticamente significativa.

O resultado integra um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), publicado em 27 de agosto de 2026 no British Journal of Clinical Pharmacology. A pesquisa investigou como óleos contendo THC, isoladamente ou em combinação com canabidiol (CBD), influenciam o funcionamento cardiovascular e a atividade de músculos envolvidos na respiração.

O ensaio, realizado com 18 adultos saudáveis, identificou aumento da frequência cardíaca após a administração dos dois óleos. Entretanto, parte das respostas fisiológicas foi mais pronunciada quando os participantes receberam a formulação de THC sem a combinação adicional de CBD.

Os resultados ampliam o conhecimento sobre os efeitos agudos dos canabinoides, mas não demonstram que os produtos tenham provocado danos cardíacos ou comprometimento da capacidade respiratória.

Como os pesquisadores avaliaram os efeitos do THC no coração

Para investigar os efeitos do THC no coração e na musculatura respiratória, os cientistas realizaram um ensaio clínico randomizado, duplo-cego e cruzado. Nesse modelo, os mesmos participantes receberam diferentes intervenções em momentos separados, permitindo comparar as respostas de cada voluntário.

Foram avaliadas três condições. Na primeira, os participantes receberam 12,5 miligramas de THC. Na segunda, uma combinação de 12,5 miligramas de CBD com 12,5 miligramas de THC. Na terceira, um óleo placebo, sem os canabinoides estudados.

As administrações ocorreram por via oral, em visitas diferentes, com intervalos entre as sessões. As avaliações foram realizadas antes da ingestão e repetidas após 60 e 150 minutos.

Durante os testes, os voluntários passaram por períodos de respiração espontânea, esforço respiratório contra uma resistência controlada e recuperação. Equipamentos registraram frequência cardíaca, parâmetros da circulação sanguínea, atividade elétrica dos músculos respiratórios e indicadores de oxigenação dos tecidos.

A pesquisa foi registrada no Registro Brasileiro de Ensaios Clínicos (ReBEC), sob o código RBR-3jsvtbr. O artigo também informa que o experimento recebeu autorização especial da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para atividades de ensino e pesquisa.

Batimentos cardíacos aumentaram após os dois óleos

A frequência cardíaca apresentou elevação significativa em momentos específicos após a administração dos óleos contendo THC.

Na avaliação realizada 150 minutos depois da ingestão, durante o esforço respiratório, a mediana foi de 84 batimentos por minuto na condição com óleo de THC e de 72 na condição com placebo. Na mesma etapa, os participantes apresentaram mediana de 81 batimentos por minuto após a combinação de CBD e THC.

Além dos batimentos, os pesquisadores observaram outras alterações cardiovasculares.

Na condição com óleo de THC, o índice cardíaco, indicador que relaciona o volume de sangue bombeado pelo coração à superfície corporal, aumentou em determinados momentos da avaliação. Também houve redução de um índice relacionado à resistência oferecida pelos vasos sanguíneos à circulação.

Esses resultados mostram que a administração dos canabinoides foi acompanhada por mudanças na dinâmica cardiovascular dos voluntários. Entretanto, alterações fisiológicas registradas em um experimento não significam, necessariamente, a existência de uma doença ou de um efeito prejudicial à saúde.

THC também modificou a atividade dos músculos respiratórios

As diferenças não ficaram restritas ao coração.

Durante os testes em que os voluntários precisavam inspirar contra uma resistência, os pesquisadores identificaram aumento da atividade elétrica de músculos que auxiliam no processo respiratório.

Na condição com óleo de THC, as alterações envolveram principalmente o esternocleidomastoideo, localizado no pescoço, e os músculos paraesternais, situados na região do tórax.

Na intervenção com CBD e THC, também foram observados aumentos na atividade de músculos como os escalenos e os paraesternais. O padrão geral, contudo, foi descrito pelos pesquisadores como mais atenuado em comparação com o observado após o óleo de THC.

Essa diferença exige uma interpretação cuidadosa.

A pesquisa mediu a ativação elétrica dos músculos durante uma tarefa respiratória específica. Não avaliou se os voluntários passaram a respirar melhor ou pior em suas atividades cotidianas.

Uma atividade muscular mais intensa também não significa, por si só, maior dificuldade para respirar.

Os pesquisadores acompanharam ainda indicadores relacionados à oxigenação de tecidos periféricos. Algumas medidas apresentaram alterações, mas parte dos resultados não alcançou significância estatística, o que impede conclusões mais amplas sobre seus efeitos.

A combinação com CBD apresentou respostas mais moderadas

Uma das questões levantadas pelo estudo envolve as diferenças entre as duas formulações.

Embora ambas tenham produzido alterações cardiovasculares, os pesquisadores descreveram respostas fisiológicas geralmente mais pronunciadas após a administração do óleo de THC. Na combinação de CBD com THC, parte dessas respostas foi mais moderada.

Isso, entretanto, não significa que o CBD tenha demonstrado capacidade de proteger o coração ou neutralizar os efeitos do THC.

O experimento não incluiu uma intervenção com CBD isolado. Também não foram medidas as concentrações dos canabinoides no sangue dos participantes, o que limita a avaliação de possíveis interações entre as substâncias.

As diferenças observadas não permitem, portanto, atribuir exclusivamente ao CBD o comportamento mais atenuado de determinados indicadores.

A questão se relaciona a um tema mais amplo da pesquisa sobre canabinoides, já abordado pelo Portal Cannabis Medicinal ao explicar por que a cannabis faz efeito diferente em cada pessoa. Características individuais, doses, formulações e metabolismo podem influenciar a resposta do organismo, embora nem todos esses fatores tenham sido avaliados no experimento da UFRN.

O que os resultados significam para a cannabis medicinal

O estudo acrescenta informações sobre respostas cardiovasculares e respiratórias após a administração oral de canabinoides. Ainda assim, seus resultados precisam ser interpretados dentro das condições em que o experimento foi realizado.

A amostra foi composta por apenas 18 adultos jovens e saudáveis. Os pesquisadores avaliaram os efeitos de uma administração única e acompanharam as respostas por um período limitado.

A pesquisa não investigou o uso contínuo de cannabis medicinal, a eficácia no tratamento de doenças ou os efeitos em pessoas com condições cardiovasculares e respiratórias preexistentes.

Durante o experimento, participantes relataram sintomas como sonolência e tontura, mas não foram registrados eventos adversos graves. A ausência dessas ocorrências em uma amostra pequena, contudo, não estabelece a segurança das formulações em outros públicos ou em tratamentos prolongados.

Os próprios autores reconhecem a necessidade de estudos maiores, com diferentes perfis de participantes, para compreender o significado clínico das alterações observadas.

O trabalho recebeu apoio parcial da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), além de bolsas do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Os pesquisadores declararam não possuir conflitos de interesse.

Para a medicina, os resultados ajudam a identificar quais respostas do organismo merecem novas investigações. Ainda não oferecem evidências suficientes para estabelecer recomendações de dose, escolher formulações ou modificar tratamentos com base apenas nas diferenças observadas.


Precisa de orientação médica?

Encontre um especialista em cannabis medicinal perto de você.

Encontrar Médico Especialista

Encontre seu Especialista

Profissionais especialistas em todo o Brasil

Consulta presencial e telemedicina

Aviso Legal

Este conteúdo é meramente informativo e não substitui consulta médica. O uso de cannabis medicinal deve ser feito sob orientação de profissional habilitado, conforme regulamentação da Anvisa (RDC 327/2019). Não nos responsabilizamos pelo uso indevido das informações aqui contidas.

Agende sua Consulta com um Especialista em Cannabis Medicinal

Encontre o especialista certo para o seu tratamento

1. Escolha a especialidade
2. Encontre o especialista
3. Marque a consulta

Consulta presencial e telemedicina disponíveis