Na década de 1960, o cientista israelense Raphael Mechoulam, conhecido como o pai da pesquisa moderna sobre cannabis, decidiu fazer uma experiência pouco convencional. Sua esposa, Dalia, preparou um bolo, e alguns amigos foram convidados a experimentar fatias contendo THC, principal composto psicoativo da planta.
O resultado surpreendeu o pesquisador. Enquanto alguns participantes ficaram falantes e deram risadas, outros permaneceram relaxados. Uma jovem, porém, apresentou uma crise de ansiedade. Todos haviam recebido quantidades semelhantes da substância, mas as reações foram bastante diferentes.
Em uma entrevista concedida à Folha de S.Paulo em 2007, Mechoulam contou que as porções continham aproximadamente 10 a 12 miligramas de THC. Ele também relatou que um dos participantes inicialmente dizia não sentir nada, mas, minutos depois, começava a rir.
O episódio, posteriormente relembrado no documentário The Scientist, não foi um ensaio clínico nos padrões atuais. Ainda assim, ilustra uma questão que permanece relevante para a medicina. Por que a mesma substância pode provocar respostas tão diferentes?
A resposta envolve características individuais, a forma de administração e a maneira como o organismo absorve e metaboliza os canabinoides.
O papel do fígado e da genética
Quando o THC é ingerido, parte da substância é absorvida pelo sistema digestivo e passa pelo fígado antes de alcançar a circulação sanguínea. Nesse processo, ocorre a formação do 11-hidroxi-THC, um metabólito que também apresenta atividade psicoativa.
A velocidade e a intensidade desse processo não são iguais para todas as pessoas. Fatores genéticos, alimentação, características do produto, uso de outros medicamentos e frequência de consumo podem interferir na resposta.
Uma das enzimas envolvidas é a CYP2C9, produzida principalmente no fígado. Suas diferentes variantes genéticas ajudam a explicar por que algumas pessoas processam o THC de maneira distinta.
Em um estudo publicado na revista Clinical Pharmacology & Therapeutics, pesquisadores avaliaram 43 voluntários e identificaram que participantes com determinada variante do gene CYP2C9 apresentaram uma exposição ao THC aproximadamente três vezes maior do que aqueles com a variante de referência.
A descoberta demonstra que a genética pode modificar a quantidade de THC que circula pelo organismo e potencialmente influenciar seus efeitos. Entretanto, não significa que seja possível prever a resposta individual apenas por um exame genético.
Também não existe comprovação de que determinadas pessoas sejam completamente imunes à cannabis ingerida.
Outro fator importante é o tempo de ação. Um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade Johns Hopkins identificou que os efeitos da cannabis ingerida podem atingir maior intensidade algumas horas após o consumo e persistir por seis a oito horas.
Isso ajuda a explicar por que alguém pode acreditar que uma preparação não produziu efeitos quando, na realidade, eles ainda não se manifestaram plenamente.
E quando o óleo de cannabis parece não funcionar?
Embora a experiência de Mechoulam tenha envolvido THC, a discussão também interessa aos pacientes que utilizam medicamentos à base de canabidiol (CBD).
Nesse caso, existe uma diferença essencial. Ao contrário do THC, o CBD não provoca a euforia característica da cannabis. Portanto, não sentir alterações psicoativas não significa que o medicamento esteja deixando de agir.
A resposta terapêutica deve ser avaliada conforme a condição tratada e os objetivos estabelecidos pelo médico, como redução de crises convulsivas ou melhora de sintomas específicos.
A alimentação também pode interferir na quantidade de CBD absorvida. Uma pesquisa publicada em 2025 na revista Scientific Reports avaliou 11 voluntários e observou aumento expressivo da absorção de uma formulação oral de CBD quando administrada após uma refeição rica em gordura.
Os resultados, porém, não podem ser generalizados para todos os óleos e medicamentos. Diferentes formulações apresentam comportamentos distintos, e alterações na forma de administração devem seguir orientação profissional.
Outras características também precisam ser consideradas, como a concentração de canabinoides, a dose prescrita, a regularidade do tratamento e possíveis interações com medicamentos utilizados pelo paciente.
O próprio Portal Cannabis Medicinal já abordou cuidados importantes na administração do óleo de cannabis, mostrando como detalhes da utilização podem fazer diferença na rotina terapêutica.
Para quem não percebe os resultados esperados, a orientação é conversar com o profissional responsável antes de modificar a quantidade administrada ou substituir o produto.
Aumentar a dose por conta própria pode elevar o risco de efeitos adversos, especialmente quando a formulação contém THC. O Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC) alerta que os efeitos dos comestíveis podem demorar a aparecer e ter intensidade imprevisível.
Mais de seis décadas depois da experiência com o bolo de Mechoulam, a ciência avançou na compreensão dos canabinoides, mas ainda não consegue prever completamente como cada organismo responderá.
A principal lição permanece atual. Quando se trata de cannabis medicinal, não existe uma resposta única para todos os pacientes. Conhecer as características individuais, acompanhar os resultados e ajustar o tratamento com orientação médica é parte fundamental do cuidado.




