Ciência e Pesquisa

7% menos faltas no trabalho após acesso à cannabis

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João Negromonte

02 de setembro de 2026

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7% menos faltas no trabalho após acesso à cannabis

Mais de 20 milhões de trabalhadores, 35 anos de dados e uma redução média de 6,9% nas faltas por motivos de saúde.

Esses são os números centrais de um estudo publicado em junho de 2026 no Journal of Workplace Behavioral Health. Os pesquisadores analisaram informações de 20.318.127 trabalhadores americanos, entre janeiro de 1990 e março de 2025, para entender o que aconteceu com o comparecimento ao trabalho depois que diferentes estados mudaram suas leis de acesso à cannabis.

O principal resultado aparece após a descriminalização da planta e seus derivados para fins medicinais. Nos estados analisados, a probabilidade de um trabalhador relatar ausência por doença, lesão ou outro problema médico caiu cerca de 6,9% em relação à média observada antes da mudança legal.

O dado chama atenção. Mas não significa que usar cannabis faça qualquer trabalhador faltar 7% menos.

O que os pesquisadores realmente encontraram

O estudo não acompanhou pacientes individualmente nem registrou quem utilizava CBD, THC, flores ou qualquer outro produto.

A análise foi feita a partir do Current Population Survey, pesquisa mensal conduzida pelo U.S. Census Bureau e pelo Bureau of Labor Statistics. Os autores compararam estados em momentos diferentes, antes e depois das mudanças na legislação, considerando também fatores como idade, escolaridade, situação econômica e desemprego.

Em linguagem simples, eles procuraram saber se a mudança nas regras de acesso veio acompanhada de uma alteração nas faltas por problemas de saúde.

E veio.

Na amostra geral, cerca de 0,7% dos trabalhadores relataram ter faltado por doença ou lesão na semana anterior à entrevista. Após a mudança nas leis medicinais, essa probabilidade caiu aproximadamente cinco centésimos de ponto percentual.

Comparado ao nível inicial, o efeito equivale a cerca de 6,9% de redução.

Em algumas profissões, a diferença foi bem maior

Quando os pesquisadores abriram os dados por ocupação, surgiram números ainda mais fortes.

Entre trabalhadores de fabricação, montagem e outras atividades manuais, a redução estimada nas ausências chegou a 39%.

Para operadores de máquinas industriais, ficou em 33%.

Entre trabalhadores de serviços de saúde, como auxiliares de enfermagem e assistentes odontológicos, a queda foi de 32%.

No trabalho rural, a estimativa ficou em 18%.

Também apareceram reduções estatisticamente significativas entre profissionais de preparação de alimentos, vendas, informática, serviços sociais e advocacia.

Na análise por setores econômicos, a indústria de bens duráveis apresentou redução estimada de 31%, seguida pela agricultura, com 16%, e pela construção, com cerca de 9%.

Nenhuma ocupação ou setor analisado apresentou aumento estatisticamente significativo das faltas associado às mudanças nas leis medicinais.

Trabalho pesado pode ajudar a explicar os números

Os maiores efeitos apareceram justamente em profissões que costumam envolver esforço físico, movimentos repetitivos, lesões musculares e dores nas costas ou articulações.

Por isso, os pesquisadores consideram plausível que um maior acesso a tratamentos com cannabis possa ter ajudado parte desses trabalhadores a controlar sintomas que normalmente provocam afastamentos.

Mas o estudo não consegue provar esse caminho. A base de dados não informa quem utilizou cannabis, qual produto foi consumido, qual doença estava sendo tratada ou se uma eventual melhora da dor foi responsável pela redução das ausências.

O resultado, portanto, deve ser lido como uma associação entre mudança de política pública e redução do absenteísmo, e não como promessa de efeito terapêutico individual.

E as leis de uso adulto?

A pesquisa também avaliou mudanças nas regras para cannabis de uso adulto.

Nesse recorte específico, os autores não encontraram alteração estatisticamente significativa nas faltas relacionadas à saúde, tanto após a mudança legal quanto após o início das vendas regulamentadas.

Isso não estabelece uma comparação de valor entre uso medicinal e adulto.

O estudo analisou apenas um indicador bastante específico — ausência do trabalho por doença ou lesão. Não mediu qualidade de vida, liberdade individual, acidentes, desempenho profissional ou outros impactos das políticas de cannabis.

20 milhões de registros colocam o tema no radar das empresas

O tamanho da amostra ajuda a explicar por que a pesquisa ultrapassa a discussão médica.

Os autores lembram que as ausências laborais representam um custo relevante para as empresas e para a economia. Uma redução aparentemente pequena, quando aplicada a milhões de trabalhadores, pode representar um efeito importante sobre produtividade, organização de equipes e gastos relacionados a afastamentos.

Ao mesmo tempo, a própria pesquisa pede cautela.

Os dados são autorreferidos, não mostram a duração das faltas, não identificam a doença que provocou cada ausência e não permitem saber quais trabalhadores efetivamente utilizaram cannabis.

Mesmo com essas limitações, o estudo adiciona um elemento pouco explorado ao debate.

A cannabis já é discutida em termos de saúde, acesso, regulação e mercado. Agora, uma base com mais de 20 milhões de trabalhadores acrescenta também trabalho e produtividade à conversa.


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