A cannabis já faz parte da rotina de muitos pacientes com câncer. Em alguns casos, ajuda a controlar náuseas, vômitos, dor, falta de apetite ou dificuldades para dormir. Em outros, entra em estudos que tentam entender se seus compostos podem também interferir diretamente no crescimento de tumores.
São duas frentes diferentes. Uma já chegou ao cuidado clínico. A outra ainda está sendo investigada.
Onde a cannabis já é usada
A evidência mais consolidada está no controle de náuseas e vômitos provocados pela quimioterapia.
A Sociedade Americana de Oncologia Clínica, ASCO, reconhece o uso de alguns medicamentos à base de canabinoides como opção para pacientes que continuam passando mal mesmo depois de usar os remédios convencionais contra esses sintomas.
Nos Estados Unidos, substâncias como dronabinol e nabilona, produzidas a partir de compostos relacionados ao THC, já são utilizadas há anos para esse tipo de situação.
Isso não significa que todo paciente em quimioterapia precise de cannabis. Significa que ela já ocupa um espaço reconhecido quando os tratamentos mais tradicionais não resolvem completamente o problema.
Dor, sono e apetite também entram na conversa
Pesquisas mais recentes têm ampliado esse olhar. Uma revisão publicada em 2025 reuniu 98 estudos sobre uso de canabinoides em pacientes com câncer e encontrou sinais de benefício em áreas como dor, ansiedade, sono, apetite, náuseas e vômitos.
Os resultados não foram iguais em todos os estudos, nem para todos os pacientes. Isso acontece porque “cannabis” não é um produto único. Há diferentes concentrações de THC e CBD, diferentes formas de uso e diferentes condições clínicas.
Mesmo assim, o conjunto das pesquisas mostra que os canabinoides já fazem parte de uma discussão real sobre qualidade de vida durante o tratamento oncológico. Às vezes o ganho não está em atacar o tumor. Está em conseguir comer melhor, dormir, ter menos dor, ou atravessar a quimioterapia com menos desconforto.
E contra o tumor?
É aqui que a pesquisa fica mais promissora — e também mais cuidadosa.
Em laboratório, THC, CBD e outros canabinoides já demonstraram capacidade de interferir em processos ligados ao crescimento de células tumorais. Pesquisadores observam efeitos sobre multiplicação celular, formação de vasos sanguíneos e morte programada de células em diferentes tipos de câncer.
Uma análise publicada em 2026 reuniu 189 estudos pré-clínicos e encontrou resultados antitumorais em vários modelos experimentais. Esses dados ajudam a explicar por que o assunto continua recebendo tanta atenção científica.
Mas experimentos em células e animais não são suficientes para dizer que a cannabis trata câncer em pessoas. O próximo passo é justamente esse.
Glioblastoma está entre os tumores estudados
Um dos exemplos mais avançados está no glioblastoma, um tipo agressivo de tumor cerebral. Pesquisadores já testaram uma combinação de THC e CBD, presente no medicamento nabiximols, junto com temozolomida, uma das drogas usadas no tratamento desse câncer.
Um pequeno estudo inicial mostrou que a combinação era viável e abriu caminho para pesquisas maiores. Agora, um ensaio clínico britânico chamado ARISTOCRAT investiga essa estratégia em pacientes com glioblastoma recorrente.
O objetivo é descobrir se os sinais observados em pesquisas anteriores realmente se confirmam quando avaliados de forma mais ampla.
Cannabis já entrou na oncologia. A ciência continua avançando
Hoje, a posição das principais entidades médicas é relativamente clara. Cannabis e canabinoides já podem ter papel no controle de alguns sintomas ligados ao câncer e ao tratamento.
Ao mesmo tempo, seu uso diretamente contra tumores ainda precisa de estudos clínicos mais robustos. As duas coisas não se contradizem.
A cannabis pode ajudar um paciente mesmo sem ser, naquele momento, o medicamento que está combatendo o câncer. E é justamente essa diferença que permite enxergar o tema com mais maturidade. A planta já saiu da condição de simples hipótese. Ela entrou no cuidado oncológico. Agora, pesquisadores tentam entender até onde esse papel pode crescer.
Fontes
ASCO — Cannabis and Cannabinoids in Adults With Cancer
Diretriz da Sociedade Americana de Oncologia Clínica sobre cannabis e cuidados com pacientes com câncer.
National Cancer Institute — Cannabis and Cannabinoids
Revisão oficial sobre cannabis, sintomas relacionados ao câncer e pesquisas em andamento.
Cannabinoids for the Palliation of Cancer-Associated Symptoms
Revisão de 98 estudos sobre canabinoides e sintomas relacionados ao câncer.
Antitumor Activity of Cannabinoids
Meta-análise de 189 estudos pré-clínicos sobre possíveis efeitos antitumorais de canabinoides.
Nabiximols e temozolomida em glioblastoma
Estudo clínico inicial que ajudou a abrir caminho para pesquisas maiores.




