Durante décadas, álcool e cannabis ocuparam lugares quase opostos na sociedade. Um é vendido em supermercados, bares e estádios; a outra foi criminalizada, estigmatizada e ainda enfrenta restrições mesmo para fins medicinais.
Os números, porém, começam a revelar uma inversão curiosa: o consumo de cannabis avança enquanto alguns dos principais indicadores relacionados ao álcool recuam.
O fenômeno aparece nos Estados Unidos e também encontra paralelo no Brasil. Mas isso significa que as pessoas estão trocando uma substância pela outra?
A ciência começa a procurar essa resposta.
O movimento apareceu nos Estados Unidos
Um estudo publicado em agosto de 2026 na JAMA Psychiatry, conduzido por pesquisadores do National Institute on Drug Abuse (NIDA), ligado aos Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos (NIH), analisou dados de 186.823 adultos entrevistados entre 2021 e 2024.
Entre os homens, o uso de cannabis no último ano passou de 22,2% para 25,7%. Entre as mulheres, de 17,7% para 21,2%.
No álcool, o consumo apresentou uma queda geral estatisticamente razoável no mesmo período. Entre os homens, foi de 69% para 67,3%; entre as mulheres, permaneceu praticamente estável, de 64,9% para 65,3%.
A divergência fica mais evidente quando os pesquisadores analisam os transtornos associados às duas substâncias.
Entre os homens, a prevalência de transtorno por uso de cannabis — conhecido pela sigla CUD — aumentou de 7,3% para 9,3%. Entre as mulheres, de 4,5% para 5,6%.
Já o transtorno por uso de álcool (AUD) caiu entre as mulheres, de 9,7% para 8,2%. Entre os homens, passou de 13,3% para 12,6%.
A diferença aparece também em determinados grupos etários. Entre homens de 21 a 34 anos, por exemplo, o AUD caiu de 20% para 17%. Entre mulheres dessa mesma faixa, foi de 15% para 12,6%.
Os próprios autores apontam que essa divergência pode refletir mudanças culturais e comportamentais, incluindo uma preferência crescente pela cannabis em relação ao álcool.
Mas há uma ressalva fundamental. O estudo é transversal, ele identifica movimentos que acontecem ao mesmo tempo, mas ressalta que o avanço da cannabis pode não ser o responsável direto pelo recuo dos problemas relacionados ao álcool.
No Brasil, a cannabis mais que dobrou
Por aqui, uma transformação semelhante aparece no 3º Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (LENAD III), coordenado pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
A pesquisa entrevistou 16.608 brasileiros em 349 municípios e permite comparar o cenário encontrado em 2023 com o levantamento realizado em 2012.
No caso da cannabis, a mudança é expressiva.
O consumo passou de aproximadamente 2,8% da população em 2012 para cerca de 6% em 2023. Ou seja, mais que dobrou em pouco mais de uma década.
A proporção de brasileiros que relataram já ter usado cannabis alguma vez na vida também cresceu fortemente, passando de aproximadamente 6% para cerca de 15%.
No álcool, o movimento foi diferente. Entre brasileiros de 14 anos ou mais, a proporção que declarou ter consumido bebida alcoólica no último ano caiu de 47,7% em 2012 para 42,5% em 2023.
Colocados lado a lado, os números chamam atenção:
Cannabis: 2,8% → cerca de 6%
Álcool: 47,7% → 42,5%
Isso não significa que milhões de brasileiros tenham abandonado a cerveja para consumir cannabis. Mas mostra que, no intervalo de pouco mais de uma década, o alcance das duas substâncias caminhou em direções diferentes no país.
Mulheres ajudam a explicar a mudança
Há outra transformação escondida nos números brasileiros. Entre as mulheres adultas, o uso de cannabis passou de aproximadamente 0,7% em 2012 para 2,1% em 2023. Ou seja, triplicou.
A experimentação da planta ao longo da vida também cresceu de forma expressiva entre elas, passando de cerca de 3% para mais de 10%.
E há outro dado que desafia algumas percepções tradicionais sobre quem está aumentando o consumo de cannabis no país. Entre adolescentes, o uso da planta no último ano caiu entre os meninos, de 5,7% para 2,3%, enquanto subiu entre as meninas, de 1,3% para 4,6%.
As duas mudanças foram consideradas estatisticamente significativas.
Portanto, o avanço da cannabis no Brasil não pode ser explicado simplesmente pela velha imagem de um aumento generalizado do consumo entre garotos adolescentes.
O perfil de quem usa cannabis também está mudando.
Cannabis está ocupando o lugar da bebida?
É justamente aqui que os números encontram uma questão científica ainda sem resposta definitiva.
Encontrar o consumo de cannabis aumentando ao mesmo tempo em que indicadores relacionados ao álcool diminuem não significa automaticamente que as mesmas pessoas estejam deixando de beber para consumir cannabis.
Mas essa possibilidade também não é apenas especulação.
Uma revisão sistemática publicada no Journal of Psychopharmacology analisou 65 estudos sobre a relação entre cannabis e álcool.
Desses, 30 encontraram evidências de substituição, situações em que o aumento do consumo de uma substância aparece associado à redução da outra. Outros 17 encontraram sinais de complementaridade, 14 não identificaram nenhuma das duas relações e quatro observaram os dois fenômenos.
Isto é: existem evidências de que a substituição ocorre, mas ela está longe de ser uma regra universal.
Dependendo da população, da frequência, do contexto e do padrão de consumo, cannabis e álcool podem funcionar como substitutos ou até ser utilizados conjuntamente.
É por isso que os dados disponíveis ainda não permitem afirmar que brasileiros ou americanos estejam simplesmente trocando o copo pela cannabis.
Permitem, porém, fazer a pergunta.
Menos gente bebendo não significa álcool menos preocupante
Os números brasileiros também guardam uma aparente contradição. A proporção da população que relata consumir álcool ao longo do ano diminuiu, mas isso não significa que o consumo nocivo tenha desaparecido ou acompanhado a mesma trajetória.
O próprio LENAD III mostra que episódios de consumo pesado continuam atingindo uma parcela importante dos brasileiros. Outros levantamentos nacionais também apontam que padrões de consumo abusivo permanecem relevantes. Em outras palavras, é possível que menos pessoas estejam bebendo, enquanto uma parcela das que continuam bebendo mantém padrões potencialmente prejudiciais de consumo.
O álcool permanece associado a dependência, acidentes, violência e uma extensa lista de problemas de saúde.
Mas a cannabis também não é isenta de riscos.
O outro lado do avanço da cannabis
É justamente esse o alerta do novo estudo americano.
Enquanto o consumo de cannabis aumentou, cresceram também os casos de transtorno por uso da substância. Entre os homens, os casos moderados ou graves de CUD passaram de 3,1% para 4,1% entre 2021 e 2024. Entre as mulheres, de 1,7% para 2,5%.
Em mulheres com 50 anos ou mais, a prevalência de CUD moderado ou grave aumentou de 0,1% para 0,7% no período.
Os pesquisadores consideram que o crescimento merece atenção diante da maior disponibilidade da cannabis, da redução da percepção de risco e da existência de produtos com concentrações elevadas de THC.
Por isso, comparar cannabis e álcool não deve se transformar em uma disputa para decidir qual substância é “boa” ou “ruim”.
Duas substâncias, duas histórias
Talvez o aspecto mais provocador dessa transformação esteja fora das estatísticas.
O álcool é uma substância psicoativa associada à dependência e importantes danos à saúde pública. Ainda assim, permanece legal e profundamente incorporado à vida social.
A cannabis percorreu historicamente o caminho contrário.
Depois de décadas de criminalização e estigma, a planta passou a ocupar também consultórios médicos, universidades, laboratórios e sistemas regulados de acesso medicinal.
Isso não significa que todo uso de cannabis seja terapêutico — muito menos que seja livre de riscos.
Uso medicinal, uso adulto e transtorno por uso de cannabis são fenômenos diferentes e não devem ser confundidos.
Da mesma maneira, o reconhecimento de aplicações terapêuticas dos canabinoides para determinadas condições não transforma qualquer forma de consumo em tratamento médico.
Mas os números brasileiros e americanos revelam uma mudança cultural difícil de ignorar.
No Brasil, o consumo recente de cannabis mais que dobrou em pouco mais de uma década, enquanto caiu a proporção da população que relata consumir álcool no último ano.
Nos Estados Unidos, o uso de cannabis também avançou e pesquisadores identificaram crescimento dos transtornos associados à planta ao mesmo tempo em que problemas relacionados ao álcool permaneceram estáveis ou diminuíram em diferentes grupos.
A ciência já encontrou evidências de que algumas pessoas substituem o álcool por cannabis. O que ainda não sabemos é quanto dessa substituição ajuda a explicar a transformação que começa a aparecer nas estatísticas de países como Estados Unidos e Brasil.
Ainda é cedo para afirmar que estamos trocando o copo pela cannabis.
Mas uma pergunta que até pouco tempo pareceria improvável agora já está sendo feita pela ciência.
Fontes
Ministério da Justiça e Segurança Pública — Observatório Brasileiro de Informações sobre Drogas
Pesquisa FAPESP — análise dos resultados do LENAD III




