O THC costuma entrar nas pesquisas sobre câncer associado à ideia de destruir células tumorais. Entretanto, um novo estudo seguiu outro caminho, em vez de tentar matar o tumor, pesquisadores conseguiram fazer células de câncer de mama perderem parte da capacidade de se tornar mais agressivas.
O trabalho, publicado em 22 de agosto deste ano na revista científica Communications Biology, do grupo Nature, mostrou que uma exposição breve e em baixa concentração ao THC modificou o comportamento de modelos de câncer de mama.
O resultado chama atenção porque atingiu uma característica especialmente problemática do câncer: sua capacidade de mudar.
Quando a célula aprende a escapar
Células tumorais não são necessariamente estruturas imóveis. Algumas conseguem mudar de estado diante do ambiente ou de um tratamento, assumindo características semelhantes às de células-tronco. Esse fenômeno é conhecido como plasticidade celular.
Em termos simples, é uma espécie de capacidade de adaptação. Quanto maior essa flexibilidade, maiores podem ser as chances de a célula sobreviver ao tratamento, voltar a se multiplicar e adquirir características relacionadas à invasão e à metástase.
Foi justamente essa capacidade que os pesquisadores tentaram limitar.
O grupo utilizou organoides, estruturas tridimensionais cultivadas em laboratório que reproduzem algumas características de um tumor real. Parte deles foi produzida a partir de tumores de camundongos e outra parte com material obtido de pacientes. Após uma exposição curta ao THC em baixa concentração, essas células passaram a apresentar um comportamento mais próximo de células mamárias maduras, chamado pelos pesquisadores de estado semelhante ao luminal.
A tradução disso é importante, elas ficaram menos capazes de se autorrenovar, invadir outros tecidos e iniciar novos tumores.
O THC não simplesmente matou as células
Essa talvez seja a parte mais interessante do estudo.
O objetivo não foi provocar uma destruição indiscriminada das células tumorais. O que os pesquisadores observaram foi uma espécie de mudança de identidade.
Mesmo depois da retirada do composto, os organoides mantiveram características mais diferenciadas e resistiram a estímulos que normalmente poderiam levá-los novamente a um estado mais agressivo. Os testes incluíram sinais inflamatórios, interação com células do entorno do tumor e estresse mecânico.
A equipe também transplantou células previamente tratadas em modelos animais e encontrou evidências de que essa alteração persistia in vivo, reforçando a hipótese de uma mudança duradoura no comportamento tumoral.
O estudo sugere, portanto, uma estratégia diferente. Em vez de apenas destruir células cancerígenas, os pesquisadores tentam fazê-las permanecer em um estado menos capaz de se adaptar e escapar.
O caminho passa pelo receptor CB2
A investigação levou os cientistas ao receptor canabinoide do tipo 2, ou CB2.
CB2 faz parte do sistema endocanabinoide, uma rede de receptores e moléculas presente no organismo humano, onde o THC, é capaz de interagir com esse sistema.
Nos experimentos, a modulação de CB2 produziu o efeito observado nas células tumorais. Os pesquisadores também utilizaram um composto sintético dirigido ao mesmo receptor e conseguiram resultados semelhantes. Quando analisaram células de animais geneticamente modificados sem o funcionamento normal de CB2, novamente encontraram alterações em características relacionadas à agressividade tumoral.
Isso muda um pouco a pergunta científica.
Mais do que descobrir simplesmente se “THC combate câncer de mama”, o trabalho aponta o CB2 como possível alvo para futuras terapias capazes de limitar a plasticidade do tumor.
E houve outro resultado: o tamoxifeno
As células submetidas à modulação de CB2 também ficaram mais sensíveis ao tamoxifeno, medicamento utilizado no tratamento de determinados cânceres de mama que respondem a hormônios.
Além disso, os pesquisadores observaram menor surgimento de fenótipos resistentes ao tratamento.
Essa combinação talvez seja uma das consequências clínicas mais interessantes a serem investigadas daqui para frente. Isto é, não basta necessariamente substituir terapias existentes por canabinoides, mas o “pulo do gato” está em descobrir se a manipulação dessa via poderia, algum dia, tornar determinados tumores mais vulneráveis aos tratamentos já utilizados.
Ainda é uma hipótese a ser testada em seres humanos.
Uma descoberta relevante para uma doença que atinge milhares
A importância da pesquisa também aparece quando colocada diante dos números.
O Instituto Nacional de Câncer estima 78.610 novos casos de câncer de mama por ano no Brasil entre 2026 e 2028. Desconsiderando os tumores de pele não melanoma, é o tipo de câncer mais incidente entre as mulheres brasileiras.
Isso não transforma THC em tratamento oncológico.
Mas coloca mais uma peça em uma discussão que vem mudando rapidamente: os canabinoides podem ter funções muito mais complexas na biologia do câncer do que simplesmente matar ou não matar células tumorais.
Neste caso, a pergunta aberta pelos pesquisadores é outra: e se também for possível impedir que algumas delas aprendam a ficar mais perigosas?
Fontes
Martínez-Illescas, N.G. et al. — Transient CB2R modulation durably restricts breast cancer plasticity by stabilizing a luminal like cell identity. Communications Biology, 2026. Estudo científico original, publicado em 22 de agosto de 2026. Acessar o estudo na Communications Biology / Nature
Medical Xpress — Low-dose THC keeps breast cancer cells in tumor models from reverting to an aggressive state. Reportagem científica com explicação dos experimentos e do papel do receptor CB2. Acessar a reportagem
Instituto Nacional de Câncer (INCA) — Estimativa 2026–2028. Dados oficiais brasileiros sobre a incidência do câncer de mama. Consultar os dados do INCA




