Em 1980, dois pesquisadores publicaram um relato curioso no Toxicology Letters. THC havia sido encontrado em diferentes órgãos de um homem morto e o episódio foi apresentado como um caso incomum de intoxicação fatal por cannabis. Era um artigo de apenas três páginas, produzido com as técnicas disponíveis há mais de quatro décadas. A cannabis estava lá. A morte também. Demonstrar exatamente como uma levou à outra era a parte mais complicada.
Vinte anos depois, a história continuava parecida. Pesquisadores noruegueses analisaram seis jovens adultos que morreram após consumir cannabis. THC foi encontrado no sangue e os exames não detectaram outras drogas. Ainda assim, o trabalho não anunciou seis “overdoses de maconha”. Os autores preferiram falar em possíveis mortes cardiovasculares agudas associadas ao consumo.
Mas encontrar THC no corpo de alguém que morreu significa que a cannabis provocou aquela morte?
Para Guilherme Bianchi Braga Nery (CRM-PB 12020), médico com oito anos de experiência na prescrição de cannabis medicinal, pós-graduado em Medicina Endocanabinoide, Psiquiatria e Psicodélicos em Saúde Mental, a resposta exige cautela.
“Encontrar THC no organismo demonstra exposição. Causalidade é outra coisa. O médico-legista precisa avaliar a concentração, o momento provável do consumo, outras substâncias presentes, doenças preexistentes e, principalmente, os achados da autópsia.”
Segundo Nery, também é importante separar situações diferentes. Uma pessoa pode apresentar intoxicação aguda, sofrer uma complicação desencadeada pelo uso ou, em uma situação distinta, morrer pela toxicidade farmacológica da própria substância. É justamente nessa última hipótese que as evidências sobre o THC ficam mais difíceis de estabelecer.
Em 2014, pesquisadores alemães foram ainda mais longe. Investigaram detalhadamente a morte de dois homens jovens que haviam fumado maconha, com autópsia, toxicologia, exames dos tecidos e até análises genéticas. Depois de não encontrarem outra explicação convincente, concluíram que complicações cardiovasculares provocadas pelo consumo eram a hipótese mais provável. Mesmo assim, o próprio artigo utiliza uma linguagem cautelosa. Os pesquisadores disseram que “assumiam” essa relação depois da exclusão de outras causas.
Mas talvez o dado mais curioso tenha aparecido em 2022.
Pesquisadores do King’s College London analisaram 3.455 mortes registradas na Inglaterra entre 1998 e 2020 nas quais canabinoides apareceram nos exames post-mortem. Em 96% dos casos havia outras drogas envolvidas. Restaram então 136 mortes em que apenas cannabis havia sido detectada. Dessas, 84 ocorreram por trauma, como acidentes e quedas.
E quantas tiveram a toxicidade da cannabis apontada diretamente como causa?
Uma.
Um único caso entre 3.455 registros analisados. Os próprios pesquisadores destacaram ainda que a concentração de THC encontrada após a morte possui utilidade limitada para determinar, sozinha, o que provocou o óbito. A conclusão do estudo foi que o risco de morte provocado diretamente pela toxicidade da cannabis é negligenciável.
Isso ajuda a explicar outro detalhe importante. Não existe atualmente uma concentração sanguínea letal de THC bem estabelecida e validada que permita ao médico simplesmente olhar para um resultado toxicológico e concluir que determinada pessoa morreu por overdose.
“Mortes atribuídas diretamente à toxicidade do THC são excepcionalmente raras. Não existe uma concentração sanguínea válida que permita declarar, apenas pelo exame, que aquela pessoa morreu de overdose de THC”, reforça Nery.
A literatura, porém, ganhou em 2025 um caso que merece atenção especial. Pesquisadores da Universidade de Pádua, na Itália, investigaram a morte de uma criança que havia ingerido haxixe. O produto encontrado tinha cerca de 28% de THC, e aproximadamente um grama ainda estava presente no conteúdo gástrico durante a investigação. THC e seus metabólitos foram identificados no sangue e em diversos órgãos. A criança apresentou alteração de consciência, dificuldade respiratória, precisou ser entubada e morreu horas depois.
Os autores consideraram a morte causalmente atribuível à intoxicação aguda por cannabis. O caso, no entanto, apresentava outras particularidades. A análise dos cabelos encontrou sinais de exposição anterior a substâncias como cocaína, metadona, morfina e seus metabólitos. Fentanil e cetamina também foram detectados, embora o próprio artigo esclareça que haviam sido administrados durante o atendimento médico e a intubação.
Para Nery, justamente pela complexidade do histórico toxicológico, é preciso cuidado ao interpretar o episódio.
“Nesse tipo de caso, não podemos simplesmente afirmar que cannabis ou THC foram os únicos responsáveis pelo óbito, visto que a criança havia sido exposta à outras substâncias psicoativas. Existem outros fatores, como a própria condução parental, que precisam entrar na análise.”
Há ainda uma confusão frequente que merece ser resolvida. Cannabis e canabinoides sintéticos não são a mesma coisa. Substâncias comercializadas como Spice ou K2 podem agir de maneira muito mais intensa sobre os receptores canabinoides e possuem mortes por intoxicação documentadas com muito mais clareza. Colocar essas substâncias na mesma conta da Cannabis sativa, mais conhecida como maconha, distorce a comparação.
Depois de décadas de consumo e uma enorme quantidade de exposições humanas, o que continua sendo raro na literatura são casos em que a toxicidade direta do THC da planta possa ser estabelecida como responsável pela interrupção de funções vitais da maneira clássica observada, por exemplo, nas overdoses de opioides.
Isso significa que uma morte relacionada à cannabis seja impossível? Nery prefere uma resposta menos absoluta.
“Em indivíduos saudáveis, uma overdose fatal por canabinoides naturais me parece improvável pela quantidade necessária para atingir toxicidade fatal. Mas existem pessoas com condições cardíacas, como arritmias, nas quais o THC pode desencadear uma complicação grave. Por isso é importante conhecer o histórico do paciente e fazer acompanhamento médico adequado.”
Até aqui, os dados contam uma história peculiar. Há relatos classificados como fatais, mortes possivelmente relacionadas a complicações cardiovasculares e pelo menos um caso pediátrico recente em que pesquisadores atribuíram o óbito à intoxicação aguda. Ao mesmo tempo, um dos maiores levantamentos já realizados encontrou uma morte por toxicidade da cannabis entre 3.455 casos com canabinoides detectados.
A pergunta continua aberta. E talvez a dificuldade que a ciência encontra para encontrar uma resposta definitiva seja, por si só, uma parte importante da resposta.




