Ciência e Pesquisa

Cannabis e cerveja têm um parentesco que ajuda a explicar a origem do THC

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João Negromonte

27 de outubro de 2026

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Cannabis e cerveja têm um parentesco que ajuda a explicar a origem do THC

Antes de virarem assunto de bar, consultório e delegacia, cannabis e lúpulo já compartilhavam uma história escrita no DNA. A planta que fornece amargor e aroma à cerveja pertence à mesma família botânica da cannabis, as Cannabaceae, como explica a Universidade de Oxford. Agora, uma pesquisa acrescenta pistas sobre como esses parentes desenvolveram composições químicas tão diferentes.

Publicado em 22 de outubro no Plant Biotechnology Journal, o estudo de pesquisadores chineses reconstruiu duas versões completas do genoma de uma planta de cannabis. A análise permitiu investigar a história dos genes ligados à fabricação de canabinoides.

Os resultados apontam para uma duplicação de um gene ancestral anterior à separação evolutiva entre cannabis e lúpulo. Na cannabis, uma das linhagens resultantes passou por novas duplicações e modificações, originando genes especializados na produção dessas substâncias. O lúpulo analisado conservou outra linhagem.

É como uma receita copiada que, ao longo de muitas gerações, ganha alterações e passa a produzir outro resultado. Os genes carregam as instruções para fabricar enzimas, proteínas que participam das reações químicas da planta. Nesse caso, a especialização envolve enzimas que produzem THCA, CBDA e CBCA, precursores de THC, CBD e CBC.

O parentesco também aparece em estruturas minúsculas das flores. Tanto cannabis quanto lúpulo possuem tricomas glandulares, pequenas estruturas que concentram compostos produzidos pelas plantas. Um estudo publicado na Nature Communications descreve essa característica compartilhada. No lúpulo, as flores femininas fornecem substâncias responsáveis pelo amargor e pelo aroma da cerveja.

Isso não transforma a cerveja comum em uma bebida com THC. Seu álcool vem da fermentação de açúcares pelas leveduras, conforme explica a Oklahoma State University. Plantas aparentadas podem compartilhar parte de sua história sem produzir as mesmas substâncias ou provocar os mesmos efeitos.

Para a pesquisa medicinal, o novo mapa genético oferece ferramentas para investigar por que variedades de cannabis apresentam perfis químicos diferentes. A aplicação prática ainda exige outros estudos. O trabalho não testou tratamentos nem criou uma nova variedade comercial. Seu avanço está em esclarecer parte do caminho evolutivo que tornou possível a química hoje estudada em laboratórios e utilizada em produtos medicinais.


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