Porque fazer propaganda é caro, mas falar mal é de graça. A conta da reputação sempre chega.
Por Bruno Medeiros
Já faz um tempo que não apareço por aqui, estava fazendo jornalismo investigativo e trago informações bombásticas!
Essa história começa pelo relato, queixa e denúncia de um paciente que me procurou para uma segunda opinião médica. Ele estava totalmente desconfiado e insatisfeito com a qualidade da consulta relâmpago que acabara de ter. Decidi investigar.
Andei me disfarçando de paciente por aí com o objetivo de apurar o que ele me contou e entender a face oculta do mercado atual da cannabis medicinal no Brasil.
O que vi ao longo dessas consultas infiltrado no sistema como paciente foi um cenário muito estranho, pra não dizer bizarro: consultas ultra baratas operadas por chatbots, prescrição automática ao final de um formulário, sem consulta médica. Também presenciei atendimentos de pouquíssimos minutos, médicos que desconheciam o manejo e prescrevem subdoses que só seriam efetivas mediante efeito placebo. Vi empresas negligenciando a validação de receitas (isso mesmo, receitas sem carimbo e dados rasurados!), além de plataformas aceitando prescrições vencidas e prescritores claramente encorajados à hiper-prescrição forçada de dezenas de frascos, quando a necessidade clínica real do paciente era de apenas um ou dois.
O mercado da cannabis medicinal já consolida uma história de mais de 10 anos no Brasil e mesmo assim ainda flerta perigosamente com o amadorismo e com práticas predatórias que tentam transformar o rito sagrado da consulta e o respeito à relação médico-paciente em um mero balcão de vendas.
O que presenciei com maior frequência nessa investigação foi a desvalorização violenta do talento, do saber e da mão de obra dos médicos prescritores. Se por um lado algumas empresas oferecem comissões financeiras imorais que corrompem a autonomia e a isenção clínica, por outro, marketplaces e plataformas estão estrangulando os honorários médicos. Sob a falsa promessa de entregar “volume de pacientes”, mas exigindo consultas massificadas de 10 a 15 minutos no máximo, essas estruturas estão rebaixando um serviço altamente importante, valioso e especializado a níveis de mera subsistência do profissional. É uma reprodução exata, e igualmente imoral, do que os piores planos de saúde tradicionais fazem com a nossa categoria há anos.
A verdade é que o sucesso de uma associação de pacientes ou de um marketplace já não depende do orçamento de mídia. Depende de governança, de ética e de valores reais. Para sobreviver às avaliações impiedosas e legítimas que os pacientes fazem entre si e garantir a segurança jurídica, o setor precisa separar as funções e implementar a atuação de um Consultor Técnico de Catálogo e de um Diretor Médico Institucional. A presença de um profissional experiente e com vivência prática é o que amplia horizontes em três frentes indissociáveis:
Pela Empresa em forma de inteligência de mercado e estruturação estratégica. Não dá mais para montar um catálogo de produtos com base no que sobrou no estoque do fornecedor ou no que o laboratório parceiro quer empurrar. O consultor planeja uma farmacopeia que reflete o mundo real do consultório direcionando o mix exato para o que o mercado exige. Isso atrai os prescritores de elite, constrói valor de marca e ativa o melhor motor de crescimento: o boca-a-boca orgânico entre os pacientes.
Pelo Médico através dos meios ético e técnico dissolvendo a insegurança da maioria dos colegas que ainda mantêm profundo temor e falta de conhecimento no manejo preciso de dosagens adequadas. A direção médica oferece um porto seguro estabelecendo protocolos de conduta robustos, mentoria e treinamento de profissionais menos experientes resgatando a dignidade e a soberania do ato médico. O profissional volta a ser remunerado pelo seu saber diagnóstico e manejo clínico, e não pressionado a agir como vendedor de laboratório.
Pelo Paciente: Significa segurança, eficácia técnica e humanização. O paciente não é um número numa consulta automatizada e tem o direito de acesso a tratamentos totalmente personalizados, dentro dos parâmetros legais e com laudos evolutivos robustos que dão suporte ao seu direito ao custeio ou ao cultivo terapêutico (Habeas Corpus).
A conta da reputação sempre chega. Fazer propaganda é caro, mas falar mal é de graça. Isto é: construir reputação exige investimento e estratégia, enquanto o detrator não gasta um centavo para espalhar o caos e destruir negócios.
Por Dr. Bruno Medeiros – Médico Prescritor pós-graduado em Psiquiatria, Consultor Técnico em Medicina Canabinoide, Membro da Comissão de Política de Drogas da OAB-PE
