Encontro gratuito na Estação Cultura propõe diálogo sobre políticas de drogas, redução de danos, autocultivo e acesso à informação
A cidade de Campinas recebe, neste sábado (11), um evento promovido pela Marcha da Maconha de Campinas que reúne debate público, feira, atividades culturais e ações de formação sobre o uso da cannabis e seus desdobramentos sociais, políticos e de saúde.
A programação acontece a partir das 15h na Sala dos Toninhos, espaço localizado na Estação Cultura de Campinas, com entrada gratuita e aberta ao público.
Responsável pela comunicação do coletivo, Adriana Helena destaca o caráter simbólico e inédito da iniciativa. “É o primeiro evento da marcha de Campinas e é muito simbólico. Campinas tem um contexto histórico muito pesado e é uma cidade conservadora. Então a gente está fazendo um evento com o apoio da Sala dos Toninhos, num lugar central, de fácil acesso, gratuito. Qualquer pessoa pode chegar. A gente está facilitando o acesso à informação pras pessoas”, afirma.
Segundo ela, o formato também marca uma novidade na cidade. “É novo ver como as pessoas estão recebendo painéis de discussão sobre saúde pública, proibicionismo, direito ao uso e luta antimanicomial. A gente também vai ter uma oficina de extração gratuita, o que normalmente é pago, com pessoas de associações que se disponibilizaram a ensinar como manusear a planta e produzir óleo, por exemplo.”
O encontro propõe um espaço de escuta e construção coletiva, reunindo diferentes perspectivas sobre a cannabis, com foco em redução de danos, cuidados em saúde e garantia de direitos. A programação inclui debates, atividades culturais e uma feira com iniciativas independentes ligadas à cultura canábica.
Para Adriana, o evento também cumpre um papel estratégico de base para a mobilização social. “Se a gente quer ter pessoas no dia 23 de maio, que é o dia da marcha, com consciência, a gente precisa fazer formação. Esse papel começa em eventos como esse, onde a gente vai discutir, aprender e principalmente desmistificar uma planta que é só uma planta. A gente planta boldo, manjericão, então por que não poder plantar essa também? É só mais um medicamento no nosso quintal.”
Ela também chama atenção para o debate sobre autocultivo e segurança jurídica. “O autocultivo não está ferindo ninguém. Pelo contrário, permite que a pessoa não dependa de substâncias de procedência duvidosa. Mas, para isso, é importante entender os caminhos legais, como o habeas corpus, e a gente vai falar sobre isso no evento.”
Apesar de resistências históricas, a organização afirma que a recepção tem sido positiva. “O coletivo da marcha de Campinas sofre retaliação há muito tempo. Já houve tentativa de barrar a marcha na Câmara, o que é inconstitucional. Mas, até agora, esse evento está sendo muito bem recebido, sem negativas.”
O ativista Diego Dipoti, da RD Streetwear, reforça a importância de ampliar o debate para além do uso medicinal tradicional. “Vamos discutir o uso da planta e como as elites dominantes se apropriaram e ainda se apropriam disso, marginalizando e criminalizando quem não se enquadra no chamado uso medicinal. A redução de danos entende que todo uso é, sim, medicinal, porque viver bem, em paz e com saúde também é cuidado. Ter um espaço para falar sobre isso ajuda a quebrar a culpa que colocam sobre nós.”
Já o consultor canábico Renato Blumenthal resume o desafio central do debate. “A maconha não é o problema. O problema sempre foi a falta de acesso, de informação e de empatia.”
A realização ocorre em um momento de expansão do uso medicinal da cannabis no Brasil. Segundo o Anuário da Cannabis Medicinal da Kaya Mind, o país já soma mais de 870 mil pacientes em tratamento, evidenciando o crescimento da demanda e a necessidade de políticas públicas mais inclusivas.
Para os organizadores, iniciativas como essa ajudam a construir um novo olhar sobre a planta. “A gente acredita que educação e cultura juntas conseguem desmistificar essa planta. Vai ser um dia de troca de saberes, de fazer conexões, de arte e de discussão. É algo novo e que a gente espera que seja a primeira de muitas edições”, conclui Adriana Helena.
