Ferramenta criada pelo médico Guilherme Nery reúne dados anonimizados de mais de 2.200 pacientes e promete auxiliar profissionais da saúde em decisões clínicas envolvendo cannabis medicinal, polifarmácia e falhas terapêuticas
A quinta edição da Cannabis Fair 2026 transformou o Transamérica Expo Center em um grande ponto de encontro entre ciência, inovação e cultura canábica. Ao longo de três dias, mais de 5 mil pessoas passaram pelo evento, que reuniu empresas, especialistas, pacientes, empreendedores e profissionais da saúde em torno das discussões sobre os avanços da cannabis medicinal no Brasil.
Entre os estandes, era possível encontrar desde empresas farmacêuticas e laboratórios especializados até marcas independentes ligadas à moda, sustentabilidade e cultura canábica. Em meio à diversidade de iniciativas presentes no evento, uma das tecnologias que mais despertaram curiosidade do público foi a Dr Weedy.AI, plataforma de inteligência artificial criada para auxiliar médicos na tomada de decisões clínicas envolvendo cannabis medicinal.
Durante a feira, o médico Guilherme Nery apresentou a ferramenta, desenvolvida especialmente para auxiliar profissionais da saúde em cenários considerados complexos, como pacientes em polifarmácia, com falhas terapêuticas e condições de difícil manejo clínico.
Segundo Nery, a ideia surgiu após observar as dificuldades enfrentadas por médicos que concluíam seus cursos sobre cannabis medicinal, mas ainda se sentiam inseguros para prescrever.
“Comecei a perceber que muitos profissionais travavam justamente no momento da tomada de decisão. O paciente da cannabis medicinal geralmente é um paciente complexo, em polifarmácia e em falha terapêutica. É um dos contextos mais desafiadores da prática clínica”, afirmou.
A ferramenta foi criada para auxiliar profissionais da saúde na organização do raciocínio clínico e na personalização das condutas terapêuticas. De acordo com o médico, o sistema analisa o contexto individual de cada paciente para sugerir estratégias de cuidado, incluindo proporções entre canabinoides, doses iniciais e protocolos de acompanhamento.
“Ele não está ali apenas para ajudar na prescrição de cannabis. Ele ajuda o médico a entender o paciente de maneira integral. Quanto mais informações são inseridas, mais precisa fica a construção do raciocínio clínico”, explicou.
Entre as funcionalidades apresentadas estão sugestões de combinações entre CBD, THC, CBG e THCV, orientações sobre titulação de dose nas primeiras semanas de tratamento e análise de interações medicamentosas. A IA também considera fatores específicos, como o histórico prévio do paciente com cannabis.
“Um paciente que já utiliza cannabis fumada, por exemplo, pode precisar de uma dose diferente de um paciente virgem de tratamento. O sistema entende esse contexto individualmente e sugere condutas mais seguras”, disse.
Além da atuação clínica, a plataforma também funciona como ferramenta educacional e de pesquisa. Segundo Nery, o sistema consegue listar evidências científicas sobre diferentes patologias, além de oferecer explicações farmacológicas sobre os canabinoides.
“Se o médico perguntar quais são as evidências científicas para ansiedade ou autismo, ele entrega essas informações. Se quiser entender a farmacologia do canabidiol, ele também consegue ensinar”, afirmou.
A base de dados da Dr Weedy.AI reúne 28.000 documentos incluindo dados anonimizados de pacientes críticos, cenários desafiadores, protocolos de dosagem para cada patologia, manuais de Interações medicamentosas e outras ferramentas médicas, além de cerca de 1.800 páginas de conteúdos clínicos. O objetivo é permitir que a inteligência artificial reconheça padrões terapêuticos e sugira abordagens baseadas em experiências anteriores semelhantes.
Segundo o médico, a segurança das informações foi uma das principais preocupações no desenvolvimento da plataforma. Ele alertou sobre os riscos de utilizar inteligências artificiais abertas para inserir dados sensíveis de pacientes.
“Hoje qualquer pessoa consegue criar um agente de IA, mas isso não significa que seja seguro. A grande questão é: essa ferramenta protege os dados do paciente? Ela respeita a LGPD?”, questionou.
Nery afirmou que a Dr Weedy.AI opera em um modelo fechado, que não recebe informações de nenhuma fonte e nem envia informações para nenhum lugar. Isso confere o agente capacidade de lidar com informações sensíveis de pacientes obedecendo a LGPD.
“O nosso agente não espalha dados. A gente exclui as informações sensíveis e trabalha com uma memória fechada. Esse foi um dos pontos centrais da palestra que apresentei aqui no evento”, explicou.
A recepção do público durante a Cannabis Fair surpreendeu o criador da ferramenta. Segundo ele, o interesse pela integração entre inteligência artificial e cannabis medicinal demonstra o avanço tecnológico do setor.
“A aceitação está sendo muito boa. Ontem, durante a palestra, o espaço lotou e ainda ficou gente em pé. Existe uma curiosidade muito grande sobre como a inteligência artificial pode ajudar na prática clínica”, afirmou.
O médico também ressaltou que a IA não substitui a responsabilidade profissional. Segundo ele, o papel da tecnologia é ampliar a capacidade de análise do médico, sem retirar sua autonomia.
“A decisão continua sendo do profissional de saúde. A IA sugere caminhos, mas quem valida e assume a responsabilidade é o médico. Isso, inclusive, está alinhado com as orientações éticas recentes do Conselho Federal de Medicina”, concluiu.
Atualmente o DrWeedy.AI está em Teste Beta Fechado, com uma base de 300 usuários e logo mais estará disponível como ferramenta Exclusiva para profissionais de Saúde.
