Pesquisadores documentam casos reais de pacientes com epilepsia farmacorresistente que alcançaram controle total das convulsões com uso de formulações de CBD e THC
Um estudo clínico realizado em Toronto, no Canadá, demonstrou que 19 pacientes com epilepsia farmacorresistente — condição caracterizada pela ausência de resposta a medicamentos anticonvulsivantes convencionais — alcançaram liberdade total de crises (seizure freedom, no termo técnico) após o uso de óleos medicinais à base de cannabis. Os resultados reforçam o potencial terapêutico dos canabinoides, especialmente quando utilizados em formulações que combinam CBD (canabidiol) e THC (tetrahidrocanabinol).
Publicado em maio de 2024 no periódico Drugs – Real World Outcomes, o estudo conduzido pelo neurologista Dr. Frank Yizhao Chen e equipe analisou prontuários de pacientes atendidos entre 2018 e 2023 em uma clínica especializada. A pesquisa incluiu apenas pacientes que apresentaram períodos contínuos de pelo menos 90 dias sem crises convulsivas — critério que permitiu aos autores minimizar os chamados “efeitos lua-de-mel” observados em terapias que parecem eficazes nos primeiros meses, mas perdem efeito ao longo do tempo.
Dos 19 casos avaliados, 15 eram pacientes pediátricos. O tempo médio de liberdade de crises foi de 245 dias, com cinco pacientes permanecendo sem convulsões por um ano ou mais. Três deles conseguiram descontinuar completamente os anticonvulsivantes tradicionais, mantendo o controle apenas com os óleos de cannabis.
“O estudo destaca não apenas a eficácia da cannabis medicinal em um grupo de pacientes extremamente difícil de tratar, mas também levanta a importância do THC como possível coadjuvante no controle das crises — algo ainda pouco explorado nos ensaios clínicos tradicionais”, afirma o Dr. Chen.
Apesar dos resultados animadores, os pesquisadores reforçam que o estudo é observacional e possui limitações importantes, como a ausência de um grupo controle e a heterogeneidade nos métodos de registro das crises (diários manuais, aplicativos, etc.). Além disso, todos os pacientes incluídos já haviam respondido positivamente à terapia, o que limita a generalização dos dados para toda a população com epilepsia.
Ainda assim, os autores defendem que a liberdade de crises — e não apenas a redução percentual da frequência das convulsões — seja considerada o principal desfecho clínico em pesquisas sobre canabinoides.
Para especialistas da área, os resultados contribuem com o crescente corpo de evidências de que os produtos à base de cannabis podem representar uma alternativa real e segura no manejo de epilepsias refratárias, sobretudo em contextos onde os tratamentos tradicionais falham. O estudo também reacende o debate sobre o acesso a esses medicamentos em países com legislações mais restritivas, como o Brasil.
