Ciência e Pesquisa

Creme de cannabis reduz coceira em pacientes que fazem hemodiálise

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Redação

19 de outubro de 2026

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Creme de cannabis reduz coceira em pacientes que fazem hemodiálise

Para quem enfrenta sessões frequentes de hemodiálise, o desconforto nem sempre termina quando o procedimento acaba. Uma coceira persistente pode acompanhar o paciente durante o dia, interromper o sono e tornar difícil até mesmo descansar. Agora, uma pesquisa realizada na Tailândia aponta que um creme contendo cannabis pode ajudar a aliviar esse sintoma.

O resultado foi publicado na revista científica Kidney Medicine, em 2024, por pesquisadores da Universidade Thammasat. O estudo acompanhou 60 adultos com doença renal crônica que faziam hemodiálise e apresentavam coceira persistente, condição conhecida na medicina como prurido associado à doença renal crônica.

Embora pouco discutido fora dos consultórios, o problema pode ser bastante incômodo. Em pacientes renais, alterações inflamatórias, ressecamento da pele e mudanças no funcionamento dos nervos estão entre os fatores associados à coceira. O sintoma pode surgir em diferentes partes do corpo, mesmo quando não existem lesões visíveis.

Para investigar o possível benefício da cannabis, os pesquisadores dividiram os participantes em dois grupos. Metade recebeu um creme contendo óleo de cannabis e a outra metade utilizou uma formulação semelhante, mas sem os compostos da planta.

Durante quatro semanas, os produtos foram aplicados duas vezes ao dia nas regiões afetadas. Nem os pacientes nem os médicos responsáveis sabiam quem estava utilizando cada formulação, procedimento conhecido como estudo duplo-cego, utilizado para reduzir a influência das expectativas sobre os resultados.

O que aconteceu com os pacientes

Ao final do acompanhamento, o grupo que utilizou cannabis apresentou menor intensidade de coceira.

Em uma escala de zero a dez, na qual dez representa o pior desconforto, a média ficou em 2,6 pontos entre os participantes que utilizaram cannabis, contra 3,6 pontos no grupo placebo.

Após os ajustes estatísticos, a diferença entre os grupos foi de 1,1 ponto, considerada significativa pelos pesquisadores.

Isso significa que o creme apresentou um benefício adicional em relação à formulação sem cannabis, embora os dois grupos tenham relatado melhora durante o estudo.

Os cientistas também investigaram possíveis mudanças na qualidade de vida relacionada à pele. Apesar de resultados inicialmente favoráveis, essa diferença não permaneceu estatisticamente significativa após os ajustes necessários.

Nenhum efeito adverso foi registrado durante as quatro semanas. Ainda assim, os autores destacam que o período de observação foi curto e não permite determinar a segurança do uso prolongado.

O que havia no creme de cannabis

Diferentemente dos óleos administrados pela boca, mais conhecidos pelos pacientes brasileiros, a formulação foi desenvolvida para aplicação diretamente sobre a pele.

O creme continha 5% de óleo de Cannabis sativa, com canabidiol (CBD) e tetrahidrocanabinol (THC), dois compostos encontrados na planta e investigados por seus possíveis efeitos terapêuticos.

Os pesquisadores acreditam que a interação dos canabinoides com receptores presentes no organismo possa ajudar a modular processos relacionados à inflamação e à percepção da coceira. Esse mecanismo, entretanto, ainda precisa ser melhor esclarecido em pacientes renais.

É importante destacar que o estudo utilizou uma formulação experimental específica. Portanto, os resultados não significam que qualquer creme com CBD, cosmético de cânhamo ou óleo de cannabis produza o mesmo efeito.

Também não há evidência suficiente para recomendar que pacientes reproduzam a formulação por conta própria.

Cannabis pode se tornar uma opção para pacientes renais?

O resultado é promissor, mas ainda está longe de estabelecer um novo tratamento.

O ensaio foi realizado em um único hospital, com apenas 60 participantes e acompanhamento de quatro semanas. Além disso, havia diferenças na proporção de pacientes com diabetes entre os grupos, fator que pode influenciar a interpretação dos resultados.

Uma revisão científica publicada em 2026 no Journal of Clinical Medicine reforça que o controle da coceira associada à doença renal envolve diferentes estratégias, desde cuidados com a hidratação da pele até medicamentos específicos e ajustes no acompanhamento clínico.

Isso acontece porque nem toda coceira em pacientes renais tem a mesma origem. Reações a medicamentos, doenças dermatológicas e outras condições também podem provocar sintomas semelhantes.

Por esse motivo, quem faz hemodiálise e apresenta coceira frequente deve conversar com a equipe de nefrologia antes de utilizar qualquer produto, inclusive aqueles derivados de cannabis.

A pesquisa tailandesa representa mais um passo na investigação de novas aplicações terapêuticas da planta. Embora ainda sejam necessários estudos maiores e mais longos, os resultados mostram que os canabinoides tópicos merecem atenção científica.

Para quem convive com a doença renal crônica, essa possibilidade ganha importância por um motivo simples. Quando a coceira não dá descanso, qualquer tratamento capaz de proporcionar alívio comprovado pode fazer diferença na qualidade de vida.


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