Ciência e Pesquisa

Colírio de maconha? Pesquisa da USP abre nova frente para o canabidiol

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João Negromonte

01 de outubro de 2026

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Colírio de maconha? Pesquisa da USP abre nova frente para o canabidiol

Pesquisadores da USP de Ribeirão Preto desenvolveram uma formulação oftálmica que usa canabidiol, o CBD, como princípio ativo para tentar controlar dor e inflamações nos olhos. A tecnologia reúne pesquisadores da Faculdade de Medicina e da Faculdade de Ciências Farmacêuticas e aposta em uma nanoemulsão para fazer o composto chegar aos tecidos oculares de maneira gradual.

A novidade foi divulgada pelo Jornal da USP em 29 de setembro. Segundo a universidade, o projeto já passou por experimentos com animais e estudos clínicos em humanos. Os resultados iniciais indicaram menor irritação em comparação com outras formulações testadas e potencial para reduzir a pressão ocular.

Em outras palavras, o CBD acaba de encontrar um novo lugar para entrar no radar da medicina.

Por que colocar CBD nos olhos?

Doenças inflamatórias e degenerativas crônicas dos olhos podem exigir tratamentos prolongados. Entre os medicamentos utilizados estão os corticoides, eficientes em diferentes situações, mas que, quando usados por longos períodos, podem aumentar o risco de problemas como catarata e elevação da pressão ocular.

É nesse espaço que entra a pesquisa da USP.

O professor Eduardo Melani Rocha, da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto e um dos pesquisadores envolvidos, explica que existem estruturas na superfície ocular capazes de responder à ação do canabidiol. O desafio não era apenas descobrir se o CBD poderia atuar ali.

Era conseguir colocá-lo no olho da maneira certa.

Isso porque o canabidiol tem grande afinidade por gordura e pouca solubilidade em água, característica que dificulta bastante sua transformação em um colírio convencional. Estudos internacionais sobre administração ocular de CBD enfrentam justamente esse problema. Em 2024, pesquisadores desenvolveram nanoformulações capazes de melhorar a estabilidade e a passagem do composto através da córnea em testes laboratoriais.

A solução encontrada pela equipe brasileira foi a nanoemulsão.

Apesar do nome complicado, a lógica é simples. O CBD é carregado em gotículas extremamente pequenas, o que ajuda a manter o composto disperso e permite uma entrega mais adequada aos tecidos.

Segundo Rocha, a estratégia foi pensada para fazer essa liberação ocorrer de maneira profunda e gradual.

Não é só a USP olhando para isso

A possibilidade de levar o canabidiol diretamente aos olhos já vem chamando atenção de pesquisadores em outros países.

Em 2022, um estudo publicado no International Journal of Pharmaceutics testou uma nanoemulsão estabilizada de CBD em modelo animal. Dependendo da concentração utilizada, houve redução de marcadores inflamatórios e diminuição ou manutenção da pressão intraocular. Os próprios autores destacaram, porém, que ainda seria necessário definir uma dose terapêutica adequada para humanos.

No ano seguinte, outro trabalho avaliou uma nanoemulsão de CBD em um modelo de córnea humana produzido em laboratório. A formulação melhorou a estabilidade do canabidiol e apresentou atividade anti-inflamatória maior que a do CBD isolado naquele modelo experimental.

Ou seja, a USP não está apostando em uma ideia saída do nada. Existe uma linha científica crescente tentando descobrir como levar canabinoides aos olhos de maneira segura e eficiente.

O diferencial brasileiro é que, segundo a universidade, o projeto de Ribeirão Preto já avançou até as avaliações em seres humanos. 

Então já funciona?

É cedo para dizer que temos um novo tratamento pronto para chegar às farmácias.

A própria USP informa que os resultados científicos mais recentes foram submetidos ao American Journal of Ophthalmology. A formulação também teve pedido de patente depositado e aguarda os próximos passos junto ao Instituto Nacional da Propriedade Industrial, o INPI.

O que existe até agora são sinais iniciais considerados promissores pelos pesquisadores.

A nanoemulsão apresentou menor irritação em relação a outras formulações avaliadas e mostrou potencial para reduzir a pressão ocular. Mas transformar esses achados em um medicamento disponível ao público exige novas etapas de desenvolvimento, produção em escala e avaliação regulatória.

E existe outro obstáculo bem conhecido de quem acompanha inovação dentro das universidades brasileiras.

Alguém precisa transformar pesquisa em produto.

A equipe agora procura parceria com a indústria farmacêutica. Segundo Rocha, produzir a formulação em grande escala e levá-la ao mercado é justamente uma das partes mais difíceis do caminho.

Nada de pingar seu óleo de CBD nos olhos

Aqui vale uma pausa importante.

O fato de pesquisadores estudarem CBD em um colírio não significa que produtos de cannabis usados por via oral possam ser colocados nos olhos.

Uma formulação oftálmica precisa atender exigências próprias de esterilidade, estabilidade, concentração e compatibilidade com os tecidos oculares. A nanoemulsão da USP foi desenvolvida especificamente para essa finalidade.

Portanto, o óleo sublingual continua sendo óleo sublingual.

Colírio é outra história.

Do óleo para os olhos

A pesquisa de Ribeirão Preto ajuda a mostrar uma mudança interessante no desenvolvimento de medicamentos com cannabis.

Durante anos, falar em canabidiol significava pensar quase automaticamente em óleo. Hoje, o composto já aparece em pesquisas envolvendo diferentes sistemas de administração, e os olhos podem se tornar mais uma fronteira dessa expansão.

Ainda não sabemos se o colírio da USP chegará às farmácias, quando isso poderia acontecer ou qual será exatamente sua indicação final.

Mas uma coisa já está clara.

O canabidiol acaba de ganhar mais um lugar para onde a ciência está olhando. E, desta vez, literalmente.


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