Ciência e Pesquisa

Cannabis reduz uso de morfina em quase 50% em estudo clínico

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Redação

16 de outubro de 2026

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Cannabis reduz uso de morfina em quase 50% em estudo clínico

Uma crise de dor na coluna pode começar com um incômodo discreto e, em poucas horas, transformar atividades simples, como caminhar, levantar da cama ou até encontrar uma posição confortável, em um desafio. Em situações mais graves, quando os analgésicos convencionais não são suficientes, o tratamento pode exigir medicamentos potentes, como a morfina.

Mas e se fosse possível controlar essa dor utilizando uma quantidade menor do opioide?

Essa possibilidade ganhou força com um ensaio clínico publicado em 9 de outubro no Journal of Cannabis Research. Conduzida em um hospital de Jerusalém, em Israel, a pesquisa identificou uma redução de aproximadamente 48% no consumo de morfina entre pacientes que receberam uma formulação de cannabis com THC, CBD e terpenos.

O resultado chama atenção não apenas pela redução no uso do medicamento, mas por um detalhe importante. Apesar de receberem menos morfina, os participantes não apresentaram uma diferença estatisticamente significativa na intensidade da dor em comparação com aqueles que receberam placebo.

O que os pesquisadores descobriram

O estudo foi realizado no Hadassah Hebrew University Medical Center, em Jerusalém, com 69 adultos atendidos por dor radicular aguda, condição geralmente associada à irritação ou compressão de uma raiz nervosa.

É o tipo de dor que pode surgir, por exemplo, quando uma hérnia de disco afeta um nervo da coluna. Nesse caso, a pessoa pode sentir uma dor que começa nas costas e se espalha pela perna, acompanhada ou não de formigamento e alterações de sensibilidade.

Todos os participantes apresentavam dor intensa, confirmada por avaliação clínica e exames de imagem, como tomografia ou ressonância magnética.

Os pesquisadores dividiram os pacientes aleatoriamente em três grupos. Um recebeu uma formulação sublingual com 19,8 miligramas de THC e 19,8 miligramas de CBD, além de terpenos. Outro recebeu metade dessas quantidades, enquanto o terceiro recebeu placebo, uma substância sem os princípios ativos investigados.

Nas 24 horas seguintes, os pacientes tiveram acesso à morfina intravenosa por meio de um sistema de analgesia controlada pelo próprio paciente, que permite solicitar doses dentro de limites estabelecidos pela equipe médica.

O grupo que recebeu a maior dose de canabinoides consumiu, em média, 17,4 miligramas de morfina. Entre aqueles que receberam placebo, o consumo chegou a 33,2 miligramas.

A diferença de 47,6% foi estatisticamente significativa. Já as avaliações da intensidade da dor permaneceram semelhantes entre os grupos.

Isso não significa que a cannabis tenha demonstrado maior capacidade de aliviar a dor. O que o ensaio mostrou foi que, naquele contexto hospitalar, os pacientes tratados com a dose mais elevada da formulação utilizaram menos morfina durante o período observado.

Por que usar menos morfina pode ser importante

Para compreender a relevância dessa descoberta, basta imaginar a situação de alguém que chega ao pronto-socorro com uma crise intensa de dor causada por um problema na coluna.

O objetivo imediato da equipe médica é oferecer alívio e estabilizar o paciente. Em determinadas circunstâncias, isso pode envolver a administração de opioides, uma classe de medicamentos que inclui a morfina, a oxicodona e o fentanil.

Esses medicamentos têm papel importante no tratamento da dor intensa, mas exigem cuidados. Dependendo da dose, da duração do tratamento e das condições de saúde do paciente, podem provocar sonolência, náuseas, constipação e depressão respiratória, além de outros efeitos adversos.

É justamente nesse ponto que entra o conceito de efeito poupador de opioides.

Em vez de substituir completamente um analgésico, outro tratamento é associado a ele com a intenção de reduzir a quantidade necessária para alcançar determinado nível de controle da dor.

Na prática, isso poderia representar uma alternativa complementar para determinados pacientes hospitalizados. Entretanto, seria necessário demonstrar em pesquisas maiores que a redução do consumo também se traduz em benefícios clínicos concretos, como menor ocorrência de efeitos adversos.

No caso do estudo israelense, os pesquisadores não comprovaram esses benefícios adicionais. Também não investigaram se a estratégia poderia reduzir dependência, risco de overdose ou necessidade de opioides em tratamentos prolongados.

Portanto, os resultados não justificam substituir a morfina por cannabis nem modificar um tratamento sem acompanhamento médico.

A descoberta também vale para quem sofre de dor crônica?

Embora problemas na coluna possam provocar crises recorrentes e comprometer a qualidade de vida, é importante distinguir a condição investigada no estudo de outras formas de dor.

Os pesquisadores avaliaram pacientes com dor radicular aguda, acompanhados por apenas 24 horas após uma única administração da formulação.

Isso significa que os resultados não podem ser automaticamente aplicados a pessoas com fibromialgia, artrite, dor neuropática crônica ou dores persistentes após cirurgias.

Imagine, por exemplo, um paciente que convive há anos com dores na coluna e utiliza analgésicos diariamente. A possibilidade de precisar de menos medicamentos pode ser interessante, especialmente quando o tratamento provoca efeitos indesejados. No entanto, o ensaio israelense não permite concluir que esse paciente obteria o mesmo benefício.

O próprio mecanismo responsável pela redução do consumo de morfina ainda precisa ser compreendido. Os canabinoides interagem com diferentes sistemas envolvidos na percepção e na modulação da dor, mas a pesquisa não conseguiu determinar exatamente como a formulação influenciou o comportamento dos participantes.

Também é necessário considerar que o THC possui efeitos psicoativos, capazes de alterar a percepção, a atenção e outras respostas do organismo.

Durante o estudo, três participantes apresentaram episódios transitórios de alucinação, um no grupo que recebeu a dose mais elevada e dois no grupo de dose menor. Todos os episódios desapareceram em menos de uma hora, sem necessidade de intervenção médica.

Embora nenhum participante tenha abandonado a pesquisa por causa de efeitos adversos, a ocorrência reforça a importância de investigar a segurança dessa abordagem em populações maiores.

E o que isso significa para os pacientes brasileiros?

No Brasil, a utilização medicinal de produtos derivados de cannabis já faz parte da realidade de pacientes que buscam tratamento para diferentes condições de saúde. Mas isso não significa que qualquer produto disponível tenha composição, dose ou efeitos equivalentes aos da formulação utilizada em Israel.

A Anvisa atualizou as regras para fabricação e importação de produtos de cannabis em 2026, com a RDC 1.015/2026, que substituiu o marco estabelecido pela RDC 327/2019.

A regulamentação estabelece condições para a autorização sanitária desses produtos, mas não significa que uma formulação de cannabis esteja automaticamente aprovada como alternativa à morfina no tratamento da dor aguda.

Outro aspecto importante é que a pesquisa utilizou quantidades específicas de THC e CBD, acompanhadas de terpenos, compostos aromáticos presentes na cannabis e em outras plantas.

Os resultados não podem ser reproduzidos simplesmente pela utilização de um óleo de CBD convencional, tampouco permitem recomendar a mesma dosagem fora do ambiente hospitalar.

Para médicos e pesquisadores brasileiros, a descoberta abre uma frente de investigação sobre como os canabinoides poderiam integrar estratégias de tratamento da dor, especialmente em situações nas quais diminuir a exposição aos opioides seja um objetivo clínico relevante.

Ainda assim, são necessários estudos capazes de avaliar diferentes perfis de pacientes, doses, formulações e períodos de acompanhamento.

Um resultado promissor, mas ainda inicial

Apesar do resultado expressivo, a pesquisa apresenta limitações importantes.

O ensaio foi conduzido em um único hospital, com apenas 69 participantes, e avaliou os efeitos de uma administração durante 24 horas. Estudos maiores e realizados em diferentes centros serão necessários para confirmar se a redução no consumo de morfina se mantém em outras circunstâncias.

Também há relações comerciais que devem ser consideradas. A empresa israelense Bazelet forneceu as formulações utilizadas, comercializa os produtos investigados e emprega três autores do artigo. Segundo a publicação, a análise estatística foi realizada por um pesquisador externo que desconhecia a identidade dos produtos.

Essas informações não invalidam os resultados, mas reforçam a necessidade de reprodução independente.

Por enquanto, a principal contribuição da pesquisa não é anunciar a cannabis como substituta da morfina. É apresentar uma evidência clínica inicial de que determinadas formulações podem ajudar a reduzir o consumo de opioides em situações específicas.

Para quem enfrenta crises intensas de dor, essa possibilidade merece atenção. Para a ciência, representa uma hipótese que precisa continuar sendo testada.

Afinal, tratar a dor não significa apenas encontrar medicamentos mais potentes, mas também investigar maneiras de utilizar os tratamentos disponíveis com maior segurança, eficácia e precisão.


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