Pesquisa mostra que a interação entre canabinoides e terpenos ocorre de forma seletiva e pode contribuir para o desenvolvimento de medicamentos mais precisos à base de cannabis.
Um novo estudo científico trouxe evidências adicionais sobre o chamado efeito entourage, hipótese segundo a qual os diferentes compostos da cannabis atuam em conjunto, produzindo efeitos terapêuticos superiores aos obtidos por cada substância isoladamente. Os resultados, no entanto, indicam que essa interação é mais complexa do que se imaginava.
A pesquisa, conduzida por cientistas da Open University of Israel e aceita para publicação na revista Biochemical Pharmacology, demonstrou que a interação entre o THC e os terpenos varia de acordo com o tipo de composto aromático presente na planta e com o receptor do sistema endocanabinoide ativado.
Os pesquisadores verificaram que alguns terpenos potencializam de forma sinérgica a ação do THC sobre os receptores CB1, ligados principalmente aos efeitos no sistema nervoso central. Entre eles estão borneol, limoneno, sabineno, terpineol, alfa-pineno e ocimeno.
Já nos receptores CB2, associados principalmente à resposta imunológica e aos processos inflamatórios, os compostos beta-cariofileno e linalol também apresentaram ação sinérgica quando combinados ao THC.
Segundo os autores, os resultados mostram que não existe um efeito entourage universal para todas as combinações de compostos presentes na planta.
“As descobertas substituem a ideia de um efeito entourage generalizado por um modelo baseado na ação específica de determinados terpenos”, afirmam os pesquisadores.
Além de potencializar os efeitos do THC, o estudo identificou que alguns terpenos também conseguem ativar diretamente os receptores canabinoides, modulando sua resposta de maneiras distintas.
Para os autores, isso reforça a necessidade de desenvolver formulações mais direcionadas para cada condição clínica, em vez de utilizar indiscriminadamente produtos de espectro completo.
“O estudo destaca a importância da escolha criteriosa dos terpenos para desenvolver formulações voltadas a necessidades terapêuticas específicas”, afirmam.
Embora os experimentos tenham sido realizados em laboratório, os pesquisadores consideram que os resultados oferecem uma base científica importante para futuras pesquisas clínicas. Eles defendem que estudos com pacientes ainda são necessários para confirmar se essas interações realmente resultam em benefícios como maior efeito analgésico, ação anti-inflamatória e proteção do sistema nervoso.
Se esses resultados forem confirmados, será possível desenvolver medicamentos à base de cannabis com combinações específicas de canabinoides e terpenos, direcionadas para diferentes doenças e sintomas.
O estudo também destaca que os terpenos são considerados substâncias com bom perfil de segurança, o que pode representar vantagens regulatórias e reduzir a necessidade do uso de moduladores sintéticos dos receptores canabinoides.
O interesse científico pelo efeito entourage vem crescendo nos últimos anos. Diversas pesquisas já sugerem que determinadas combinações entre canabinoides e terpenos podem influenciar o tratamento da dor crônica, da ansiedade, da epilepsia e de outras condições clínicas. Apesar dos avanços, os autores ressaltam que ainda são necessários ensaios clínicos de grande porte para identificar quais combinações oferecem maior eficácia e em quais situações terapêuticas elas devem ser utilizadas.
