Pesquisa acompanhou pacientes por cinco anos e observou melhora sustentada da dor, da capacidade funcional e redução expressiva do uso de medicamentos convencionais.
O uso de cannabis medicinal inalada pode representar uma alternativa eficaz para pessoas com dor lombar crônica que não obtiveram resultados satisfatórios com tratamentos convencionais, incluindo opioides. É o que aponta um estudo publicado na revista científica Biomedicines, que identificou melhora significativa e duradoura da dor, além de uma redução expressiva no uso de medicamentos como opioides, anti-inflamatórios e antidepressivos.
A pesquisa foi conduzida por cientistas do Rabin Medical Center, em Israel, que acompanharam 241 pacientes com dor lombar crônica resistente ao tratamento entre 2020 e 2025. Todos haviam tentado diferentes abordagens terapêuticas antes de iniciar o tratamento com cannabis medicinal.
Segundo os pesquisadores, a cannabis inalada proporcionou “melhoras amplas, sustentadas e estatisticamente robustas” na intensidade da dor, na limitação funcional e no impacto da doença sobre as atividades diárias. Os autores destacam que os benefícios foram mantidos ao longo dos cinco anos de acompanhamento.
Um dos principais resultados foi a redução do uso de medicamentos convencionais. No início do estudo, todos os participantes utilizavam opioides para controle da dor. Após cinco anos de tratamento com cannabis, apenas 4,6% continuavam fazendo uso desses medicamentos, o que representa uma redução absoluta de 95,4%.
Além dos opioides, os pesquisadores observaram uma diminuição acentuada na utilização de anti-inflamatórios não esteroides (AINEs), antidepressivos e gabapentinoides, classe de medicamentos frequentemente prescrita para dores neuropáticas.
Os autores optaram por avaliar a cannabis administrada por inalação ou vaporização devido ao início rápido dos efeitos, à possibilidade de ajuste individual da dose conforme a necessidade do paciente e à preferência relatada pelos participantes. Os produtos utilizados continham concentrações de THC variando entre 4% e 22%, enquanto os níveis de CBD ficaram entre 2% e 22%.
De acordo com o estudo, o perfil de benefícios observado apoia a possibilidade de considerar a cannabis como uma alternativa clinicamente relevante para reduzir a dependência de opioides em pacientes que não responderam às terapias convencionais.
Apesar dos resultados positivos, os pesquisadores ressaltam que novos ensaios clínicos randomizados são necessários para confirmar a relação de causa e efeito entre o tratamento e os benefícios observados. Segundo eles, estudos comparativos entre cannabis inalada e terapias convencionais poderão fortalecer ainda mais as evidências científicas sobre a eficácia da planta no manejo da dor crônica.
Os resultados se somam a um número crescente de pesquisas que apontam o potencial da cannabis medicinal como estratégia para reduzir o consumo de opioides. Em abril deste ano, um estudo com mais de 3.500 pacientes mostrou que pessoas em tratamento com cannabis reduziram o uso de opioides, antidepressivos e medicamentos para dormir, além de relatarem menos efeitos adversos. Outra pesquisa, publicada pela Associação Médica Americana (AMA), também encontrou evidências de que a cannabis pode atuar como substituta dos opioides no tratamento da dor crônica.
Outros estudos publicados recentemente associaram a legalização da cannabis medicinal à redução das prescrições de opioides, à diminuição das mortes por overdose e ao menor consumo desses medicamentos por pacientes com dor crônica, reforçando o papel da cannabis como uma ferramenta promissora dentro das estratégias de redução de danos e do tratamento da dor.
