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Estudo aponta que cannabis pode reduzir danos hepáticos em pessoas que consomem álcool em excesso

by Redação

Pesquisa com mais de 66 mil pacientes indica menor risco de doença hepática e mortalidade entre usuários de cannabis, reforçando debate sobre redução de danos

O consumo excessivo de álcool segue como uma das principais causas de doenças hepáticas no mundo, mas um novo estudo sugere que a cannabis pode exercer um efeito protetor nesse cenário. A pesquisa, conduzida pela Virginia Commonwealth University, indica que o uso da planta está associado à redução de complicações no fígado entre pessoas diagnosticadas com transtorno por uso de álcool.

Publicado na revista científica Liver International (DOI: 10.1111/liv.70401), o estudo acompanhou mais de 66 mil pacientes ao longo de três anos, todos com histórico de uso problemático de álcool entre 2010 e 2022.

Os participantes foram divididos em três grupos: indivíduos com transtorno por uso de cannabis, usuários não dependentes da substância e pessoas que não utilizavam cannabis. Os resultados mostraram diferenças relevantes entre os perfis analisados.

Entre os pacientes com transtorno por uso de cannabis, a incidência de doença hepática alcoólica foi 40% menor em comparação com aqueles que não consumiam a planta. Além disso, esse grupo apresentou redução de 17% no risco de complicações hepáticas graves e 14% menos risco de morte por todas as causas (Fonte: Liver International, 2024, DOI: 10.1111/liv.70401).

Mesmo entre usuários não dependentes de cannabis, os pesquisadores observaram efeitos positivos, ainda que em menor escala, sugerindo um possível efeito protetor associado ao uso moderado.

Embora os mecanismos ainda não estejam totalmente esclarecidos, os autores apontam evidências anteriores que ajudam a explicar o fenômeno. Estudos pré-clínicos indicam que o canabidiol pode atuar na redução da inflamação e do estresse oxidativo no fígado, dois fatores centrais no desenvolvimento de doenças hepáticas.

O acúmulo de gordura no fígado, uma das principais causas da doença hepática alcoólica, também pode ser influenciado por compostos da cannabis. Pesquisadores levantam a hipótese de que o CBD contribua para melhorar o metabolismo lipídico das células hepáticas, auxiliando na prevenção de danos mais graves.

Apesar dos resultados promissores, os autores destacam que os dados não devem ser interpretados como incentivo ao uso indiscriminado de cannabis. A substância também apresenta riscos, especialmente em populações mais jovens e em contextos de uso abusivo.

Ainda assim, o estudo reforça uma linha crescente de evidências científicas que posiciona a cannabis não apenas como alternativa terapêutica, mas também como ferramenta potencial em estratégias de redução de danos — especialmente quando comparada ao álcool, uma substância legal associada a altos índices de morbidade e mortalidade.

No Brasil, o debate sobre o uso medicinal da cannabis ganha força à medida que cresce o número de pacientes em tratamento. O país já conta com mais de 430 mil pessoas utilizando produtos à base da planta, segundo dados da Agência Nacional de Vigilância Sanitária e da consultoria Kaya Mind (2024).

Especialistas avaliam que estudos como esse podem abrir caminho para o desenvolvimento de novos medicamentos derivados da cannabis voltados à proteção hepática, além de influenciar políticas públicas mais alinhadas à ciência e à saúde coletiva.

Os próximos passos da pesquisa incluem identificar quais compostos específicos da planta são responsáveis pelos efeitos observados e como eles podem ser isolados e aplicados de forma segura em tratamentos clínicos.

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