A associação INDICA, conhecida pelo trabalho com cannabis medicinal veterinária, está ampliando sua atuação. Desde janeiro de 2026, a entidade voltou a atender pacientes humanos e apresenta uma linha de produtos que vai além dos tradicionais óleos, incluindo gummies, formulações transdérmicas, otológicas e óvulos de uso vaginal.
A novidade surgiu de uma demanda dos próprios tutores de animais atendidos pela associação. Depois de conhecerem os produtos utilizados no tratamento de seus cães e gatos, muitos começaram a procurar a INDICA em busca de alternativas terapêuticas para si mesmos ou para familiares.
"Em meados de 2025, nossos tutores começaram a nos pedir o óleo para eles próprios ou algum ente querido, pois já confiavam nos nossos produtos para seus animais", relata Ana Carolina Campedelli, fundadora da associação.
O movimento levou a entidade a retomar uma atividade que, curiosamente, fazia parte de sua missão original.
Uma história que começou com humanos
Fundada em setembro de 2019, a INDICA nasceu da insatisfação de Ana Carolina com as dificuldades enfrentadas por brasileiros que buscavam acesso à cannabis medicinal.
Na época, a espera pela autorização de importação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) podia chegar a três meses, segundo a fundadora.
"Indignada, fundei sozinha a INDICA", relembra.
A trajetória mudou em 2021, quando seu beagle, então com 14 anos, foi diagnosticado com câncer cerebral. Ao recorrer à cannabis como possibilidade de tratamento, Ana Carolina percebeu que o uso medicinal da planta em animais ainda recebia pouca atenção.
Ao lado de Isabela Auricchio, que já participava da associação, decidiu direcionar o trabalho exclusivamente à medicina veterinária, interrompendo o atendimento humano.
A INDICA ganhou reconhecimento nesse segmento. Em outubro de 2025, durante uma audiência pública na Assembleia Legislativa de São Paulo, Ana Carolina informou que a organização atendia cerca de seis mil animais e mantinha uma rede com mais de 300 médicos-veterinários.
Foi justamente a relação construída com esses tutores que abriu caminho para o retorno à saúde humana.
Com o aumento dos pedidos, a associação ampliou sua equipe e começou a reorganizar os processos de desenvolvimento e preparação dos produtos.
Segundo Ana Carolina, uma das principais providências foi separar os laboratórios destinados aos animais daqueles voltados às formulações para pessoas. O trabalho contou com a participação do farmacêutico Leonardo e de outros integrantes da equipe.
Produtos que vão além do óleo de cannabis
A nova fase também marca uma aposta em diferentes formas de administração da cannabis medicinal.
Além dos óleos, apresentação bastante conhecida entre os pacientes brasileiros, Ana Carolina destaca o desenvolvimento de gummies, produtos mastigáveis que permitem uma forma diferente de administração por via oral.
A associação também trabalha com formulações transdérmicas, destinadas à aplicação sobre a pele, além de preparações otológicas, para uso no ouvido, e óvulos de administração vaginal.
Essas apresentações chamam a atenção por ampliarem as possibilidades de desenvolvimento farmacêutico com canabinoides. Entretanto, cada uma possui características próprias de absorção, formulação e uso.
A existência de diferentes formatos não significa que todos tenham eficácia e segurança demonstradas para qualquer condição clínica. A indicação depende da composição do produto, das evidências científicas disponíveis e da avaliação do profissional responsável.
No site oficial da INDICA, a associação informa que trabalha com formulações individualizadas, elaboradas de acordo com a prescrição médica, e oferece acolhimento a pessoas que buscam orientação sobre o tratamento.
Para pacientes que apresentam dificuldades com determinadas vias de administração, a diversidade de apresentações pode representar uma possibilidade a ser avaliada junto ao médico.
A retomada do atendimento humano ocorre, contudo, em um cenário de mudanças regulatórias. Em fevereiro de 2026, a Anvisa publicou novas regras para a cannabis medicinal, incluindo um modelo experimental voltado às associações de pacientes.
A regulamentação não representa uma autorização geral para produção ou comercialização de derivados de cannabis. Como mostrou o Portal Cannabis Medicinal na reportagem Cannabis regulada, associações à espera, a participação das entidades no novo modelo depende de chamamento público e de autorizações específicas.
Como ter acesso ao atendimento
A INDICA mantém canais separados de acolhimento para pacientes humanos e tutores de animais.
Segundo a associação, o atendimento inclui escuta individualizada, orientações sobre cannabis medicinal e encaminhamento para profissionais especializados.
Os interessados podem conhecer o processo pelo site da associação ou entrar em contato pelo número (11) 91297-5803, destinado ao atendimento humano.
O uso medicinal da cannabis deve ser acompanhado por profissional habilitado, considerando o diagnóstico, as necessidades do paciente e os riscos e benefícios do tratamento.
Sete anos após sua fundação, a INDICA reúne novamente as duas áreas que marcaram sua trajetória. Se, em 2021, a experiência com um animal levou a associação a mudar de direção, agora é a confiança dos tutores que impulsiona o retorno ao atendimento humano.




