Animais

Seu pet parou de subir no sofá? A dor pode estar onde você menos percebe

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João Negromonte

30 de setembro de 2026

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Seu pet parou de subir no sofá? A dor pode estar onde você menos percebe

Primeiro ele deixa de subir no sofá. Depois hesita diante da escada. O passeio fica mais curto e aquela corrida até a porta quando alguém chega vira apenas uma levantada de cabeça.

É fácil colocar tudo na conta da idade.

Mas mudanças aparentemente simples na rotina também podem indicar que o animal está convivendo com dor, especialmente em quadros de osteoartrite, uma doença degenerativa das articulações que compromete a mobilidade e qualidade de vida de nossos companheiros. Nos gatos, perceber o problema pode ser ainda mais difícil. Às vezes, eles apenas deixam de saltar, brincam menos ou passam a escolher lugares mais baixos para descansar.

A médica-veterinária Dra. Tatiana Libonati, (CRMV-SP 20.195), conhece esse cenário de perto. Especialista em cirurgia e ortopedia desde 2005, ela passou a se aprofundar em cannabis medicinal depois que o próprio cão desenvolveu osteoartrose durante um tratamento convencional.

A experiência pessoal levou Tatiana a buscar cursos na área e integrar a primeira turma da pós-graduação em Cannabis sativa da Sociedade Brasileira de Estudos da Cannabis, a SBEC. Hoje, ela também aparece entre os prescritores da entidade e participa da formação de profissionais sobre o uso terapêutico da cannabis na medicina veterinária. 

“Muitos tutores chegam dizendo que o animal apenas ‘ficou mais velho’, quando na verdade ele já vinha adaptando a rotina para sentir menos dor. Parar de subir no sofá, evitar escadas ou brincar menos pode ser a forma que ele encontrou de se proteger,” destacou a especialista.

É justamente nesse ponto que a cannabis medicinal começa a ganhar espaço na discussão sobre dor crônica em animais.

Um estudo publicado em março de 2026 na revista Animals avaliou um óleo de cannabis de espectro completo em cães com osteoartrite crônica. A formulação continha diferentes canabinoides, entre eles CBD, CBDA, THC e THCA.

Os pesquisadores observaram melhora em indicadores de dor e mobilidade ao longo do acompanhamento. Mais da metade dos cães tratados avançou pelo menos um estágio em uma das escalas utilizadas para avaliar a condição, e não foram relatados eventos adversos relevantes durante o período estudado.

Os resultados, porém, não foram uniformes. Algumas comparações não apresentaram diferença estatisticamente significativa, o que impede transformar o estudo em uma resposta definitiva sobre eficácia.

Outro trabalho ajuda a mostrar por que essa cautela é necessária.

Uma pesquisa com participação de cientistas brasileiros, publicada no Frontiers in Pharmacology, acompanhou 17 cães com osteoartrite durante 90 dias. O extrato de cannabis foi considerado seguro e bem tolerado, mas não produziu redução estatisticamente significativa da dor quando comparado ao placebo.

Os cães tratados apresentaram melhora numérica em alguns indicadores, mas a diferença não foi suficiente para comprovar que o efeito ocorreu por causa da cannabis.

É justamente esse contraste que torna o tema interessante.

A ciência encontra sinais promissores, mas ainda tenta entender por que alguns animais parecem responder melhor que outros, quais formulações funcionam em determinados casos e como dose, tempo de uso, idade, metabolismo e outras doenças podem interferir na resposta.

Libonati explica que: “Na clínica, nós não olhamos somente para a molécula, olhamos para o paciente como um todo, procurando proporcionar uma homeostase (equilíbrio do organismo) e qualidade de vida para os pets. Dois cães com o mesmo diagnóstico podem vir a responder de formas diferentes, devido a idade, sexo, metabolismo, nível da evolução da doença, medicações associadas, intensidade da dor. Tudo isso precisa ser precisamente avaliada e levada em consideração”

Para quem está em casa, porém, uma melhora dificilmente aparece primeiro em uma escala científica.

Ela pode surgir quando o cachorro volta a caminhar com disposição. Quando consegue subir no sofá novamente. Quando procura a bolinha esquecida no canto ou volta a esperar perto da porta ao ouvir a coleira.

“Às vezes, a melhora aparece nas coisas mais simples. O tutor conta que o animal voltou a pedir passeio, conseguiu subir no sofá sozinho ou voltou a interagir com a família. Para quem acompanha dor crônica, esses pequenos comportamentos dizem muita coisa.”

A atuação da Dra.Tatiana hoje também vai além do consultório. Ela participa ministrando aulas em pós-graduações, cursos sobre formação em cannabis na veterinária além de ser uma das coordenadoras de um curso em cannabis sativa na SBEC.

Gatos também sentem, mas nem sempre mostram

Embora boa parte da literatura veterinária sobre cannabis ainda esteja concentrada nos cães, os gatos começam a ganhar espaço nas pesquisas.

Um ensaio clínico publicado em 2025 no Journal of Feline Medicine and Surgery avaliou uma formulação rica em CBD e CBDA em gatos com osteoartrite.

Dos 26 animais inicialmente incluídos, 14 concluíram o estudo. Entre eles, os pesquisadores observaram redução significativa em avaliações de dor e melhora funcional durante o período em que receberam a formulação com canabinoides. Alguns sinais de melhora relatados pelos tutores apareceram já a partir da segunda semana.

O estudo também mostrou um problema bastante prático.

Doze gatos abandonaram o experimento, principalmente porque se recusavam a consumir a pasta utilizada. Em alguns casos também houve episódios de vômito.

Ou seja, descobrir uma substância potencialmente útil é apenas parte da equação. O tratamento precisa funcionar para aquele animal, naquela rotina e naquela família.

“Gatos são um capítulo à parte. Além da dose e da escolha da formulação, precisamos pensar em aceitação, comportamento e na forma de administrar. Um tratamento que o gato rejeita todos os dias dificilmente será um bom tratamento.”

Cannabis medicinal não é dar maconha ao animal

O avanço das pesquisas também acontece em um momento de mudança regulatória no Brasil.

Desde 2024, médicos-veterinários habilitados passaram a poder prescrever medicamentos à base de cannabis registrados pela Anvisa e produtos com autorização sanitária da Agência para uso terapêutico em animais. A decisão também abriu caminho para a regulamentação de produtos veterinários à base da planta pelo Ministério da Agricultura e Pecuária. (Anvisa)

Isso não significa, porém, que qualquer produto de cannabis seja apropriado para um cachorro ou gato.

Oferecer um óleo sem procedência, sem análise, sem ser prescrito por um profissional habilitado para isso, está longe de ser um tratamento veterinário de qualidade.

“Cannabis medicinal não é simplesmente dar um óleo para o animal e observar o que acontece. É preciso conhecer a composição, ajustar a dose, acompanhar a resposta clínica e observar possíveis interações com outros medicamentos,” finaliza.

Espécie, peso, concentração dos canabinoides, outras doenças e medicamentos já utilizados precisam ser considerados pelo médico-veterinário.

Também por isso a cannabis não precisa ser apresentada como uma solução milagrosa para chamar atenção.

Os resultados encontrados até agora mostram um campo em construção. Existem trabalhos que apontam melhora, outros em que a diferença para o placebo ainda não aparece com clareza e muitas perguntas sobre doses, formulações e tratamentos de longo prazo continuam abertas.

Para o tutor, no entanto, a primeira pista costuma ser muito menos sofisticada.

Se o cachorro que sempre pulou no sofá começou a ficar no chão, talvez valha observar um pouco mais.

Pode não ser apenas idade.

Pode ser dor.


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