Era para ser apenas uma caminhada em família. Mas Tokyo, uma labradora preta de cinco anos, acabou protagonizando uma aventura que ninguém havia planejado. O passeio pela montanha mais alta do Reino Unido terminou com uma equipe de resgate, uma maca e uma suspeita bastante inusitada de intoxicação por maconha.
O episódio aconteceu em 5 de julho de 2026, durante uma trilha pelo Ben Nevis, na Escócia. Tokyo acompanhava sua tutora, Christina Bluhme, e outros integrantes da família quando começou a apresentar um comportamento estranho.
A cadela, até então ativa e acostumada a exercícios, perdeu a firmeza nas patas traseiras, passou a cambalear e começou a alternar momentos de consciência e inconsciência.
A princípio, Christina imaginou que o animal tivesse sofrido alguma lesão na coluna. O problema era que estavam a várias horas do início da trilha, em uma região montanhosa, sob chuva e com uma labradora de aproximadamente 25 quilos incapaz de caminhar.
Foi quando entrou em cena a equipe voluntária Lochaber Mountain Rescue. Os socorristas colocaram Tokyo em uma maca e a carregaram montanha abaixo até que ela pudesse receber atendimento veterinário.
A suspeita que mudou a história
Na clínica Crown Vets, em Fort William, os veterinários identificaram sinais de intoxicação neurológica. Após avaliarem o quadro e consultarem um serviço especializado em toxicologia veterinária, concluíram que os sintomas eram compatíveis com exposição à cannabis.
A hipótese é que Tokyo tenha ingerido algum material contendo THC abandonado na trilha. Ninguém, porém, presenciou a ingestão, e a origem exata da possível exposição não foi determinada.
A história ainda reservava uma situação digna de comédia.
Em entrevista à CNN, Christina contou que, durante a medição de temperatura, Tokyo soltou gases com um odor que, segundo ela, lembrava fortemente maconha.
A própria tutora reconheceu o contraste entre o susto e o episódio inusitado. Apesar do momento curioso, ela temeu perder a companheira durante o resgate.

Tokyo recebeu tratamento veterinário, incluindo fluidos intravenosos e carvão ativado administrado pela equipe clínica. No dia seguinte, já estava recuperada, abanando o rabo e pronta para voltar para casa.
Para cães, a brincadeira pode ser perigosa
Apesar do final feliz, o caso serve de alerta para tutores.
Para a médica-veterinária Cinthia Rosolem, a intoxicação por THC pode provocar reações importantes no organismo dos animais.
“O THC, um dos principais componentes psicoativos da maconha, atua no sistema nervoso. Nos cães, pode provocar sonolência, desorientação, perda de equilíbrio, tremores, vômitos e perda involuntária de urina. Também podem ocorrer alterações na frequência cardíaca e na temperatura corporal”.
Segundo a especialista, a intensidade dos sintomas depende da quantidade ingerida, da concentração de THC e das características do animal. Em situações mais graves, podem ocorrer depressão respiratória e, raramente, convulsões. Embora mortes sejam incomuns, algumas intoxicações exigem internação.
Cinthia também ressalta que a presença de sintomas compatíveis não confirma, isoladamente, a exposição à cannabis. No caso de Tokyo, a ingestão permaneceu como hipótese clínica.
“Na suspeita de ingestão, procure atendimento veterinário imediatamente e informe o que o animal pode ter consumido”, orienta Cinthia.
A veterinária alerta ainda para os riscos de tentar resolver a situação em casa.
“Não provoque vômito nem ofereça carvão ativado por conta própria. Animais sonolentos ou sem coordenação podem aspirar o conteúdo para os pulmões.”
A orientação também é respaldada pelo Conselho Federal de Medicina Veterinária, que recomenda avaliação profissional em casos de suspeita de intoxicação por THC.
Uso medicinal é outra história
Cinthia faz uma distinção importante. O episódio vivido por Tokyo não representa os tratamentos veterinários realizados com canabinoides sob orientação profissional.
“A ingestão acidental não deve ser confundida com o uso medicinal de canabinoides, que exige avaliação veterinária, escolha da formulação, dose individualizada e acompanhamento”.
No Brasil, a utilização terapêutica de produtos à base de cannabis na medicina veterinária ganhou respaldo regulatório com a RDC nº 936/2024 da Anvisa, que abriu caminho para a prescrição por médicos-veterinários, dentro das normas aplicáveis.
A diferença, portanto, está no acompanhamento profissional e no uso controlado de produtos apropriados, e não na exposição imprevista a uma substância de concentração desconhecida.
No fim das contas, Tokyo não chegou ao topo do Ben Nevis.
Mas desceu a montanha com uma história que dificilmente outra cadela conseguirá superar.





