Hope não sabe que virou artigo científico. Quando foi encontrado abandonado, o cavalo estava severamente desnutrido, quase não apoiava uma das patas traseiras e convivia com uma extensa ferida, dor persistente e um sarcoide equino, tumor de pele que pode ser particularmente difícil de tratar.
Meses depois, havia recuperado peso, voltado a deitar e levantar sozinho e chegado a trotar pequenas distâncias.
No meio dessa história estava a cannabis.
Hope recebeu durante dez meses formulações full spectrum ricas em CBD e THC, por via oral e também diretamente sobre a ferida. O acompanhamento foi publicado em junho de 2026 na revista científica Frontiers in Veterinary Science. Os pesquisadores registraram melhora da dor, da mobilidade, do apetite e da condição corporal, além de evolução da cicatrização. O comportamento de automutilação também desapareceu.
O caso resume algo que acontece há anos no país. Antes da regulamentação alcançar a cannabis veterinária, associações, pesquisadores, tutores e profissionais já tentavam construir esse caminho.
Os cães abriram a trilha
Boa parte da evidência científica disponível hoje está concentrada nos cães.
Um ensaio clínico duplo-cego com 51 animais portadores de epilepsia idiopática resistente a medicamentos encontrou redução significativa do número de convulsões e dos dias com crises entre os cães que receberam CBD em uma das doses avaliadas como complemento ao tratamento convencional.
Na osteoartrite, pesquisas também registraram redução da dor e melhora da mobilidade com determinadas formulações de CBD. E a investigação já alcança áreas como dermatite atópica, comportamento e cuidados paliativos.
Para a médica-veterinária Cinthia Rosolem, (CRMV-SP 49.987), especialista em dermatologia, comportamento e com atuação em cannabis medicinal, o crescimento da área exige justamente separar interesse científico de promessa fácil.
“Essa é uma área que vem crescendo muito, mas precisamos separar aquilo que já possui alguma evidência científica daquilo que ainda é uma possibilidade em estudo.”
Entre os resultados mais consistentes em cães, ela destaca o controle da dor crônica, especialmente na osteoartrite, além de estudos em epilepsia, dermatite, prurido e algumas alterações comportamentais.
A cannabis, porém, não precisa entrar no tratamento para substituir tudo o que veio antes.
“Na prática, muitas vezes ela entra como parte de um tratamento multimodal. Em determinados pacientes, pode ser mais uma ferramenta para controle de sintomas, conforto e qualidade de vida”, reforça Rosolem.
É uma distinção importante. O avanço da cannabis veterinária não está em transformá-la em solução universal, mas em ampliar o arsenal terapêutico disponível.
Mas afinal, o animal fica “chapado”?
Essa provavelmente é uma das primeiras perguntas feitas pelos tutores. Contudo, Cinthia explica que o efeito psicoativo popularmente associado à cannabis está relacionado principalmente ao THC, enquanto o CBD não produz o mesmo efeito.
“O objetivo nunca é deixar o animal alterado, mas utilizar os canabinoides de forma terapêutica.”
E faz um alerta que ajuda a separar tratamento veterinário de improvisação doméstica:
“Cannabis medicinal não deve ser confundida com simplesmente oferecer maconha ao animal. A exposição inadequada ao THC pode, inclusive, causar intoxicação. O tratamento envolve produtos de composição conhecida e doses calculadas de acordo com cada paciente. Isso também significa que não existe uma dose pronta para qualquer animal”, lembrou a médica veterinária.
Cachorros, gatos, cavalos e o problema da receita pronta
A maior parte dos estudos clínicos está concentrada em cães. Já existem pesquisas com gatos, mas a evidência ainda é menor. Cavalos, como Hope, e outras espécies também possuem sistema endocanabinoide e começam a aparecer na literatura.
Isso não significa que um protocolo possa ser simplesmente transportado de uma espécie para outra.
“Cada espécie metaboliza essas substâncias de maneira diferente”, explica Rosolem.
Antes de uma prescrição, idade, diagnóstico, função hepática, medicamentos utilizados e objetivo terapêutico precisam entrar na conta. Em determinados casos, acompanhamento clínico e laboratorial também pode ser necessário.
Cinthia resume de forma simples.
“Não gosto de tratar cannabis como uma substância que ‘todo animal pode usar’. A cannabis é uma ferramenta farmacológica. Tem indicação, dose, interação medicamentosa e possibilidade de efeito adverso.”
Até a origem natural da planta precisa ser colocada em perspectiva.
“Natural não é sinônimo de sem risco.”
Antes da lei, vieram as associações
A história brasileira da cannabis veterinária não foi construída apenas dentro das universidades.
A ÍNDICA — Inclusão, Diversidade e Cannabis para Animais, fundada por Ana Carolina Campedelli, por exemplo, está entre as entidades que ajudaram a criar redes de atendimento e acesso quando a regulamentação ainda era incerta.
A associação afirma reunir mais de 300 médicos-veterinários parceiros e atender milhares de animais, incluindo cães, gatos, cavalos, aves e espécies exóticas.
Em audiência pública na Assembleia Legislativa de São Paulo, Ana Carolina definiu esse movimento como uma resposta à dor que o poder público demorou a acompanhar.

“As associações nasceram da coragem e da compaixão e vivemos um ato de desobediência civil pacífica, porque não podemos virar as costas para a dor. Durante anos, fizemos chegar aos animais um tratamento que a regulamentação ainda não conseguia alcançar. O reconhecimento profissional é uma conquista enorme, mas ela só estará completa quando esse avanço também significar acesso.”
Outras iniciativas seguiram caminhos semelhantes. A Associação Brasileira PetCannabis afirma ter atendido mais de 1.200 animais em seu primeiro ano de acolhimento clínico e social, incluindo ações voltadas a ONGs, abrigos, animais resgatados e tutores sem condições de custear integralmente o tratamento.
O projeto Dr. PetCannabis, do médico-veterinário Fábio Mercante de San Juan, também apostou na formação profissional e afirma já ter capacitado milhares de veterinários na medicina canabinoide.
O ativismo abriu uma porta. A academia começou a entrar por ela.
Da militância para a sala de aula
A Endocanabinologia já aparece na formação veterinária brasileira.
Na Universidade Federal de Santa Catarina, o curso de Medicina Veterinária de Curitibanos oferece disciplina de Endocanabinologia com conteúdos sobre sistema endocanabinoide, farmacologia, fitocanabinoides e aplicações terapêuticas.
Na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, a Endocanabinologia Veterinária integra atividades acadêmicas e a pós-graduação em Medicina Veterinária.
A UFRPE, em Pernambuco, também já reúne pesquisas envolvendo canabinoides na saúde animal. Neste ano, uma dissertação avaliou o óleo de cannabis em gatos com síndrome de hiperestesia felina, mais um sinal de que a produção científica começa a sair do eixo quase exclusivo dos cães.
A formação avança também fora das universidades públicas. Cursos de atualização, pós-graduações e programas voltados especificamente à cannabis veterinária começaram a se multiplicar.
Foi então que veio o reconhecimento institucional.
Um marco histórico para a profissão
Em 18 de junho de 2026, o Conselho Federal de Medicina Veterinária aprovou a habilitação da AMEC-VET para conceder o título de especialista em Endocanabinologia Veterinária.
A decisão foi oficializada pela Resolução CFMV nº 1.705, publicada em julho.
O marco não aconteceu neste 9 de setembro.
Mas dá um significado particular ao Dia do Médico-Veterinário de 2026.
Uma área que durante anos cresceu entre associações, cursos independentes, pesquisadores e profissionais pioneiros agora tem caminho formal para certificação de especialistas pelo sistema profissional.
E isso aconteceu pouco depois de outra mudança decisiva.
Desde 2024, a Anvisa permite que médicos-veterinários habilitados prescrevam medicamentos e produtos de cannabis regularizados no país.
Em poucos anos, a discussão saiu da pergunta “veterinário pode prescrever?” para outra muito mais sofisticada.
Como formar bons prescritores, produzir evidência e ampliar o acesso?
O mercado já percebeu
Empresas também começam a acompanhar essa transformação.
A Grand View Research estima que o mercado mundial de CBD para pets movimentou cerca de US$ 331 milhões em 2024 e pode chegar próximo de US$ 3,94 bilhões em 2033.
No Brasil, a consultoria estima um mercado de US$ 16,1 milhões em 2024, com possibilidade de alcançar cerca de US$ 204,8 milhões em 2033. São projeções comerciais, e não estatísticas oficiais de vendas, mas revelam a dimensão econômica que começa a acompanhar a transformação clínica.
Antes dos milhões, porém, vieram os pacientes.
Vieram os cães com epilepsia. Os animais com dor. Os tutores procurando alternativas. Os veterinários dispostos a estudar uma terapia cercada de preconceito. As associações. As universidades.
E veio Hope.
Um cavalo que chegou ao tratamento debilitado e voltou a trotar.
Neste Dia do Médico-Veterinário, talvez essa seja a imagem que melhor resume o momento. A cannabis já entrou na Medicina Veterinária. Agora começa a ganhar ciência, formação profissional e instituições capazes de decidir até onde esse caminho pode chegar.
E se o meu animal precisar?
A resposta de Cinthia Rosolem começa por aquilo que o tutor não deve fazer.
“O principal cuidado é não fazer uso por conta própria.”
Um óleo não é igual ao outro. Concentrações de CBD, THC e outros canabinoides variam. Um produto utilizado por uma pessoa não deve simplesmente ser administrado a um animal.
“O tratamento precisa ter indicação, produto adequado, dose individualizada e acompanhamento da resposta do paciente.”
O Portal Cannabis Medicinal conta com médicos-veterinários disponíveis em sua plataforma para avaliar cada caso e orientar tutores sobre quando a terapia canabinoide pode fazer sentido.
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