Ciência e Pesquisa

CBD para endometriose? O que o ensaio da USP encontrou

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João Negromonte

05 de novembro de 2026

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CBD para endometriose? O que o ensaio da USP encontrou

Em janeiro de 2023, o Cannabis Medicinal noticiou a busca de voluntárias pela Universidade de São Paulo. O objetivo era investigar se o canabidiol poderia aliviar a dor de mulheres com endometriose que continuavam apresentando sintomas mesmo após cirurgia e tratamento hormonal.

Três anos depois, os resultados trouxeram uma resposta que exige cautela. Embora muitas participantes tenham relatado melhora, o óleo enriquecido com CBD não demonstrou vantagem sobre o placebo.

A conclusão faz parte do DREAMLAND, ensaio clínico conduzido na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP (FMRP-USP) e publicado em 13 de janeiro de 2026 na revista científica Cannabis & Cannabinoid Research.

O trabalho, assinado por Gabrielle Barbosa Anelli e outros pesquisadores, oferece uma contribuição importante para a investigação da cannabis medicinal no tratamento da endometriose, doença que pode provocar dores intensas, comprometer a qualidade de vida e persistir mesmo depois de intervenções convencionais.

O que o estudo da USP descobriu

O DREAMLAND foi desenvolvido como um ensaio clínico randomizado, triplo-cego e controlado por placebo. Isso significa que as participantes foram distribuídas aleatoriamente entre dois grupos e que houve medidas para evitar que o conhecimento sobre o tratamento influenciasse os resultados.

Segundo a publicação científica, 102 mulheres foram randomizadas, sendo 51 destinadas ao grupo que recebeu óleo enriquecido com CBD e 51 ao placebo.

Durante dez semanas, as participantes seguiram um protocolo de administração oral com doses progressivas, começando em 10 mg diários de CBD e podendo chegar a 150 mg, conforme a resposta e a tolerabilidade.

O registro oficial do ensaio descreve um extrato com proporção de 98% de CBD e 2% de THC entre os canabinoides. Portanto, não se tratava de CBD isolado.

Os resultados mostraram que aproximadamente 40% das participantes de cada grupo tiveram redução de pelo menos metade da dor. Cerca de 60% relataram melhora igual ou superior a 30%.

A diferença apareceu justamente onde os pesquisadores esperavam encontrar a resposta mais importante. O óleo enriquecido com CBD não foi estatisticamente superior ao placebo no controle da dor.

Ao final do tratamento, a intensidade média registrada foi de 41,6 milímetros no grupo do CBD e 36,8 milímetros no grupo placebo, em uma escala de 0 a 100, na qual valores menores representam menos dor. A diferença entre os grupos não foi estatisticamente significativa.

Isso não significa que a dor das participantes que receberam placebo fosse imaginária. Expectativas, acompanhamento médico, oscilações naturais dos sintomas e outros fatores podem influenciar a percepção de melhora.

É justamente para distinguir esses efeitos de um benefício específico do medicamento que os ensaios clínicos utilizam grupos de comparação.

Por que a pesquisa foi interrompida

O estudo foi encerrado após uma análise intermediária prevista no planejamento. Os pesquisadores não encontraram benefício clinicamente relevante do óleo no desfecho principal e observaram maior frequência de eventos adversos leves entre as mulheres que receberam a preparação com CBD.

As queixas envolveram principalmente sintomas gastrointestinais e alterações percebidas no peso. Não foram registrados eventos adversos graves durante o período estudado.

Os autores também identificaram mudanças favoráveis em alguns indicadores psicológicos e de qualidade de vida entre as participantes que utilizaram o óleo. Por outro lado, o grupo placebo apresentou resultados melhores em determinados aspectos físicos da qualidade de vida.

Essas observações, porém, precisam ser interpretadas com cuidado. Como pertencem às análises secundárias, não são suficientes para demonstrar eficácia do CBD contra a dor da endometriose.

O resultado negativo no objetivo principal não significa que todas as possibilidades terapêuticas da cannabis tenham sido descartadas. Ele demonstra que aquela formulação, nas condições e na população avaliadas, não apresentou benefício adicional comprovado em relação ao placebo.

Outras pesquisas encontraram resultados diferentes

A investigação brasileira também ajuda a interpretar estudos que apresentam conclusões mais favoráveis à cannabis medicinal.

Uma pesquisa britânica publicada em agosto de 2026 acompanhou dados de 101 pacientes com endometriose incluídas no UK Medical Cannabis Registry. Os pesquisadores identificaram associação entre o tratamento com produtos medicinais de cannabis e melhora em indicadores de dor, sono, ansiedade e qualidade de vida ao longo de dois anos.

Existe, contudo, uma diferença importante entre as pesquisas.

Enquanto o DREAMLAND comparou uma formulação específica com placebo, o estudo britânico analisou pacientes que utilizavam diferentes produtos, doses e combinações de canabinoides.

No início do acompanhamento britânico, 60 participantes recebiam óleo associado a flores secas de cannabis. Outras 33 utilizavam apenas óleo e oito, apenas flores.

Além disso, o estudo britânico foi observacional, sem grupo placebo. A pesquisa também reconhece limitações relacionadas às perdas de acompanhamento e à seleção de pacientes de uma clínica privada. Parte dos autores possui vínculos profissionais com a Curaleaf Clinic.

Por essas razões, os resultados britânicos não comprovam que o óleo testado pela USP seria eficaz. Da mesma forma, o ensaio brasileiro não permite descartar os efeitos de outras formulações ou combinações de canabinoides.

As duas pesquisas respondem a perguntas diferentes e reforçam a necessidade de novos estudos clínicos controlados.

Uma divergência nos registros da pesquisa

Há ainda uma diferença documental que merece transparência.

Enquanto o artigo publicado na Cannabis & Cannabinoid Research informa que 102 participantes foram randomizadas, o registro NCT05670353, disponível no ClinicalTrials.gov e atualizado em abril de 2025, apresenta 50 como número efetivo de participantes recrutadas.

As informações públicas consultadas não esclarecem a razão dessa divergência. Por isso, não é possível confirmar, apenas com esses documentos, como os dois números se relacionam. A inconsistência merece esclarecimento dos responsáveis pela pesquisa.

A conclusão divulgada pelos autores permanece sendo a ausência de superioridade do óleo enriquecido com CBD sobre o placebo no desfecho principal.

O que isso significa para as pacientes

A publicação do DREAMLAND representa um avanço para a pesquisa brasileira justamente por testar, em condições controladas, uma possibilidade terapêutica que já desperta interesse entre mulheres com endometriose.

Relatos individuais de alívio são importantes para identificar caminhos de investigação, mas não substituem os estudos necessários para determinar se um tratamento oferece benefícios específicos, quais pacientes podem responder melhor e quais riscos precisam ser considerados.

O resultado também não deve ser interpretado como orientação para interromper tratamentos prescritos. Decisões sobre o uso de canabinoides precisam considerar a situação clínica de cada paciente e o acompanhamento de profissionais habilitados.

Para a ciência, um resultado que não confirma a hipótese inicial também produz conhecimento.

No caso da USP, a principal descoberta é que, apesar da melhora relatada pelas participantes, o óleo rico em CBD não demonstrou superioridade ao placebo para a dor pélvica persistente associada à endometriose.

A pesquisa não encerra as possibilidades de investigação da cannabis medicinal. Mas estabelece um limite importante para aquilo que, até agora, podemos afirmar com segurança.


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