Home » Estudo revela que cannabis já era cultivo essencial na China há milênios e desafia visão proibicionista moderna

Estudo revela que cannabis já era cultivo essencial na China há milênios e desafia visão proibicionista moderna

by Redação

Pesquisa arqueológica indica que a planta fazia parte da base alimentar e econômica no período neolítico, reforçando seu papel histórico muito além do estigma contemporâneo

Um novo estudo publicado no Journal of Archaeological Science lança luz sobre um passado frequentemente ignorado pelas narrativas proibicionistas: a cannabis foi uma das culturas agrícolas fundamentais da China antiga, integrada à vida cotidiana e à subsistência de populações neolíticas.

A pesquisa, conduzida por cientistas da Shandong University, analisou 132 amostras arqueológicas coletadas em assentamentos nas regiões de Beitaishang e Qianzhongzitou, no atual território da Shandong. Utilizando a técnica de extração de fitólitos, os pesquisadores identificaram vestígios consistentes da planta em estruturas domésticas como fossas, pisos e fundações, evidenciando seu uso cotidiano.

Os resultados apontam que, já no período neolítico tardio, a cannabis havia se consolidado como uma cultura central no norte da China, sendo utilizada principalmente como alimento e fonte de fibra. A descoberta posiciona a planta ao lado de grãos essenciais como arroz, milheto, cevada e soja, compondo o que os autores classificam como “os cinco grãos” da economia agrícola da época.

Mais do que um cultivo marginal, a cannabis estava profundamente inserida nas práticas diárias dessas comunidades. A presença recorrente de vestígios em contextos domésticos indica atividades de processamento e consumo em nível familiar, desmontando a ideia de que seu uso histórico estaria restrito a rituais ou contextos isolados.

Segundo os pesquisadores, a cannabis já era “um componente indispensável da subsistência agrícola” durante o período Longshan, há mais de quatro mil anos. Em alguns dos sítios analisados, a planta apareceu em mais de 70% das amostras, um indicativo robusto de sua relevância econômica e social.

O estudo também destaca uma diferença importante em relação a outros achados arqueológicos na Eurásia, onde a cannabis frequentemente aparece associada a contextos funerários ou rituais. No caso chinês, os vestígios indicam um uso predominantemente prático e cotidiano, voltado à alimentação e à produção de fibras.

Essa evidência histórica reforça um ponto frequentemente negligenciado no debate contemporâneo: a relação da humanidade com a cannabis é milenar e multifacetada, envolvendo nutrição, medicina, tecnologia e cultura. A criminalização moderna, portanto, contrasta com um longo histórico de uso integrado e funcional da planta.

Apesar disso, os próprios autores do estudo destacam que a pesquisa se concentrou em variedades de cannabis voltadas à fibra, conhecidas como cânhamo, e reiteram a posição alinhada às políticas restritivas atuais da China em relação ao uso psicoativo da planta.

Ainda assim, os dados arqueológicos ampliam o entendimento sobre o papel da cannabis na formação de sociedades complexas, questionando leituras reducionistas que associam a planta exclusivamente a riscos ou desvios. Ao recuperar seu lugar como base agrícola e recurso estratégico, a ciência ajuda a reposicionar o debate em torno de evidências históricas e não de estigmas.

You may also like