Não era uma festa, muito menos uma visita a um dispensário. O presidente da África do Sul, Cyril Ramaphosa, estava cumprindo uma agenda oficial quando recebeu uma cesta de produtos à base de cannabis e resolveu fazer uma pergunta que ninguém esperava.
— Experimentar? Como assim, experimentar?
A reação veio depois que a pesquisadora Phatheka Ndzotoyi sugeriu que ele levasse os produtos para casa e os experimentasse. Entre sorrisos e gargalhadas, a equipe precisou explicar que o presente não tinha exatamente o efeito que o presidente parecia imaginar.
A cena aconteceu em 8 de abril de 2025, durante uma visita ao Conselho de Pesquisa Científica e Industrial da África do Sul (CSIR), em Pretória, e ganhou repercussão nas redes sociais.
Segundo a reportagem publicada pela TimesLIVE, Ramaphosa também brincou com a possibilidade de guardar maconha no bolso e mencionou a famosa Durban Poison, variedade de cannabis conhecida internacionalmente por sua origem sul-africana.
Mas foi a cesta de presentes que roubou a cena.
Quando o presidente demonstrou preocupação com os possíveis efeitos dos produtos, a pesquisadora garantiu que eles não provocariam a sensação de ficar chapado.
— Não vão deixar você chapado, prometemos.
A explicação era simples. Os alimentos apresentados continham CBD isolado, ou canabidiol, um dos compostos da cannabis que não produz a euforia característica do THC, substância associada aos efeitos intoxicantes da maconha.
A diferença entre os dois canabinoides é fundamental para entender as diversas aplicações da planta e por que produtos com formulações distintas podem produzir efeitos tão diferentes. No Brasil, essa distinção também está presente nas discussões sobre a regulamentação dos derivados da cannabis pela Anvisa.
A brincadeira de Ramaphosa, portanto, acabou abrindo espaço para uma conversa séria sobre segurança, composição e controle de qualidade.
E o assunto estava longe de ser apenas uma curiosidade científica.
Duas semanas antes da visita, em 25 de março, a Presidência sul-africana havia anunciado a retirada de uma medida que proibia a venda, fabricação e importação de alimentos contendo cannabis e cânhamo. A decisão foi formalizada em 9 de abril, um dia depois do encontro com os pesquisadores.
O recuo ocorreu após Ramaphosa defender uma discussão mais ampla sobre a regulamentação desses produtos. A preocupação do governo envolvia especialmente os riscos de alimentos com cannabis comercializados sem controle adequado, incluindo doces que poderiam ser consumidos por crianças.
Durante a visita, o presidente voltou ao assunto e questionou os pesquisadores sobre chocolates, balas e outros produtos com cannabis encontrados no mercado. A equipe explicou que os alimentos desenvolvidos no centro utilizavam CBD isolado e estavam sujeitos a exigências sanitárias.
A visita também mostrou que a África do Sul pretende ir além das discussões sobre consumo. O país busca transformar a planta em fonte de inovação, desenvolvimento industrial e oportunidades de negócios.
De acordo com o próprio CSIR, seu programa de cannabis já havia apoiado 23 pequenas e médias empresas no desenvolvimento e na comercialização de mais de 40 produtos destinados aos mercados nacional e internacional.
O movimento acompanha outras iniciativas no país, como a criação do primeiro curso superior de cannabis do continente africano, noticiada anteriormente pelo Portal Cannabis Medicinal.
Entre uma piada e outra, Ramaphosa acabou ilustrando uma questão que ainda acompanha o avanço da cannabis pelo mundo. A planta pode ser matéria-prima para medicamentos, cosméticos, alimentos e outros produtos, mas cada aplicação exige conhecimento científico, regras próprias e avaliação de segurança.
No fim das contas, o presidente saiu da visita conhecendo melhor o potencial econômico e científico da cannabis. E deixou uma lembrança divertida aos pesquisadores.
Afinal, antes de experimentar qualquer coisa, é sempre bom perguntar o que tem dentro.




