O pequeno frasco com conta-gotas se tornou praticamente um símbolo da cannabis medicinal no Brasil. Embora os óleos estejam entre as apresentações mais conhecidas pelos pacientes, eles representam apenas uma das possibilidades de administrar os compostos da planta.
Cápsulas, comprimidos, sprays, cremes, pomadas, géis e até gomas contendo canabinoides fazem parte de um universo de formulações farmacêuticas que vai muito além das tradicionais soluções orais.
A diferença não está apenas na apresentação. Cada formulação pode influenciar a absorção dos princípios ativos, a velocidade de início dos efeitos, sua duração e a praticidade do tratamento.
É justamente essa diversidade que começa a ganhar espaço nas discussões sobre o futuro da cannabis medicinal no Brasil.
O que muda entre óleos, cápsulas, sprays e cremes
Os óleos e as soluções orais permitem ajustes graduais de dose, característica importante para tratamentos que exigem acompanhamento e individualização.
Cápsulas e comprimidos oferecem outra possibilidade. Por conterem quantidades previamente definidas de princípios ativos, podem facilitar a padronização e a rotina de administração.
As chamadas gummies, ou gomas com canabinoides, também despertam interesse pela praticidade. Entretanto, uma formulação medicinal precisa atender a requisitos farmacêuticos específicos. Adicionar CBD a uma goma não é suficiente para transformá-la em um produto terapêutico seguro e regularizado.
Os sprays bucais e as preparações sublinguais oferecem estratégias de administração pelas mucosas da boca, com características de absorção que dependem da composição e da tecnologia empregada.
Essa alternativa não é apenas uma possibilidade teórica. O Brasil já possui histórico de registro de um medicamento em spray bucal contendo THC e CBD, desenvolvido para tratar sintomas específicos de espasticidade associados à esclerose múltipla.
Na pele, cremes, pomadas e géis representam outra área de desenvolvimento. Essas preparações podem ser formuladas para aplicação local, enquanto sistemas transdérmicos buscam transportar substâncias através da pele para alcançar a circulação.
Existem ainda pesquisas com preparações destinadas à saúde íntima e outros sistemas de administração. Nesses casos, porém, a possibilidade de desenvolver uma formulação não significa que sua eficácia clínica esteja comprovada ou que sua comercialização esteja autorizada.
O que a legislação brasileira já permite
O cenário regulatório passou por uma mudança importante em 2026.
A RDC 1.015/2026 da Anvisa, que substituiu a RDC 327/2019, ampliou as vias de administração admitidas para a categoria de Produtos de Cannabis.
Além da via oral, a norma contempla as vias bucal, sublingual, dermatológica e inalatória.
Isso abre espaço para o desenvolvimento de novas apresentações farmacêuticas, desde que cumpram os requisitos sanitários aplicáveis.
A mudança, entretanto, não significa que todas essas formulações já estejam disponíveis nas farmácias brasileiras.
As soluções orais continuam predominantes entre os produtos regularizados. Outras apresentações dependem de desenvolvimento tecnológico, documentação de qualidade e avaliação da Anvisa.
A inclusão da via inalatória também não deve ser confundida com autorização para fumar cannabis. A regulamentação exige formas farmacêuticas apropriadas e não libera a comercialização de flores ou da planta seca como Produtos de Cannabis.
Da mesma forma, preparações vaginais e determinados sistemas transdérmicos não estão automaticamente contemplados pela autorização sanitária dessa categoria.
Outro ponto relevante envolve as farmácias magistrais. A RDC 1.015/2026 prevê a possibilidade de manipulação de preparações contendo CBD purificado, mas estabelece que as condições sanitárias dessa atividade dependem de regulamentação específica.
Como os pacientes podem acessar essas apresentações
Atualmente, existem diferentes caminhos de acesso à cannabis medicinal no Brasil, cada um com exigências próprias.
Nas farmácias e drogarias, os pacientes podem adquirir medicamentos registrados e Produtos de Cannabis com autorização sanitária da Anvisa, mediante prescrição e observadas as regras de controle aplicáveis.
A RDC 660/2022 estabelece outra possibilidade, permitindo a importação excepcional de determinados produtos derivados de cannabis para uso próprio, mediante prescrição e autorização da Agência.
Essa modalidade pode oferecer acesso a apresentações diferentes das encontradas no mercado nacional, conforme o enquadramento e a autorização de cada produto.
É importante destacar que a autorização excepcional de importação não equivale ao registro sanitário brasileiro. A própria Anvisa esclarece que esses produtos não passaram pela mesma avaliação de eficácia, qualidade e segurança exigida para medicamentos registrados.
As associações de pacientes também integram o cenário brasileiro de acesso. Em 2026, a RDC 1.014 instituiu um ambiente regulatório experimental para atividades associativas, sob condições específicas de supervisão, sem autorizar a comercialização. A situação de cada entidade também pode envolver decisões judiciais.
Portanto, a existência de diferentes formulações no exterior não significa que qualquer uma delas possa ser vendida livremente no Brasil.
A qualidade precisa acompanhar a inovação
A diversidade de apresentações traz oportunidades, mas também desafios para a indústria farmacêutica e para os profissionais de saúde.
Independentemente da forma escolhida, é fundamental avaliar a concentração dos canabinoides, a uniformidade das doses, a estabilidade, a conservação, a presença de possíveis contaminantes e a qualidade dos ingredientes utilizados.
Uma cápsula precisa apresentar quantidade consistente de princípio ativo. Um spray deve oferecer administração reproduzível. Uma formulação dermatológica exige estudos adequados às suas características.
Esses cuidados ajudam a explicar por que a qualidade de um produto medicinal não pode ser determinada apenas por sua aparência, concentração declarada ou facilidade de utilização.
Também é necessário distinguir segurança farmacêutica de eficácia terapêutica. Um produto pode apresentar qualidade de fabricação sem que existam evidências clínicas suficientes para determinada indicação.
O futuro da cannabis medicinal vai além do conta-gotas
Durante muito tempo, as discussões sobre cannabis medicinal se concentraram principalmente em quais canabinoides utilizar e em quais concentrações.
Essas questões continuam fundamentais, mas o desenvolvimento farmacêutico acrescenta outra dimensão ao debate.
A forma como os princípios ativos são administrados também pode influenciar a experiência do paciente, a precisão das doses e a adesão ao tratamento.
Isso não significa que cápsulas, sprays ou cremes sejam necessariamente superiores aos óleos. Cada apresentação possui vantagens, limitações e exigências próprias.
O avanço da cannabis medicinal dependerá da capacidade de transformar possibilidades tecnológicas em produtos com qualidade, segurança e benefícios terapêuticos sustentados por evidências.
Afinal, ampliar o acesso à cannabis medicinal também significa investigar novas maneiras de oferecer tratamentos adequados às necessidades de cada paciente.
Sobre o autor
Leonardo Kuchembuck Auricchio é farmacêutico e consultor especializado em farmácia magistral e cannabis medicinal, com atuação no desenvolvimento de formulações canabinoides, inovação farmacêutica e assuntos regulatórios.




