Ciência e Pesquisa

Pesquisadores desenvolvem plástico biodegradável à base de cânhamo que pode substituir derivados do petróleo

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Thiago Alves

02 de junho de 2026

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Pesquisadores desenvolvem plástico biodegradável à base de cânhamo que pode substituir derivados do petróleo

Estudo aponta que composto extraído do cânhamo apresenta potencial para reduzir a dependência de plásticos petroquímicos e combater a poluição por microplásticos

Enquanto o canabidiol já conquistou espaço nos setores de saúde e bem-estar, uma nova pesquisa sugere que o composto pode desempenhar um papel importante em outra área estratégica: a sustentabilidade ambiental.

Cientistas dos Estados Unidos desenvolveram um novo tipo de plástico produzido a partir de CBD extraído do cânhamo industrial. Segundo os pesquisadores, o material apresenta características comparáveis às dos plásticos derivados do petróleo amplamente utilizados atualmente, mas com potencial para reduzir impactos ambientais e facilitar processos de reciclagem.

O estudo foi publicado na revista científica Chem Circularity e envolveu pesquisadores da Universidade de Connecticut e da Universidade Purdue.

Atualmente, boa parte das embalagens de alimentos, garrafas plásticas e componentes eletrônicos flexíveis é produzida a partir do tereftalato de polietileno (PET), um plástico derivado de combustíveis fósseis. Além da dependência do petróleo, esses materiais contribuem para a crescente contaminação ambiental por microplásticos, partículas microscópicas que já foram encontradas no ar, na água, nos alimentos e até no organismo humano.

Diversos estudos vêm associando a exposição aos microplásticos a processos inflamatórios, danos celulares e potenciais impactos à saúde humana.

Buscando alternativas mais sustentáveis, os pesquisadores criaram um policarbonato derivado de CBD capaz de atingir propriedades raramente observadas em plásticos de origem vegetal.

Entre os principais diferenciais está a elevada resistência térmica. O material desenvolvido consegue manter sua estabilidade estrutural mesmo quando exposto à água fervente, característica considerada essencial para aplicações industriais.

Além disso, o novo plástico demonstrou alta elasticidade, sendo capaz de se esticar até 16 vezes seu tamanho original sem perder suas propriedades.

Segundo o professor Gregory Sotzing, do Departamento de Química da Universidade de Connecticut e um dos autores da pesquisa, poucos materiais produzidos a partir de recursos naturais apresentam desempenho semelhante.

“Pouquíssimos plásticos de origem natural possuem essa característica”, afirmou o pesquisador.

Os cientistas acreditam que o CBD poderá substituir substâncias utilizadas atualmente na fabricação de policarbonatos convencionais, como o bisfenol A (BPA), composto associado a alterações hormonais e frequentemente classificado como um desregulador endócrino.

De acordo com os autores, o novo material também apresenta excelente repelência à água, característica que amplia suas possibilidades de aplicação em áreas como revestimentos médicos, cateteres e sistemas de liberação controlada de medicamentos.

Outro diferencial importante está na reciclagem.

Enquanto muitos plásticos convencionais exigem processos complexos para reaproveitamento, o policarbonato derivado de CBD pode ser quimicamente decomposto e ter seus componentes recuperados para reutilização. Segundo os pesquisadores, o processo não depende de enzimas e permite a recuperação do próprio CBD utilizado na fabricação do material.

O professor Mukerrem Cakmak, da Universidade Purdue, destacou que a equipe conseguiu desenvolver um modelo de produção capaz de atender às exigências industriais sem comprometer a sustentabilidade do produto.

Segundo ele, os resultados demonstram que os policarbonatos à base de CBD podem se tornar substitutos viáveis para termoplásticos amplamente utilizados atualmente.

Apesar do potencial, os pesquisadores reconhecem que a produção global de CBD ainda está longe de atender uma eventual demanda capaz de substituir o PET em larga escala.

Por outro lado, eles apontam que isso representa uma oportunidade para a expansão do cultivo de cânhamo industrial, planta que já fornece fibras, sementes, óleos e canabinoides para diferentes segmentos da economia.

Para Sotzing, o estudo reforça a versatilidade do cânhamo e sua capacidade de contribuir para uma economia mais sustentável.

“Estamos encontrando novas maneiras de utilizar a planta inteira. Da mesma forma que a indústria do petróleo aprendeu a aproveitar praticamente todos os seus derivados, agora estamos descobrindo quantas aplicações úteis existem dentro do cânhamo”, afirmou.

A pesquisa amplia o debate sobre o potencial econômico e ambiental da cannabis industrial, setor que vem ganhando relevância global não apenas na produção de medicamentos e alimentos, mas também no desenvolvimento de materiais sustentáveis capazes de substituir produtos altamente dependentes de combustíveis fósseis.

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