Dicas e Curiosidades

O bong africano que guarda segredos da realeza

J
João Negromonte

04 de novembro de 2026

Compartilhar:
O bong africano que guarda segredos da realeza

À primeira vista, parece uma escultura africana. Uma mulher de madeira repousa sobre uma grande cabaça, acompanhada por duas pequenas cabeças masculinas. Mas o objeto tem uma função que talvez surpreenda quem o observa pela primeira vez. Trata-se de um bong de água, produzido na tradição artística do povo Luba, na região que hoje corresponde à República Democrática do Congo.

O exemplar ganhou destaque em um vídeo divulgado pela History of Smoke, especializada em objetos históricos relacionados ao hábito de fumar. Segundo a Goodson Gallery, responsável por sua comercialização, a peça foi produzida em algum momento entre 1850 e 1950 e está anunciada por US$ 2.500.

Com aproximadamente 26 centímetros de altura, o bong utiliza uma cabaça natural como reservatório de água. Um pequeno recipiente de barro recebe a substância a ser fumada, enquanto a fumaça percorre o interior do objeto antes de ser aspirada.

O que chama a atenção, porém, não é apenas o mecanismo.

Uma mulher que representa poder

A figura feminina ocupa o centro da escultura, com as mãos apoiadas sobre os próprios seios. O gesto, que pode parecer apenas decorativo, carrega significados importantes na tradição Luba.

Segundo o Metropolitan Museum of Art, de Nova York, representações de mulheres segurando os seios podem simbolizar cuidado, respeito e, de acordo com alguns representantes da cultura Luba, a proteção dos segredos da realeza.

Essa interpretação está ligada ao papel das mulheres na organização política e espiritual daquele povo. Elas podiam atuar como conselheiras, intermediárias espirituais e guardiãs de conhecimentos associados ao poder.

O Museu de Arte do Condado de Los Angeles (LACMA) já apresentou, inclusive, outro bong antropomórfico Luba do século XIX em uma exposição dedicada às relações entre arte e autoridade na África Central.

Na peça mostrada no vídeo, até a abertura esculpida na região genital da figura feminina integra o desenho do sistema de fumar, conforme a apresentação do objeto. É um exemplo de como funcionalidade e expressão artística podiam ocupar o mesmo espaço.

Mas esse bong era usado para fumar maconha?

A pergunta é inevitável, especialmente porque hoje o bong é frequentemente associado ao consumo de cannabis.

E existe uma conexão histórica real.

Em um estudo publicado no Journal of African History, o historiador John Edward Philips aponta como hipótese mais provável que a cannabis já fosse fumada em cachimbos de água em regiões da África Oriental e Austral antes da chegada do tabaco ao continente.

Há também registros mais próximos da região de origem do objeto.

Uma pesquisa da historiadora Marta Macedo, publicada em 2024, recupera relatos do século XIX sobre o uso de liamba, nome dado à cannabis em partes da África, por comunidades de Angola e de áreas próximas ao atual Congo.

Entre os registros estão descrições de integrantes do povo Chokwe fumando cannabis em instrumentos chamados mutopa, uma espécie de cachimbo de água. Essas comunidades não devem ser confundidas com os Luba, mas os relatos mostram como o consumo da planta e o uso desses dispositivos faziam parte da história da região.

Isso não significa, entretanto, que o bong apresentado no vídeo tenha sido utilizado com maconha.

A descrição comercial da peça não apresenta análises de resíduos que permitam identificar se ela recebeu cannabis, tabaco ou outras plantas.

Da África aos colecionadores

A trajetória conhecida do objeto também chama a atenção. De acordo com a galeria, ele pertenceu à coleção de William e Diane Itter, casal norte-americano ligado às artes.

A relação dos dois com a arte africana é documentada pela Universidade de Indiana, que recebeu centenas de objetos reunidos pelo casal desde a década de 1970.

Hoje, a escultura ajuda a contar uma história que vai muito além dos acessórios modernos para consumir cannabis.

Antes dos bongs de vidro, dos modelos industrializados e da cultura contemporânea associada à maconha, diferentes povos já transformavam instrumentos de fumar em objetos que expressavam identidade, conhecimento e poder.

No caso dos Luba, até um bong podia ter muito mais a dizer do que a fumaça que passava por ele.


Precisa de orientação médica?

Encontre um especialista em cannabis medicinal perto de você.

Encontrar Médico Especialista

Encontre seu Especialista

Profissionais especialistas em todo o Brasil

Consulta presencial e telemedicina

Aviso Legal

Este conteúdo é meramente informativo e não substitui consulta médica. O uso de cannabis medicinal deve ser feito sob orientação de profissional habilitado, conforme regulamentação da Anvisa (RDC 327/2019). Não nos responsabilizamos pelo uso indevido das informações aqui contidas.

Agende sua Consulta com um Especialista em Cannabis Medicinal

Encontre o especialista certo para o seu tratamento

1. Escolha a especialidade
2. Encontre o especialista
3. Marque a consulta

Consulta presencial e telemedicina disponíveis