EUA: Governo encerra encomendas de cannabis para pesquisa em universidade após 57 anos
21 de julho de 2025

Decisão da NIDA visa corte de gastos, mas não compromete oferta imediata para estudos; especialistas veem espaço para diversificar fornecedores e melhorar qualidade dos insumos
A Agência Nacional de Abuso de Drogas dos Estados Unidos (NIDA) anunciou o fim de novas encomendas de cannabis para pesquisa à Universidade do Mississippi (Ole Miss), encerrando uma parceria de mais de cinco décadas. A decisão, segundo a agência, decorre de uma diretriz do Departamento de Eficiência Governamental (DOGE), implementado durante a administração Trump, para reduzir custos em contratos federais.
Apesar da suspensão, a NIDA afirma que a medida não deve afetar o fornecimento de cannabis para estudos autorizados, já que o estoque atual é suficiente para atender à demanda até o fim de 2025. O contrato com a Ole Miss segue ativo até 2028, mas novas tarefas de cultivo não serão encomendadas neste momento.
Por décadas, a Universidade do Mississippi teve exclusividade no cultivo de cannabis para pesquisas federais. Embora a Agência de Fiscalização de Drogas (DEA) tenha autorizado outros sete produtores nos últimos anos, a NIDA continuava contratando apenas a Ole Miss. Essa exclusividade, porém, foi alvo de críticas por parte de cientistas, que alegavam baixa qualidade, inconsistência e inadequação dos produtos para testes clínicos rigorosos.
A Dra. Sue Sisley, da Scottsdale Research Institute, uma das novas cultivadoras aprovadas pela DEA, celebrou a decisão: “A cannabis que cultivamos é muito superior à da Ole Miss. Fornecemos 400 frascos para um estudo clínico sobre autismo, por exemplo. Esse monopólio era arcaico e ineficiente.”
Enquanto alguns temem que o fim dos pedidos possa gerar um vácuo no fornecimento, outros apontam que o real obstáculo à expansão da pesquisa não está no suprimento, mas nas restrições legais e falta de financiamento, uma consequência da classificação da cannabis como substância da Tabela I (sem valor terapêutico reconhecido).
“A demanda por cannabis de pesquisa ainda é baixa porque há poucos estudos sendo financiados. É disso que precisamos: mais recursos e menos entraves regulatórios”, afirmou Sisley.
Abertura de mercado e expectativa por regulamentação
Para a empresa Maridose, uma das fornecedoras licenciadas, a mudança pode abrir caminho para uma melhoria na qualidade dos insumos usados em pesquisas. “A cannabis dos novos produtores se aproxima mais da que é vendida ao público em mercados regulados, o que deve aprimorar os resultados dos estudos”, declarou o fundador, Richard Shain.
Ele também negou que a suspensão indique um retrocesso na postura do governo em relação à cannabis. “Outros programas federais continuam, como o centro de pesquisa da NIH hospedado na Ole Miss. Não há sinal de que o apoio à pesquisa esteja sendo desmontado.”
Apesar do corte, a Universidade do Mississippi não deixará o campo da pesquisa canábica. A instituição continua à frente de iniciativas como o Centro Nacional de Produtos Naturais e o Centro Nacional de Pesquisa e Educação em Cannabis, além de abrigar o novo Resource Center for Cannabis and Cannabinoid Research (R3CR), projeto financiado pelos Institutos Nacionais de Saúde (NIH) em parceria com a Washington State University e a United States Pharmacopeia.
Segundo a universidade, seu histórico de mais de 57 anos no estudo da cannabis seguirá sendo aproveitado para contribuir com descobertas científicas e inovação no setor.
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