Um pouco de fungo, fibras de cânhamo, um molde e sete dias. A receita parece improvável, mas o resultado é um caixão.
E não apenas um protótipo.
No início de setembro, uma australiana identificada apenas como Carolyn, na faixa dos 70 anos, tornou-se a primeira pessoa do país a ser enterrada em um Loop Living Cocoon, caixão biodegradável desenvolvido pela empresa holandesa Loop Biotech. O funeral aconteceu em New South Wales, na Austrália.
A história chama atenção pela combinação pouco convencional dos materiais: fungos e cânhamo.
Mas é de cogumelo ou de cânhamo?
Dos dois.
A estrutura é produzida com micélio, uma rede de filamentos que forma a parte vegetativa dos fungos, e fibras reaproveitadas de cânhamo. Em vez de cola convencional, o próprio micélio cresce entre as fibras e ajuda a uni-las, formando uma estrutura rígida. A fabricante descreve o produto como feito de espécies locais de fungos e fibras recicladas de cânhamo.
Por isso, chamar o produto apenas de “caixão de cogumelo”, como fizeram algumas manchetes internacionais, conta só metade da história.
O cânhamo também está literalmente dentro do caixão.
E há outra curiosidade, ele não é simplesmente montado. É cultivado.
O material é colocado em um molde mantido em ambiente com condições controladas. O micélio cresce pela estrutura e, em aproximadamente sete dias, o caixão está formado.
Sete dias para nascer, 45 para desaparecer
O contraste é justamente uma das apostas da empresa.
O Living Cocoon leva cerca de uma semana para ser cultivado e pesa aproximadamente 30 quilos. De acordo com as especificações da Loop Biotech, suporta até 200 quilos e pode ser usado tanto em enterros convencionais e naturais quanto em cremações.
Depois de enterrado, a história se inverte.
Segundo a fabricante, em condições ideais, o material pode se biodegradar em aproximadamente 45 dias. A empresa afirma ainda que não utiliza cola, plástico ou produtos químicos na estrutura do caixão.
As alegações de que o processo melhora a biodiversidade e “enriquece” o solo também são feitas pela própria Loop Biotech e, portanto, precisam ser entendidas como informações fornecidas pelo fabricante, ainda que o princípio de decomposição do micélio esteja ligado ao papel natural dos fungos na reciclagem de matéria orgânica.
E tem até uma cama de musgo
Se a combinação de fungos e cânhamo já parecia curiosa, há mais.
O modelo básico tem o interior revestido com musgo, incluindo uma espécie de cama e travesseiro. Há versões com lã, algodão orgânico e até revestimento adicional de cânhamo.
A ideia surgiu na Holanda a partir do trabalho de Bob Hendrikx, fundador da Loop Biotech e ex-aluno da Universidade de Tecnologia de Delft. O projeto começou como uma pesquisa acadêmica e posteriormente ganhou escala comercial.
Segundo Hendrikx, milhares desses caixões já foram utilizados na Europa e nos Estados Unidos. O enterro de Carolyn, realizado em setembro de 2026, marcou a primeira utilização registrada do modelo na Austrália.
A escolha não foi aleatória. Donald, marido de Carolyn, contou que a alternativa combinava com a relação da mulher com a natureza e com sua preocupação em deixar algo positivo mesmo depois da morte.
O que o cânhamo tem a ver com tudo isso?
Muito mais do que parece.
O cânhamo é uma variedade de Cannabis sativa utilizada principalmente por suas fibras, sementes e outras matérias-primas industriais. Aqui, portanto, não há qualquer relação com efeito psicoativo ou uso medicinal da cannabis.
É justamente essa versatilidade que faz o cânhamo aparecer em produtos tão diferentes como tecidos, cordas, papel, materiais de construção, biocompósitos — e agora até caixões.
Fontes
Loop Biotech — Loop Living Cocoon
The Guardian — Woman laid to rest in coffin made from mushrooms in Australian first
The Independent — Sydney woman becomes first in Australia to be buried in mushroom coffin




