A história circula há anos em páginas e perfis sobre cannabis. Depois do desastre nuclear de Chernobyl, plantações de cânhamo teriam sido usadas para retirar a radiação do solo e ajudar a recuperar áreas contaminadas.
A imagem é poderosa. Uma planta crescendo em um dos lugares mais associados à contaminação radioativa do planeta e, aos poucos, “limpando” a terra.
Há um fato verdadeiro por trás dessa história. Cânhamo realmente foi plantado próximo a Chernobyl com objetivo de fitorremediação.
O que aconteceu depois foi uma mistura de ciência, registros históricos e exagero.
Antes da cannabis, porém, é preciso voltar a 1986.
O que aconteceu em Chernobyl
Na madrugada de 26 de abril de 1986, o reator número 4 da usina nuclear de Chernobyl, localizada na então República Socialista Soviética da Ucrânia, saiu de controle durante um teste realizado antes de uma parada programada.
Investigações posteriores apontaram uma combinação de falhas no projeto do reator RBMK, problemas de segurança e decisões tomadas durante a operação. Explosões destruíram o reator e um incêndio ajudou a lançar grandes quantidades de material radioativo na atmosfera. A Agência Internacional de Energia Atômica, a IAEA, considera Chernobyl o mais grave acidente já ocorrido na indústria nuclear.
A cidade de Pripyat, construída para abrigar trabalhadores da usina e suas famílias, ficava nas proximidades. Cerca de 50 mil moradores foram retirados da cidade aproximadamente 40 horas após o acidente. Ao longo de 1986, cerca de 115 mil pessoas foram evacuadas das áreas próximas ao reator. Nos anos seguintes, aproximadamente outras 220 mil foram reassentadas em Belarus, Rússia e Ucrânia.
O acidente também teve consequências imediatas entre trabalhadores e equipes de emergência. Segundo o Comitê Científico das Nações Unidas sobre os Efeitos da Radiação Atômica, o UNSCEAR, 30 trabalhadores morreram nas primeiras semanas e mais de uma centena sofreu lesões provocadas pela radiação.
Mas o problema não terminou com o incêndio.
Entre os materiais liberados estavam iodo-131, césio-134 e césio-137. O iodo-131 desaparece relativamente rápido, já que sua meia-vida é de cerca de oito dias. O césio-137 permanece por muito mais tempo. Sua meia-vida é próxima de 30 anos e o radionuclídeo ainda pode ser encontrado em solos e alimentos de algumas regiões atingidas pelo acidente.
Foi justamente a permanência desses contaminantes no ambiente que transformou a recuperação dos solos ao redor de Chernobyl em um enorme desafio.
E é aqui que nossa história encontra a cannabis.
Quando o cânhamo entrou em Chernobyl
Mais de uma década depois do acidente, no fim dos anos 1990, aparecem os primeiros registros do cultivo experimental de cânhamo industrial em áreas contaminadas próximas a Chernobyl.
Uma reportagem publicada no inverno de 1998-1999 pelo Central Oregon Green Pages relatava uma iniciativa envolvendo a empresa norte-americana Phytotech, a Consolidated Growers and Processors e o Institute of Bast Crops da Ucrânia. A proposta era usar o cânhamo para retirar contaminantes presentes no solo.
Em 1999, a revista Cannabis Culture também registrou o plantio. Na época, o pesquisador Slavik Dushenkov, da Phytotech, descreveu o cânhamo como uma das plantas fitorremediadoras mais promissoras observadas pela empresa.
É principalmente daí que nasce a história repetida até hoje.
Décadas depois, uma revisão científica publicada na revista GCB Bioenergy voltou ao episódio e reconheceu Chernobyl como um caso conhecido de utilização do cânhamo para fitorremediação.
Mas os próprios autores fizeram uma ressalva fundamental.
Os resultados específicos daqueles experimentos com cânhamo em Chernobyl nunca foram publicados na literatura científica revisada por pares.
Sabemos, portanto, que houve uma iniciativa de cultivo para essa finalidade. O que não conseguimos afirmar cientificamente é quanto material radioativo o cânhamo retirou do solo, em quanto tempo ou com qual eficiência.
A cannabis não “absorve radiação”
Aqui está uma das principais distorções da história.
Plantas não sugam “radiação” como se ela fosse uma substância presente na terra.
O que algumas espécies conseguem fazer é absorver radionuclídeos, átomos instáveis que emitem radiação.
Esse processo faz parte da chamada fitorremediação, conjunto de técnicas que utiliza plantas para retirar, estabilizar ou reduzir a disponibilidade de contaminantes presentes no ambiente.
Em uma dessas estratégias, chamada fitoextração, as raízes absorvem determinados elementos e eles passam a ficar concentrados nos tecidos da planta.
O cânhamo apresenta características interessantes para esse tipo de aplicação. Cresce rapidamente, produz bastante biomassa e consegue acumular diferentes metais e alguns radionuclídeos. Uma revisão da literatura publicada em 2021 considera a Cannabis sativa uma cultura com potencial para fitorremediação, embora a eficiência dependa do contaminante, de sua concentração, do solo, do local de cultivo e até da variedade de cânhamo utilizada.
Existe, portanto, ciência por trás da ideia.
O salto acontece quando “a planta consegue absorver determinados contaminantes” vira “a cannabis limpou Chernobyl”.
São afirmações muito diferentes.
O estudo de Chernobyl conta uma história menos milagrosa
Há, sim, um importante estudo científico revisado por pares sobre o uso de plantas em solos contaminados próximos a Chernobyl.
Ele foi publicado em 1999 na revista Environmental Science & Technology por Dushenkov e Alexander Mikheev, pesquisadores ligados à Phytotech e a instituições científicas ucranianas.
O objetivo era avaliar se plantas poderiam ajudar a retirar césio-137 do solo.
E há um detalhe importante.
O cânhamo não foi a planta que se destacou nesse trabalho.
Entre as espécies avaliadas, cultivares de amaranto apresentaram as maiores concentrações de césio-137. Os pesquisadores também realizaram cultivos sucessivos de mostarda-indiana em uma área experimental, mas encontraram apenas uma pequena redução da atividade de césio-137 nos primeiros 15 centímetros do solo.
O principal obstáculo estava na própria química do terreno.
Grande parte do césio permanecia fortemente ligada às partículas minerais do solo, o que dificultava sua disponibilidade para as raízes.
A conclusão dos pesquisadores foi cautelosa. A técnica precisaria ser bastante aprimorada antes de se tornar uma opção realmente eficiente para restaurar territórios contaminados por césio-137.
Isso ajuda a colocar a famosa história do cânhamo em perspectiva.
Nem mesmo plantas consideradas promissoras conseguem simplesmente retirar toda a contaminação de um terreno como Chernobyl.
Mas o cânhamo consegue absorver material radioativo?
Sim.
Outras pesquisas demonstraram que a Cannabis sativa pode incorporar determinados radionuclídeos.
Em 2005, um estudo publicado no Journal of Environmental Radioactivity analisou a transferência de radiocésio para cânhamo e linho cultivados em solo contaminado. Os pesquisadores confirmaram a transferência para as plantas e acompanharam também o destino do material durante o processamento das culturas.
O próprio resultado ajuda a explicar por que o assunto exige cuidado.
O comportamento do contaminante varia conforme a parte da planta, o tipo de solo e o processamento realizado. No experimento, por exemplo, mais de 95% da atividade presente durante uma etapa de processamento do linho foi transferida para a água utilizada nessa fase.
Ou seja, retirar um radionuclídeo do solo não significa fazê-lo desaparecer.
Para onde vai a contaminação?
Imagine que uma planta retire césio ou estrôncio do terreno.
O radionuclídeo continua existindo.
A diferença é que parte dele pode ter saído do solo e passado para raízes, caules, folhas ou outras estruturas vegetais.
Por isso, a biomassa obtida em processos de fitoextração precisa ser colhida e manejada de forma adequada. Caso contrário, o contaminante pode voltar ao ambiente durante a decomposição da planta ou ser levado para outro lugar.
Essa é uma das razões pelas quais a fitorremediação não funciona simplesmente como plantar, esperar e deixar a natureza resolver o problema.
E o cânhamo está longe de ser a única espécie investigada.
Pesquisas realizadas após Chernobyl estudaram plantas como amaranto, mostarda-indiana, girassol, ervilhas e diferentes culturas agrícolas para entender se elas poderiam auxiliar na retirada ou no controle de radionuclídeos.
Quase 40 anos depois do acidente, o próprio complexo de Chernobyl continua exigindo obras, controle ambiental e gerenciamento de resíduos radioativos. A IAEA afirma que a remediação do local ainda deverá se estender por décadas.
Então a história é mito ou verdade?
Um pouco dos dois.
É verdade que existe registro histórico de cânhamo plantado próximo a Chernobyl com finalidade de fitorremediação.
Também é verdade que pesquisas científicas mostram que a Cannabis sativa possui potencial para retirar determinados contaminantes do solo, incluindo radionuclídeos em certas condições.
Mas não há evidência científica suficiente para afirmar que o cânhamo tenha “limpado Chernobyl”.
Os resultados específicos daquela experiência com cannabis não foram publicados em estudos revisados por pares. E as pesquisas conduzidas na região mostram que retirar contaminantes como o césio-137 do solo pode ser um processo difícil, lento e limitado pela própria disponibilidade desses elementos para as plantas.
A versão que sobreviveu na internet é mais espetacular.
A real é melhor para a ciência.
A cannabis não neutralizou a radiação de Chernobyl. O cânhamo fez parte das experiências com plantas em um território profundamente contaminado e possui, de fato, características que hoje fazem da espécie uma candidata interessante para pesquisas de fitorremediação.
O que Chernobyl mostra é que, quando ciência e uma boa história se encontram, às vezes o mito cresce mais rápido que a própria planta.
Fontes
UNSCEAR — The Chornobyl Accident. Avaliações das Nações Unidas sobre o acidente, evacuações, exposição e consequências radiológicas. Acessar o documento
IAEA — Chernobyl's Legacy. Histórico do acidente e dados sobre liberação e permanência de radionuclídeos no ambiente. Acessar o relatório
Dushenkov & Mikheev — Environmental Science & Technology (1999). Phytoremediation of Radiocesium-Contaminated Soil in the Vicinity of Chernobyl, Ukraine. Acessar o estudo
Rheay et al. — GCB Bioenergy (2021). Revisão sobre o potencial do cânhamo para fitorremediação, incluindo a análise do caso de Chernobyl. Acessar o estudo
Vandenhove & Van Hees — Journal of Environmental Radioactivity (2005). Estudo sobre a transferência de radiocésio para cânhamo e linho. Acessar o estudo
Central Oregon Green Pages (1998-1999). Registro histórico do projeto de cultivo de cânhamo próximo a Chernobyl. Acessar a reprodução do texto original
Cannabis Culture (1999). Registro contemporâneo do cultivo experimental de cânhamo e declaração do pesquisador Slavik Dushenkov. Acessar o arquivo




