Dor depois do treino, noites mal dormidas, ansiedade antes da competição e a eterna busca por uma recuperação mais rápida. Foi nesse terreno que o canabidiol, o CBD, encontrou espaço no esporte. O interesse não surgiu por acaso. Atletas já relatam usar CBD principalmente em busca de recuperação, controle da dor e melhora do sono. Em uma pesquisa com jogadores profissionais de rugby, esses estavam entre os principais motivos citados para o consumo.
Há ainda um fator decisivo: pelas regras atuais da Agência Mundial Antidoping (WADA), o CBD é uma exceção entre os canabinoides e não integra a lista de substâncias proibidas em competição.
Isso ajudou a ampliar sua presença no universo esportivo.
Mas estar liberado não significa que funcione como muitas propagandas sugerem. A ciência começa justamente aí.
O interesse cresceu. A evidência também?
Em 2024, uma revisão sistemática analisou a literatura sobre CBD, desempenho físico e recuperação após exercícios. Os pesquisadores encontraram inicialmente 901 publicações. Apenas sete cumpriram todos os critérios para entrar na análise.
O resultado ajuda a dimensionar o estágio atual desse conhecimento: existem sinais interessantes em alguns parâmetros fisiológicos, mas a evidência sobre melhora do desempenho e da recuperação ainda é limitada e heterogênea.
Traduzindo: há motivos para continuar pesquisando.
Ainda não há motivos para tratar o CBD como um atalho comprovado para recuperação ou performance. E essa diferença importa. Os resultados ainda se dividem. Talvez nenhuma promessa tenha aproximado tanto o CBD do esporte quanto a ideia de recuperação muscular mais rápida.
Algumas pesquisas encontraram sinais favoráveis.
Em um estudo randomizado publicado em 2024, pesquisadores acompanharam 17 atletas treinados durante um protocolo intenso de exercícios.
O uso de CBD apresentou efeitos em determinados marcadores de dano muscular, embora os resultados variassem conforme o nível de treinamento dos participantes e não permitam concluir que o canabidiol acelere a recuperação de forma geral.
Outros trabalhos são menos animadores.
Um estudo publicado em 2026 avaliou um gel tópico de CBD em 15 pessoas fisicamente ativas após exercícios projetados para provocar dano muscular. Os pesquisadores acompanharam força, dor muscular tardia e um marcador sanguíneo de dano muscular por até 72 horas. O CBD apresentou um sinal favorável em uma medida específica de força isométrica, mas não reduziu significativamente a dor muscular nem o marcador de dano muscular em comparação ao placebo. Os próprios pesquisadores concluíram que o gel não demonstrou acelerar a recuperação muscular de maneira consistente. É justamente esse tipo de resultado que pede cautela.
Há sinais. Há hipóteses. Mas ainda faltam estudos maiores e mais consistentes.
CBD melhora a performance?
Até agora, a resposta mais responsável é: não há boa evidência de que o CBD funcione como um melhorador direto de desempenho. Um estudo publicado em 2024 avaliou três semanas de suplementação diária com 150 mg de um produto broad spectrum antes de um teste de dez minutos em bicicleta ergométrica.
Não houve melhora relevante da performance nem da percepção de esforço que sustentasse um efeito ergogênico.
Em 2025, outro ensaio randomizado foi ainda mais específico.
Corredores treinados receberam doses agudas de 50 mg ou 300 mg de CBD antes de exercícios de endurance. Nenhuma das doses melhorou o tempo até a exaustão, e os pesquisadores não encontraram efeitos suficientemente relevantes sobre as respostas fisiológicas ou subjetivas para classificar o CBD como ergogênico. A conclusão foi simples: nas doses estudadas, o canabidiol não pareceu melhorar nem prejudicar diretamente a performance de endurance, modalidade de sporte de alto impacto.
Para quem espera alguns segundos a menos no relógio apenas por tomar CBD, a ciência ainda não oferece esse argumento.
E o sono?
Aqui existe uma nuance importante. Sono de qualidade é parte fundamental da recuperação de qualquer atleta. Por isso, a hipótese de que o CBD possa auxiliar nesse processo recebe bastante atenção. Mas, novamente, é necessário separar relato, possibilidade biológica e evidência clínica. Um ensaio randomizado com pessoas que apresentavam insônia avaliou 150 mg de CBD administrados à noite.
Na maior parte dos desfechos relacionados ao sono, os resultados foram semelhantes aos observados com placebo, embora tenham surgido diferenças em alguns indicadores de bem-estar .
O estudo não foi realizado especificamente com atletas, portanto também não permite concluir que o CBD melhora a recuperação esportiva por meio do sono.
O que ele mostra é outra coisa: até uma das aplicações mais populares do CBD precisa ser analisada com mais cuidado do que alguns discursos comerciais sugerem.
Permitido não significa risco zero
Para atletas sujeitos a exames antidoping, este talvez seja o ponto mais importante da matéria.
Pelas regras da WADA para 2026, o CBD é permitido. Os demais canabinoides naturais e sintéticos contemplados pela proibição continuam sujeitos às regras antidoping em competição.
E aí aparece um problema: produto de CBD não significa necessariamente produto contendo apenas CBD.
Formulações broad spectrum, por exemplo, podem conter outros canabinoides mesmo quando não possuem quantidades relevantes de THC. Uma pesquisa publicada na Medicine & Science in Sports & Exercise acompanhou durante dez semanas pessoas que utilizaram diariamente um produto broad spectrum com 150 mg de CBD.
Ao final do estudo, foram detectados na urina canabinoides proibidos pelas regras da WADA, entre eles CBG e CBDV. O exercício também pareceu aumentar a concentração de alguns desses compostos. Isso muda bastante a recomendação prática.
Para um atleta submetido a controle antidoping: “zero THC” não deve ser confundido com “zero risco”. Pureza, composição e rastreabilidade do produto importam tanto quanto o CBD estampado no rótulo.
Entre a fama e a ciência
O CBD já encontrou seu lugar no esporte. A ciência, agora, tenta descobrir exatamente qual é esse lugar. Até aqui, os estudos não sustentam a ideia de que o canabidiol seja um melhorador direto de performance.
Na recuperação muscular, existem resultados pontuais favoráveis, mas também estudos que não identificaram benefícios relevantes. Sono, dor e outros fatores ligados à recuperação continuam sendo investigados. Isso não significa que o CBD seja inútil para atletas.
Significa algo mais simples — e mais científico, pois a resposta depende do objetivo, da pessoa, da formulação utilizada e, principalmente, do que as evidências realmente demonstram.
Atletas que pretendem utilizar produtos à base de CBD devem discutir essa decisão com profissionais de saúde e, quando submetidos a controle antidoping, considerar também as regras de sua modalidade e a composição real do produto. No esporte, centésimos de segundo fazem diferença. Com CBD, os detalhes também.
FONTES
8. 2026 Prohibited List — World Anti-Doping Agency (WADA), 2026.




