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A cannabis vai às urnas

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João Negromonte

25 de agosto de 2026

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A cannabis vai às urnas

A cannabis chegou às urnas sem precisar virar uma bandeira eleitoral. Está nos programas estaduais de acesso a medicamentos, nas associações de pacientes, nas universidades, no Congresso, nas novas regras da Anvisa e, cada vez mais, na discussão sobre agricultura e cânhamo industrial.

Por isso, procurar simplesmente os candidatos “pró-cannabis” produz uma fotografia ruim da eleição.

Há quem defenda medicamento pelo SUS, mas não fale em autocultivo. Quem enxergue no cânhamo uma nova cadeia agrícola. Quem discute associações. E quem queira rever a criminalização da posse e do cultivo para uso pessoal. A eleição de 2026 não tem uma pauta da cannabis, tem várias!

Quem já colocou a cannabis na agenda

O tema está espalhado por diferentes partidos, estados e campos políticos. O levantamento abaixo reúne candidatos das eleições de 2026 com atuação pública documentada em temas relacionados à cannabis, seja no acesso medicinal, pesquisa, cultivo, cânhamo industrial, associações ou política de drogas.

Lista de candidatos que pautam a cannabis no Brasil

A presença na lista não significa que todos defendam as mesmas propostas — muito menos que exista uma posição única sobre regulamentação. O objetivo é mostrar quem já transformou o tema em projeto, política pública, atuação parlamentar ou participação institucional verificável.

O recorte ajuda a entender o tamanho da mudança. A cannabis já atravessa disputas para governos, Senado, Câmara e assembleias estaduais. Mas é quando olhamos para os estados que as diferenças ficam mais claras.

São Paulo virou laboratório

Caio França, do PSB, chega à eleição depois de transformar sua atuação em política pública. É autor da lei paulista de cannabis medicinal e coordena a Frente Parlamentar da Cannabis Medicinal e do Cânhamo Industrial da Alesp. Ao lado de Eduardo Suplicy, do PT, vice-coordenador, a Frente realizou 22 audiências públicas em cinco anos. Na atual legislatura, os dois destinaram R$ 3 milhões em emendas para pesquisa e inovação relacionadas à cannabis.

Agora a discussão paulista avança do acesso para a produção. Caio apresentou proposta envolvendo a Furp na fabricação e distribuição de medicamentos, enquanto Suplicy passou a defender também o desenvolvimento industrial da planta.

Há ainda uma conexão eleitoral. Suplicy formou neste ano uma dobradinha com Paulo Teixeira, do PT, que presidiu a comissão especial do PL 399 na Câmara. O relator daquela comissão foi Luciano Ducci, do Paraná.

Outros paulistas chegam por caminhos diferentes.

Sâmia Bomfim, do PSOL, participou das discussões do PL 399 e levou pacientes e associações às audiências da comissão. Mara Gabrilli, do PSD, apresentou no Senado um projeto mais amplo para cultivo e produção medicinal. Já o advogado Erik Torquato, do PSB, representa uma frente que vai além do medicamento e alcança autocultivo, habeas corpus e política de drogas.

São Paulo concentra, assim, quase todo o vocabulário político que deve acompanhar a cannabis nos próximos anos — SUS, produção pública, associações, cultivo, cânhamo e descriminalização.

Minas descobriu o campo

Minas Gerais acrescenta uma peça que costuma ficar escondida quando a discussão se limita aos medicamentos.

Agricultura.

Beatriz Cerqueira, do PT, levou à Assembleia uma política de incentivo ao tratamento com derivados da cannabis e à pesquisa científica. Leleco Pimentel, também do PT, avançou sobre o cultivo medicinal e sua possível conexão com agricultura familiar e desenvolvimento regional.

Andréia de Jesus, do PT, ocupa outro ponto dessa discussão, ligado às consequências sociais da proibição e à reparação produzida pela política de drogas.

A pauta mineira começa no paciente, passa pelas universidades e chega ao campo. É uma mudança importante.

Se o Brasil realmente desenvolver uma cadeia nacional de cannabis e cânhamo, a discussão deixará inevitavelmente os gabinetes de saúde e chegará às secretarias de agricultura, cooperativas e propriedades rurais.

No Rio, a discussão começa antes do remédio

O Rio de Janeiro apresenta outro contraste. Mônica Benício, do PSOL, candidata ao Senado, é coautora de uma proposta municipal para criar uma política de uso medicinal do canabidiol. O projeto avançou pela Câmara do Rio em 2025. Tarcísio Motta, também do PSOL e candidato à Câmara, aparece na outra ponta, em iniciativas relacionadas à descriminalização e aos efeitos da política de drogas.

Um discute acesso. O outro ajuda a colocar em debate o que acontece antes do medicamento chegar à farmácia — cultivo, posse e criminalização.

Há estados onde já é possível cobrar resultado

Sergipe é provavelmente o melhor exemplo. Fábio Mitidieri, do PSD, apresentou em 2015 o PL 399, ponto de partida de uma das maiores discussões legislativas sobre cannabis medicinal já realizadas no Congresso. Anos depois, já governador, sancionou uma política estadual para usos terapêuticos, medicinais, veterinários e científicos.

Ou seja, existe algo para medir.

No Paraná, Luciano Ducci, do PSB, carrega outra parte dessa história. Foi dele o substitutivo do PL 399 que ampliou a discussão para cultivo e produção por pessoas jurídicas com finalidades medicinais, veterinárias, científicas e industriais. No mesmo estado, Goura, do PDT, construiu sua atuação em torno do acesso e da discussão estadual sobre cannabis medicinal.

Em Santa Catarina, o movimento acontece de baixo para cima. Pedro Sabaciauskis, o Pedro Santacannabis, do Podemos, leva para a eleição a experiência de quem fundou uma associação de pacientes e participou da batalha judicial e política pelo cultivo associativo.

São três problemas diferentes. Legislação nacional, política estadual e sobrevivência das associações. Todos estarão nas urnas.

O cânhamo entrou na política

Outra mudança acontece longe do consultório. Na Bahia, Bacelar, do PV, coordena a Frente Parlamentar Mista em Defesa da Cannabis Medicinal e do Cânhamo Industrial.

No Ceará, Renato Roseno, do PSOL, levou as novas regras da Anvisa e a possibilidade de desenvolvimento dessa cadeia para discussão na Assembleia.

No Espírito Santo, Fabiano Contarato, do PT, disputa novamente o Senado tendo sob sua relatoria o PL 5.295/2019, que trata de cannabis medicinal e cânhamo. Em Pernambuco, Humberto Costa, do PT, possui histórico de defesa do uso medicinal, enquanto Ivan Moraes, do PSOL, coloca na disputa pelo governo uma proposta que envolve SUS, universidades, agricultores e produção pelo Lafepe.

É aqui que a cannabis deixa definitivamente de ser apenas assunto de paciente.

Entra indústria, emprego, agricultura, pesquisa e desenvolvimento regional.

E o presidente?

Curiosamente, quanto mais alta a disputa, menos específica fica a conversa. Entre os principais candidatos à Presidência, a cannabis medicinal e o cânhamo ainda não aparecem como grandes eixos programáticos.

No caso de Lula, o atual governo coincide com importantes avanços regulatórios, mas decisões da Anvisa não podem ser automaticamente apresentadas como posição eleitoral do presidente.

No campo conservador, Flávio Bolsonaro e Romeu Zema já manifestaram posições contrárias à descriminalização do porte. Isso também não permite concluir, sem evidência específica, que sejam contrários ao uso medicinal regulamentado.

Ronaldo Caiado, Renan Santos e Augusto Cury também não apresentaram, até aqui, propostas de destaque capazes de colocar cannabis medicinal ou cânhamo no centro de suas campanhas.

Esse silêncio talvez seja uma das informações mais interessantes da eleição.

Enquanto Brasília ainda discute como falar sobre cannabis, estados já distribuem medicamentos, associações cultivam sob decisões judiciais, universidades pesquisam e uma cadeia produtiva começa a ser desenhada.

O voto agora é sobre qual cannabis

Não existe uma “bancada da maconha”. A expressão simplifica justamente aquilo que a eleição de 2026 ajuda a revelar.

Caio França e Suplicy discutem SUS, pesquisa e indústria. Beatriz Cerqueira e Leleco levam a conversa para ciência e agricultura. Mônica Benício aparece pelo acesso medicinal. Tarcísio Motta e Erik Torquato chegam pela política de drogas. Pedro Santacannabis traz as associações. Bacelar e Contarato colocam o cânhamo dentro do Congresso. Eles podem concordar em um ponto e divergir completamente no seguinte.

Essa é a notícia. A cannabis deixou de ser uma pergunta binária. O Brasil já tem pacientes, médicos, associações, empresas, pesquisadores e órgãos públicos envolvidos com a planta. A próxima legislatura terá de decidir como essas peças convivem.

Por isso, perguntar a um candidato se ele é “a favor da cannabis medicinal” começa a ficar fácil demais. Em 2026, vale perguntar outra coisa. Qual “cannabis” você quer regulamentar — e o que pretende fazer com ela?


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