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Cannabis medicinal amplia debate sobre tratamento da endometriose e controle da dor crônica

by Redação

Especialistas apontam potencial analgésico e ação anti-inflamatória dos canabinoides em uma doença que afeta milhões de brasileiras e ainda enfrenta subdiagnóstico

Dor intensa, fadiga, alterações emocionais e impacto na qualidade de vida fazem parte da rotina de milhões de mulheres com endometriose no Brasil. Considerada uma doença inflamatória crônica, a condição afeta cerca de 7 milhões de brasileiras, segundo estimativas do Ministério da Saúde e da Organização Mundial da Saúde, e ainda enfrenta demora no diagnóstico, falta de informação e limitações terapêuticas.

Nos últimos anos, a cannabis medicinal passou a ganhar espaço no debate sobre novas abordagens para controle da dor e melhora da qualidade de vida dessas pacientes. O avanço das pesquisas sobre o sistema endocanabinoide e sua relação com processos inflamatórios, imunológicos e neurológicos tem levado médicos especialistas a considerar os canabinoides como uma alternativa complementar aos tratamentos tradicionais.

Segundo Nayara Schindler, médica da Clínica Gravital  e especialista em cannabis medicinal, a relação entre a cannabis e o alívio da dor na endometriose está diretamente ligada à presença de receptores canabinoides na região pélvica.

“Qualquer modulação no sistema canabinoide pode reduzir a sensação de dor. Há uma presença grande de receptores na região pélvica. Consequentemente há redução da dor se estimulamos positivamente o sistema canabinoide nesta região”, explica.

A endometriose ocorre quando tecido semelhante ao endométrio cresce fora do útero, provocando inflamação, dores incapacitantes e, em alguns casos, infertilidade. Além da dor pélvica crônica, pacientes frequentemente relatam ansiedade, depressão, insônia e prejuízos na vida profissional e afetiva.

Para Schindler, os efeitos da cannabis vão além da analgesia. “Particularmente o CBD e o CBG fazem modulação da resposta imune. Modulam a resposta imunológica do organismo. A ação dos canabinoides é sistêmica, logo irá atuar em qualquer foco de endometriose responsiva a este estímulo, além na melhora da dor muitas pacientes relatam melhora no sono e na qualidade de vida” 

Pesquisas recentes indicam que o sistema endocanabinoide participa da regulação da dor, do humor e da resposta inflamatória, fatores diretamente envolvidos na progressão da endometriose. Estudos observacionais também mostram aumento no número de mulheres que buscam cannabis medicinal para reduzir o uso de anti-inflamatórios e opioides.

“A cannabis medicinal tem grande potencial analgésico e pode atuar como ferramenta adjuvante para manejo da dor crônica.  Com isso, pode haver redução da necessidade de outras medicações analgésicas, com possibilidade de desprescrição total de opiodes”, afirma a médica.

A ação dos canabinoides também repercute sobre sintomas emocionais frequentemente associados à doença. “O CBD tem ação ansiolítica e antidepressiva no sistema nervoso central. Uma de suas ações é a ativação de um tipo de receptor serotoninérgico, que contribui para esses efeitos. Já o THC em doses controladas tem o potencial de aumentar o relaxamento e bem-estar, efeito relevante em paciente com endometriose, uma sua vez que a dor crônica esta associada a distúrbios do sono e do humor”

Segundo especialistas, o sofrimento psicológico relacionado à endometriose ainda é subestimado. Muitas pacientes convivem durante anos com dores incapacitantes sem diagnóstico definitivo, o que aumenta quadros de ansiedade, depressão e exaustão emocional.

Na prática clínica, o protocolo mais comum para a doença envolve formulações ricas em CBD e com baixa concentração de THC. “Na endometriose se recomenda um uso contínuo de um produto rico em CBD full spectrum, com baixa porcentagem de THC. Durante crises de dor, a dosagem pode ser aumentada temporariamente para controle do sintoma”, explica Schindler.

A especialista ressalta que o chamado “efeito entourage”, caracterizado pela combinação entre canabinoides, é um dos fatores responsáveis pela melhora da analgesia. “O CBD isolado tem ação pequena em dores, porém quando combinado com o THC, mesmo este sendo em baixa proporção, a analgesia passa a ser expressiva.”

Outro ponto que ainda gera dúvidas entre pacientes é a interação da cannabis medicinal com anticoncepcionais hormonais, frequentemente utilizados no controle da endometriose. Segundo Schindler, a interação existe, mas tende a ocorrer apenas em doses elevadas de CBD.

“A interação do CBD com contraceptivos orais se dá com os análogos de estrogênio e ocorre somente em doses muito elevadas. Como o THC está presente na formulação, não é necessário altas doses de CBD para atingir o objetivo”, afirma.

Ela acrescenta que a administração em horários diferentes pode minimizar o impacto. “Uma forma de mitigar a interação é fazer a tomada em horário distinto da tomada do anticoncepcional. Em situações específicas troca do método anticonceptivo pode ser avaliada”

Nos casos do DIU hormonal ou Implante anticonceptivo, a preocupação com interações é menor “O DIU hormonal ou Implante liberam derivados da progesterona, apresentando baixo risco de interação devido a baixa exposição sistêmica quando comparado ao anticonceptivo combinado via oral. Até o momento não há evidência de redução da eficácia desses métodos com uso de cannabinoides”, explica.

Embora o uso medicinal da cannabis avance no Brasil, especialistas alertam para a importância do acompanhamento profissional. “A recomendação é passar por uma avaliação com um médico com experiência em cannabis medicinal e em saúde da mulher”, diz Schindler.

Hoje, os produtos podem ser obtidos legalmente em farmácias autorizadas, por importação mediante prescrição médica ou via associações de pacientes autorizadas judicialmente.

Para médicos e pesquisadores, o crescimento da cannabis medicinal no tratamento da endometriose também reflete uma mudança mais ampla no cuidado da saúde feminina, historicamente marcada pela subvalorização da dor das mulheres. O avanço das discussões sobre o tema tem pressionado o setor de saúde por abordagens mais integrativas, individualizadas e menos centradas exclusivamente em medicações de alto impacto colateral.

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