Missão científica inclui intercâmbio com pesquisadores argentinos, participação em encontro internacional e reforça estratégia brasileira para desenvolver cultivares adaptadas e ampliar pesquisas sobre cannabis e cânhamo.
A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária intensificou sua atuação na pesquisa com cannabis ao realizar uma missão técnica na Argentina voltada ao desenvolvimento de programas de melhoramento genético da planta. Entre os dias 13 e 16 de abril, uma comitiva de pesquisadoras visitou centros de pesquisa argentinos e participou do “Encuentro Binacional de Cannabis Medicinal y Cáñamo Industrial”, realizado na cidade de General Roca.
A delegação brasileira foi composta por pesquisadoras que lideram a estruturação das pesquisas com cannabis dentro da Embrapa. Participaram da missão Ana Cláudia de Oliveira, que coordenará o programa brasileiro de melhoramento genético da cultura, Daniela Bittencourt, Lilia Salgado de Moraes, além da coordenação do Comitê Permanente de Assessoramento Estratégico em Cannabis da Diretoria Executiva da empresa.
Um dos principais compromissos da agenda foi a visita ao programa de melhoramento genético desenvolvido pelo Instituto Nacional de Tecnología Agropecuaria, considerado uma das iniciativas mais avançadas da América Latina na pesquisa aplicada sobre cannabis medicinal. As atividades ocorreram nas unidades de Bariloche e da região do Alto Vale, onde os pesquisadores argentinos desenvolvem cultivares adaptadas às condições locais.
Além do intercâmbio técnico, a missão participou de um encontro binacional que reuniu universidades, instituições científicas, empresas e representantes da cadeia produtiva da cannabis e do cânhamo industrial. O evento também contou com a participação da GS1 Brasil, que apresentou soluções voltadas à rastreabilidade, considerada um dos pilares para a consolidação regulatória do setor.
A iniciativa reforça a estratégia da Embrapa de ampliar sua cooperação internacional após os avanços regulatórios registrados no Brasil. Entre eles estão a decisão do Superior Tribunal de Justiça que reconheceu a possibilidade de cultivo de cannabis por empresas para fins medicinais e farmacêuticos, a autorização excepcional concedida pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária para que a Embrapa desenvolva pesquisas com a planta e a apresentação, em 2026, de novas propostas regulatórias voltadas ao cultivo para pesquisa científica.
Como parte desse movimento, a Embrapa realizará no dia 2 de julho, em seu canal oficial no YouTube, o debate “Oportunidades socioeconômicas para a cadeia da Cannabis no Brasil”. O evento reunirá o deputado federal Paulo Teixeira, a pesquisadora Daniela Bittencourt e o presidente da Associação Latino-Americana de Cânhamo Industrial, Lorenzo Rolim.
O encontro discutirá o potencial econômico da Cannabis sativa em diferentes segmentos, incluindo saúde, agricultura e indústria. Entre os temas previstos estão o novo marco regulatório brasileiro, os desafios para regulamentação do cânhamo industrial, oportunidades para pesquisa e inovação e estratégias para integrar a cultura a sistemas produtivos já consolidados, como soja, algodão, pecuária e integração lavoura-pecuária-floresta.
Segundo o supervisor de Inteligência Estratégica da Embrapa, Job Vieira, apesar dos avanços relacionados ao uso medicinal e farmacêutico da cannabis, ainda existe uma lacuna regulatória para as aplicações não farmacêuticas do cânhamo, como fibras, sementes, biomateriais, alimentos, cosméticos e materiais para construção civil.
O pesquisador destaca que a versatilidade da cultura pode contribuir para diversificação produtiva, inovação tecnológica, mitigação das mudanças climáticas e desenvolvimento regional, especialmente em áreas como o Cerrado, o Semiárido e regiões de transição agropecuária.
Moderado pelo pesquisador Guilherme Malafaia, o debate também apresentará prioridades para a estruturação da cadeia nacional da cannabis, incluindo o mapeamento de oportunidades de mercado, a identificação de entraves regulatórios, a definição de estratégias para o cânhamo industrial e a priorização de pesquisas voltadas à introdução, caracterização e tropicalização de materiais genéticos adaptados às condições brasileiras.
A missão internacional e as iniciativas anunciadas pela Embrapa reforçam o esforço brasileiro para consolidar uma base científica própria na área da cannabis, fortalecendo a cooperação internacional e preparando o país para o desenvolvimento de uma cadeia produtiva nacional voltada tanto ao uso medicinal quanto às aplicações industriais do cânhamo.
