Por dr. Matheus de Paula*
Quando se fala em tratamento com cannabis, a dúvida costuma ser direta: como começar?
A resposta parece simples, mas não é única.
Hoje, existem diferentes formas de acesso no Brasil — associações, importação, farmácias e vias judiciais. Na prática, a maioria dos pacientes inicia por dois caminhos: associação ou importação. E a escolha não segue um padrão. Depende do custo, da urgência, da disponibilidade, mas, principalmente, do perfil clínico.
Esse é um ponto importante: não existe um único modelo de tratamento. A mesma condição pode exigir estratégias diferentes, doses diferentes, tempos diferentes.
Por isso, o primeiro passo não é o produto. É a consulta.
Durante a avaliação, não se decide apenas se “pode usar cannabis”. O que se constrói ali é um plano. Consideram-se o quadro clínico, os tratamentos prévios, os objetivos do paciente e, talvez o mais importante, a possibilidade de sustentar esse cuidado ao longo do tempo.
Depois da consulta, o caminho começa a se desenhar. Médico e paciente definem juntos por onde iniciar — associação ou importação — e a prescrição acompanha essa escolha. Mas o tratamento não se resolve nesse momento. Ele se constrói nos ajustes, no acompanhamento, no tempo.
Hoje, o Brasil já conta com centenas de milhares de pacientes em tratamento com cannabis medicinal. Ainda assim, a prescrição segue restrita. Estimativas recentes apontam que menos de 10% dos médicos brasileiros já prescreveram cannabis em algum momento — e uma parcela ainda menor o faz de forma habitual.
Isso não necessariamente reflete resistência. Em grande parte, reflete formação.
O sistema endocanabinoide participa da regulação de funções como sono, dor, humor e inflamação. Está presente em todos nós — e, ainda assim, raramente é abordado durante a graduação médica como parte de um arsenal terapêutico estruturado, como ocorre com outras classes farmacológicas.
O resultado é um cenário curioso: há pacientes em tratamento, há evidência crescente, há demanda — mas ainda poucos profissionais se sentem seguros para indicar, ajustar e acompanhar.
As principais indicações hoje incluem dor crônica, ansiedade, distúrbios do sono, epilepsia e condições do neurodesenvolvimento. Nem sempre como primeira escolha, mas, muitas vezes, como alternativa quando outras abordagens não foram suficientes.
Cannabis não resolve tudo. Mas, quando bem indicada, amplia o que antes era limitado.
No fim, a pergunta muda.
Deixa de ser como começar.
Passa a ser como sustentar um cuidado que faça sentido.
Porque começar, muitas vezes, é simples.
Difícil — e mais importante — é manter.
*Matheus de Paula Ramos Batista é médico generalista (CRM-SP 287010), com atuação em Medicina de Família e Comunidade e medicina endocanabinoide. Atua com foco em cuidado contínuo, individualizado e baseado em evidências, integrando avaliação clínica, acompanhamento longitudinal e terapias canabinoides quando indicadas.
