Liga feminina de basquete dos EUA pode seguir tendência de flexibilização já adotada por NBA, NFL e NCAA, em meio ao avanço da regulação da cannabis
A WNBA pode se tornar a mais recente liga esportiva a revisar suas políticas em relação à cannabis. Durante negociações de um novo acordo coletivo de trabalho, a liga indicou que está disposta a eliminar os testes para detecção de THC entre atletas, em um movimento que acompanha mudanças globais no tratamento da substância no esporte.
A proposta surgiu nas tratativas entre a Women’s National Basketball Players Association e a própria liga. Documentos apresentados às atletas e divulgados pela imprensa norte-americana indicam que uma das possíveis mudanças inclui, de forma direta, a “eliminação dos testes de maconha”.
Embora o acordo ainda dependa de ratificação final, o tema já aparece como um dos pontos de negociação em que houve concessões por parte da liga. Atualmente, a WNBA ainda classifica a cannabis como substância proibida e realiza testes regulares para metabólitos de THC. Jogadoras flagradas podem ser encaminhadas para programas de tratamento e, em casos recorrentes, sofrer sanções como multas ou suspensões.
A possível mudança colocaria a WNBA em linha com outras grandes ligas que já revisaram suas políticas. A NBA, por exemplo, retirou oficialmente a cannabis da lista de substâncias proibidas em 2023, além de permitir que atletas invistam e promovam empresas do setor.
A NFL também avançou em reformas. Em acordo firmado com o sindicato de jogadores em 2024, a liga aumentou o limite permitido de THC e reduziu penalidades para testes positivos, consolidando uma abordagem mais alinhada à redução de danos.
No esporte universitário, a National Collegiate Athletic Association retirou a cannabis da lista de substâncias proibidas para atletas da Divisão I em 2024, após já ter elevado o limite tolerado de THC em 2022, alinhando-se à World Anti-Doping Agency.
Outras entidades também vêm questionando a proibição. A United States Anti-Doping Agency criticou publicamente a manutenção da cannabis como substância proibida em competições internacionais, classificando a política como “injusta”. O debate ganhou repercussão global após o caso da atleta Sha’Carri Richardson, suspensa dos Jogos Olímpicos de Jogos Olímpicos de Tóquio 2020 após testar positivo para THC.
No contexto da WNBA, a discussão também carrega um peso simbólico importante. A jogadora Brittney Griner, que já esteve presa na Rússia por porte de cannabis, se tornou um dos rostos mais conhecidos do impacto das políticas proibicionistas no esporte e na geopolítica.
Apesar do possível avanço em relação ao THC, a liga já havia dado sinais de abertura ao mercado da cannabis ao permitir, em 2024, uma parceria entre o time New York Liberty e uma marca de bebidas com CBD. O canabidiol, por não ter efeito psicoativo, é legal em nível federal nos Estados Unidos e já vem sendo explorado comercialmente no esporte.
A tendência de flexibilização acompanha mudanças mais amplas no comportamento social e no mercado. Atletas profissionais têm cada vez mais relatado o uso de cannabis e derivados, especialmente CBD, para manejo de dor, recuperação muscular e saúde mental.
No Brasil, embora o uso recreativo siga proibido, o debate sobre cannabis no esporte começa a ganhar espaço à medida que o acesso à cannabis medicinal se expande. O país já ultrapassa 430 mil pacientes em tratamento com produtos à base da planta, segundo dados da Agência Nacional de Vigilância Sanitária e da consultoria Kaya Mind (2024).
Especialistas apontam que a revisão de políticas em ligas internacionais pode influenciar discussões futuras no esporte brasileiro, especialmente em modalidades de alto rendimento, onde questões como dor crônica, ansiedade e recuperação física são centrais.
A possível decisão da WNBA reforça um movimento mais amplo de revisão de políticas antidoping, que passa a diferenciar substâncias com base em evidências científicas e impactos reais à saúde e ao desempenho esportivo.
Nesse cenário, a cannabis deixa de ser tratada como uma ameaça generalizada e passa a ocupar um espaço mais racional no debate esportivo, alinhado a princípios de saúde, autonomia dos atletas e redução de danos.
