Pesquisas apontam que compostos da maconha podem ajudar a controlar sintomas como agitação e insônia em pacientes com Alzheimer, mas os estudos ainda estão longe de apontar uma cura
O avanço da medicina canabinoide tem levantado uma questão importante: a cannabis pode ser uma aliada no tratamento do Alzheimer? Embora ainda não haja consenso definitivo, estudos recentes indicam que os canabinoides, substâncias presentes na planta da maconha, têm potencial para aliviar sintomas comportamentais e melhorar a qualidade de vida de quem convive com a doença.
Pesquisas realizadas pela Johns Hopkins University e Tufts University, nos Estados Unidos, mostraram que o uso de dronabinol, uma forma sintética de THC, reduziu significativamente episódios de agitação em pacientes com Alzheimer avançado. Segundo os pesquisadores, houve melhora de até 30% no comportamento dos pacientes, sem efeitos colaterais graves.
Outro estudo, conduzido em Israel, testou um óleo de cannabis rico em CBD (canabidiol), com baixo teor de THC. Os resultados foram promissores: cerca de 60% dos pacientes que usaram o extrato apresentaram melhora no sono e na irritabilidade, além de menor dependência de sedativos e antipsicóticos. Esses dados, embora positivos, ainda carecem de mais comprovação científica em larga escala.
Para o médico ortopedista e estudioso em cannabis Jimmy Fardin Rocha, o cenário é animador, mas exige cautela. “A cannabis medicinal pode ajudar a controlar sintomas como ansiedade, distúrbios do sono e agitação, especialmente nas fases mais avançadas da doença. Mas ela não interrompe o avanço do Alzheimer e, até agora, não há nenhuma evidência de que possa reverter o quadro”, explica o especialista, que também é coordenador da pós-graduação em medicina canabinoide do grupo CONAES Brasil.
Os estudos em laboratório reforçam a ideia de que compostos da cannabis têm ação neuroprotetora. Em experimentos com animais, a combinação de THC e CBD reduziu placas amiloides, uma das marcas do Alzheimer, e diminuiu processos inflamatórios no cérebro. Há também indicações de que o CBD possa ajudar na preservação da memória em fases iniciais da doença.
Apesar dos avanços, entidades como a Alzheimer Society of Canada e a Associação Brasileira de Neurologia ainda não recomendam o uso da cannabis como tratamento principal. O motivo: falta de ensaios clínicos robustos, padronização das doses e acompanhamento a longo prazo dos pacientes tratados com esses compostos.
“O uso medicinal da cannabis é uma possibilidade real, mas deve ser feito com critério, acompanhamento e prescrição médica”, reforça Jimmy Rocha. “É preciso lembrar que estamos lidando com uma população vulnerável, muitas vezes polimedicada, o que exige cuidado redobrado.”
Hoje, a cannabis no tratamento do Alzheimer se apresenta como uma terapia complementar, com foco em bem-estar e conforto, especialmente para quem já enfrenta os desafios emocionais e cognitivos da doença. O futuro da medicina canabinoide nesse campo ainda depende de mais ciência, mais dados e menos preconceito.
