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Canabidiol amplia possibilidades terapêuticas no cuidado de pessoas com autismo e desafia estigma histórico sobre a cannabis medicinal

by Redação

Evidências científicas, relatos clínicos e experiências pessoais indicam que o CBD pode melhorar a qualidade de vida de crianças e adultos com TEA, reforçando a necessidade de políticas de saúde menos proibicionistas e mais baseadas na ciência

O Transtorno do Espectro Autista (TEA) é uma condição do neurodesenvolvimento que se manifesta de formas e intensidades variadas, afetando principalmente a comunicação, o comportamento, a socialização e o processamento sensorial. No Brasil, 2,4 milhões de pessoas, entre crianças e adultos, vivem com o diagnóstico, segundo dados do Censo Demográfico de 2022, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Para além dos desafios clínicos, o autismo impacta diretamente a dinâmica familiar e a rotina de cuidadores, que muitas vezes enfrentam um sistema de saúde com opções terapêuticas limitadas.

Nos últimos anos, o canabidiol, conhecido como CBD, composto não psicoativo da cannabis, tem ganhado espaço no debate científico como alternativa complementar no manejo de sintomas associados ao TEA. Estudos publicados em revistas internacionais de neurologia e psiquiatria indicam redução de irritabilidade, hiperatividade, distúrbios do sono e ansiedade, além de avanços em comportamentos sociais mais adaptativos. Pesquisas observacionais também apontam melhora global do bem-estar e da funcionalidade, especialmente quando o CBD é utilizado como terapia adjuvante, aliado a acompanhamento médico e intervenções multidisciplinares.

Para o médico Adam Alborta, clínico geral, intervencionista do SAMU e médico canabinoide, o canabidiol não deve ser visto como substituto das terapias convencionais, mas como um aliado capaz de favorecer respostas mais consistentes aos tratamentos. Segundo ele, o uso medicinal da substância vem se consolidando como abordagem complementar no controle de sintomas como agitação, desregulação emocional e dificuldades de interação social. Embora não represente cura, o CBD atua como um facilitador biológico, auxiliando o organismo a alcançar maior equilíbrio.

Alborta explica que o autismo pode ser compreendido, em parte, como uma descompensação da homeostase, mecanismo natural responsável por manter o equilíbrio das funções do corpo. Nesse contexto, o sistema endocanabinoide, presente em todos os seres humanos e envolvido na regulação do humor, do sono, do apetite, da dor, da inflamação e da excitabilidade neural, desempenha papel central. A interação do canabidiol com esse sistema pode reduzir a excitação excessiva e a irritabilidade, criando condições mais favoráveis para a socialização, o aprendizado e o desenvolvimento emocional.

A relação do médico com o tema também é pessoal. Sua filha, Ana Mel, hoje com quatro anos, recebeu diagnóstico recente de TEA com grau 1 de suporte, associado a TDAH avançado e altas habilidades. À época, a criança era não verbal e se comunicava apenas por gestos. Após avaliação criteriosa, Alborta optou pelo uso do canabidiol no tratamento, buscando uma alternativa com menos efeitos colaterais do que os medicamentos tradicionalmente prescritos. Sete meses depois, os avanços se tornaram evidentes. A criança desenvolveu a fala, passou a dialogar, argumentar e se expressar verbalmente, o que transformou a dinâmica familiar e a interação social.

Segundo ele, além de promover regulação neurológica, o canabidiol auxilia na redução do sofrimento causado por desorganizações do sistema nervoso. Ainda assim, reforça que o composto não substitui terapias como fonoaudiologia, psicologia, terapia ocupacional ou acompanhamento pedagógico, mas potencializa seus efeitos ao oferecer um ambiente biológico mais favorável.

O debate sobre cannabis medicinal, no entanto, ainda esbarra em estigmas construídos ao longo de décadas de políticas proibicionistas. Alborta destaca que até mesmo o THC, principal composto psicoativo da planta, costuma ser tratado como inimigo absoluto, quando, na prática clínica, pode ter utilidade terapêutica em doses controladas, com efeitos relaxantes, analgésicos e moduladores da excitabilidade neural. Para ele, o problema não está na substância, mas no uso irresponsável e na desinformação. A medicina canabinoide, afirma, representa uma mudança profunda na forma de compreender e tratar o sofrimento humano.

Outro exemplo dessa transformação é o de Michele Farran, sócia da Cannabis Company, considerada a primeira farmácia brasileira especializada exclusivamente em cannabis medicinal com pronta entrega. Diagnosticada com TEA na vida adulta, Michele encontrou no canabidiol uma forma de amenizar sintomas como ansiedade, sobrecarga sensorial e dificuldades de autorregulação emocional. Também utiliza o composto no controle da artrite reumatoide, doença com a qual convive há mais de uma década.

A experiência pessoal foi determinante para sua decisão de empreender no setor. Ao criar a farmácia, Michele buscou ampliar o acesso à informação, ao tratamento responsável e ao acompanhamento adequado, em um país onde a burocracia, os custos elevados e o preconceito ainda dificultam o acesso de milhares de pacientes à cannabis medicinal. Para ela, o canabidiol foi um divisor de águas e transformar essa vivência em iniciativa empresarial significa oferecer acolhimento e alternativas reais para outras pessoas em situação semelhante.

O avanço das pesquisas científicas e o crescimento dos relatos clínicos reforçam que o CBD pode ser uma ferramenta relevante no cuidado de pessoas com TEA, desde que utilizado com prescrição médica e monitoramento contínuo. Mais do que uma tendência, a medicina canabinoide aponta para a necessidade de políticas públicas menos ideológicas e mais orientadas por evidências, capazes de garantir autonomia, dignidade e qualidade de vida a pacientes historicamente negligenciados.

Em um país onde o debate sobre drogas ainda é marcado por moralismo e criminalização, o uso medicinal da cannabis no tratamento do autismo escancara uma contradição: enquanto famílias buscam alívio para o sofrimento de seus filhos, o Estado segue impondo barreiras que atrasam o acesso a terapias promissoras. A ciência avança, os resultados se acumulam, e a pergunta que permanece é até quando o proibicionismo continuará falando mais alto do que o direito à saúde.

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