Quando uma pessoa entra em coma depois de uma lesão cerebral grave, uma das perguntas mais difíceis para médicos e familiares é se aquele cérebro ainda consegue encontrar um caminho de volta para a consciência.
Em alguns casos, diferentes regiões continuam apresentando atividade, mas a comunicação entre elas fica profundamente comprometida. É nesse ponto que uma hipótese pouco convencional começa a ganhar espaço na ciência:
Uma substância psicodélica conseguiria aumentar
temporariamente a capacidade de reorganização dessas redes?
A ideia não é que os psicodélicos simplesmente “regeneram” um cérebro lesionado. O que os pesquisadores estão investigando é algo mais específico, se eles podem favorecer a neuroplasticidade, isto é, a capacidade que o sistema nervoso tem de modificar suas conexões e reorganizar a maneira como diferentes regiões se comunicam.
Uma das primeiras pistas importantes veio muito antes de qualquer tentativa de testar psicodélicos em pessoas com alterações de consciência.
Em 2021, pesquisadores da Universidade Yale observaram em camundongos que uma única dose de psilocibina, composto encontrado em algumas espécies de cogumelos, provocou mudanças rápidas nas estruturas que participam das conexões entre neurônios. O estudo, publicado na revista Neuron, encontrou um aumento de aproximadamente 10% na densidade e no tamanho das chamadas espinhas dendríticas, pequenas estruturas envolvidas na comunicação entre células nervosas.
As alterações aparecem em cerca de 24 horas e parte delas ainda estava presente um mês depois. Isso não significa que a psilocibina tenha recuperado cérebros lesionados. Os animais não estavam em coma e o experimento não avaliou a recuperação de consciência. O que ele mostrou foi outra coisa potencialmente importante para essa discussão, se o cérebro pode responder à substância modificando sua própria arquitetura de conexões.
É como uma cidade que perde algumas de suas principais avenidas. Em vez de simplesmente reconstruir a estrada destruída, o sistema pode abrir caminhos alternativos para manter bairros diferentes conectados.
Essa capacidade de criar ou reorganizar caminhos é justamente o que torna a neuroplasticidade interessante para quem pesquisa lesões cerebrais. E também ajuda a entender por que os cientistas passaram a olhar para os psicodélicos além dos efeitos subjetivos que eles provocam.
No Brasil, Stevens Rehen, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e pesquisador do Instituto D'Or de Pesquisa e Ensino, estuda os efeitos dos psicodélicos em nível celular. Em parceria com José Alexandre Salerno, Rehen publicou uma revisão na iScience discutindo o uso de células humanas e organoides cerebrais, estruturas produzidas em laboratório que reproduzem parcialmente características do tecido cerebral, para investigar esses mecanismos.
A importância dessa linha de pesquisa está justamente em aproximar os experimentos da biologia humana. Resultados obtidos em camundongos podem revelar mecanismos importantes, mas não garantem que o mesmo fenômeno aconteça em pessoas.
E, quando pesquisadores começaram a procurar essas mudanças diretamente no cérebro humano, a história ficou mais complexa.
Em julho de 2026, um estudo publicado na Translational Psychiatry acompanhou 15 pessoas saudáveis que receberam psilocibina. Os pesquisadores utilizaram PET (Positron Emission Tomography), tomografia por emissão de pósitrons, para medir um marcador relacionado à densidade das sinapses, estruturas responsáveis pela comunicação entre os neurônios.
O resultado não foi uma confirmação simples da hipótese. No conjunto dos participantes, não houve aumento estatisticamente significativo da densidade sináptica uma semana depois da dose. Houve, porém, diferenças relacionadas ao ambiente em que a experiência aconteceu. Participantes submetidos a uma situação semelhante à de um contexto terapêutico apresentaram experiências subjetivas mais intensas e maiores alterações no marcador do que aqueles que receberam a substância dentro do aparelho de ressonância.
A descoberta é importante justamente porque impede uma conclusão fácil. A psilocibina parece ser capaz de alterar determinados mecanismos relacionados à plasticidade cerebral, mas ainda não está claro quanto essas alterações duram, em que condições aparecem e, principalmente, se podem produzir algum benefício funcional em um cérebro lesionado.
É nesse ponto que a discussão sobre coma começa a fazer sentido.
Primeiro, porque coma não é sinônimo de qualquer estado de consciência reduzida. No coma, a pessoa permanece inconsciente, não abre os olhos de maneira sustentada e não apresenta ciclos normais de vigília e sono. Já no chamado estado de vigília sem resposta, anteriormente conhecido como estado vegetativo, a pessoa pode abrir os olhos e apresentar períodos semelhantes ao sono e à vigília, mas não demonstra sinais consistentes de consciência de si mesma ou do ambiente.
Existe ainda o estado minimamente consciente, no qual aparecem sinais pequenos, porém reproduzíveis, de consciência. O paciente pode, por exemplo, seguir uma instrução simples ocasionalmente, responder de maneira adequada a um estímulo ou demonstrar algum comportamento intencional.
São condições diferentes, com prognósticos diferentes. Mas todas fazem parte do que a medicina chama de transtornos da consciência, geralmente associados a lesões cerebrais graves.
E é justamente nessas situações que surge a hipótese mais interessante dos psicodélicos. Talvez o problema não seja apenas a quantidade de atividade existente no cérebro, mas a maneira como essa atividade está organizada e como diferentes redes conseguem conversar entre si.
Uma perspectiva publicada em 3 de outubro de 2026 na Molecular Psychiatry discute justamente essa possibilidade. Os autores analisam como psicodélicos como psilocibina, LSD e DMT podem alterar profundamente a dinâmica das redes cerebrais e aumentar a diversidade dos estados de atividade neural.
A hipótese, portanto, não é “acordar” o cérebro como quem liga um interruptor. Seria tentar aumentar sua capacidade de reorganização e, eventualmente, permitir que circuitos ainda preservados encontrem novas formas de comunicação.
Mas existe uma diferença fundamental entre uma hipótese biologicamente plausível e um tratamento que funciona.
Até outubro de 2026, não existe evidência clínica controlada demonstrando que os psicodélicos são capazes de produzir uma recuperação sustentada da consciência em pessoas em coma.
O que existe é uma cadeia de evidências que começa em células e animais, passa por estudos em pessoas saudáveis e agora chega aos primeiros protocolos específicos para pacientes com transtornos da consciência.
Um desses estudos acaba de dar um passo importante nessa direção. Um protocolo publicado na BMJ Open descreve uma pesquisa com 80 pacientes internados em unidades de terapia intensiva e com transtornos da consciência provocados por lesão cerebral.
A proposta combina psilocibina e apomorfina, uma substância que atua sobre mecanismos relacionados ao estado de alerta. Os pacientes receberão doses de 1, 10 ou 25 mg de psilocibina e, uma hora depois, 2 mg de apomorfina. Os pesquisadores pretendem acompanhar o tempo até o despertar, além de observar alterações em escalas clínicas de consciência, atividade elétrica cerebral por EEG e respostas pupilares.
O protocolo informa que o estudo estava em andamento e recrutando em agosto de 2026. Mas há um detalhe que precisa ser destacado. Esse estudo ainda não demonstra eficácia, é, na verdade, uma investigação inicial, aberta e sem grupo controle, desenhada para avaliar segurança, dose e possíveis sinais de efeito.
Por enquanto, portanto, a resposta para a pergunta do título continua sendo não sabemos.
O que a ciência já sabe é que a psilocibina e outros compostos psicodélicos podem modificar a dinâmica das redes cerebrais e, em determinados modelos experimentais, produzir alterações associadas à plasticidade. O que ainda precisa ser demonstrado é se essas mudanças podem ajudar um cérebro gravemente lesionado a reorganizar sua comunicação a ponto de recuperar algum nível de consciência.
Entre uma coisa e outra existe uma distância enorme.
Mas essa distância deixou de ser apenas uma questão teórica. Em 2026, pesquisadores começaram a desenhar estudos para descobrir, diretamente em pacientes com graves transtornos da consciência, se um cérebro que parece ter perdido o caminho de volta pode, de alguma maneira, encontrar uma nova rota.




