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Índia financia pesquisa com cannabis pela primeira vez em 50 anos e mira indústria farmacêutica

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Thiago Alves

02 de abril de 2026

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Índia financia pesquisa com cannabis pela primeira vez em 50 anos e mira indústria farmacêutica

Projeto inédito foca em genética da planta e pode redefinir produção de medicamentos à base de cannabis no país

Pela primeira vez em mais de cinco décadas, o governo da Índia destinou recursos públicos para um projeto de pesquisa com cannabis, em um movimento que pode redefinir o futuro da indústria farmacêutica baseada na planta no país.

O financiamento foi concedido à empresa Delta Botanicals & Research, sediada em Bhubaneswar, que ficará responsável por desenvolver variedades de sementes capazes de garantir estabilidade genética tanto para o cânhamo industrial quanto para a cannabis medicinal.

A iniciativa é considerada um marco histórico, já que, desde a criação da Narcotic Drugs and Psychotropic Substances Act, em 1985, não havia registro de apoio governamental direto a pesquisas desse tipo. Agora, o país dá um passo estratégico para tentar estruturar um mercado mais científico e padronizado.

Segundo Vikramm Mitra, cofundador da empresa, o foco do projeto está em resolver um dos principais gargalos da cadeia produtiva: a genética da planta. Ele afirma que, sem estabilidade genética, não é possível padronizar extratos, o que inviabiliza o desenvolvimento de medicamentos com qualidade farmacêutica.

Na prática, o projeto vai mapear e analisar diferentes variedades de cannabis nativas, incluindo plantas da região do Himalaia, além de realizar testes de cultivo em ambientes controlados e ao ar livre. O objetivo é criar sementes que atendam aos limites regulatórios de THC e permitam produção consistente.

Esse ponto é considerado central porque a falta de padronização afeta toda a cadeia, desde o cultivo até a pesquisa clínica. No caso do cânhamo, variações genéticas podem fazer com que a planta ultrapasse os limites legais de THC, tornando a produção inviável. Já no campo medicinal, a inconsistência dificulta a reprodução de resultados científicos e a aprovação por órgãos reguladores.

O avanço ocorre em um momento de crescimento acelerado do mercado de cannabis na Índia, mas ainda marcado por falta de coordenação e padronização. Grande parte dos produtos disponíveis hoje segue a lógica da medicina tradicional ayurvédica, que utiliza a planta em formulações combinadas, sem isolar compostos como CBD ou THC.

Esse modelo ajudou a expandir rapidamente o mercado, com produtos voltados para dor, ansiedade e sono, mas também criou desafios. A ausência de padronização e de dosagem precisa gera um distanciamento em relação aos critérios exigidos pela indústria farmacêutica moderna.

Ao mesmo tempo, reguladores indianos têm aumentado o rigor sobre novos produtos, exigindo mais dados de segurança, toxicidade e eficácia. Esse movimento indica uma tentativa de aproximar o setor de padrões científicos mais robustos.

Outro fator que impulsiona o mercado é a mudança no comportamento do consumidor, especialmente entre jovens urbanos, mais abertos a alternativas naturais e novos formatos de consumo, como comestíveis e bebidas à base de cannabis. Até plataformas globais de e-commerce passaram a permitir alguns produtos derivados do cânhamo, sinalizando uma normalização gradual.

Apesar do crescimento, desafios estruturais persistem. A falta de matéria-prima padronizada e de sementes confiáveis limita a escala da produção e compromete a qualidade dos produtos. Estados como Uttarakhand, que já liberaram o cultivo de cânhamo, enfrentam baixa adesão justamente pela ausência de variedades adaptadas às condições locais.

O projeto financiado pelo governo busca enfrentar esse problema na raiz. A expectativa é que, nos próximos anos, a pesquisa gere dados inéditos sobre genética e cultivo da cannabis em território indiano, abrindo caminho para políticas mais eficientes e para o desenvolvimento de medicamentos.

A iniciativa também pode influenciar debates regulatórios, como os limites de THC permitidos no cânhamo industrial, atualmente baseados em padrões internacionais que nem sempre refletem a realidade local.

Embora ainda seja um primeiro passo, o investimento indica uma mudança de postura do governo indiano, que passa a reconhecer que o crescimento do setor depende não apenas da demanda, mas da construção de uma base científica sólida.

Mais do que desenvolver produtos, a estratégia agora é estruturar toda a cadeia desde a origem. Como resume Mitra, o futuro da cannabis no país começa pela planta.

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