A empresa responsável pelo Mounjaro está colocando bilhões de dólares em uma área que, até poucos anos atrás, permanecia quase restrita a universidades, pequenas biotechs e grupos especializados em medicina psicodélica.
A Eli Lilly, uma das maiores farmacêuticas do mundo e fabricante da tirzepatida comercializada como Mounjaro, firmou um acordo para adquirir a AtaiBeckley, companhia de biotecnologia dedicada ao desenvolvimento de novos tratamentos para saúde mental. O valor pode chegar a US$ 3,8 bilhões.
Mas há uma diferença importante entre dizer “US$ 3,8 bilhões” e entender o negócio. A Lilly prevê aproximadamente US$ 2,8 bilhões em pagamento inicial, enquanto outros US$ 1 bilhão dependem do cumprimento de metas clínicas e regulatórias dos medicamentos em desenvolvimento. Ou seja, uma parte considerável da aposta só será paga se esses compostos avançarem de fato em direção ao mercado.
E é justamente aí que a história fica interessante.
O que a Lilly está comprando?
O principal ativo da AtaiBeckley é o BPL-003, uma formulação intranasal de mebufotenina — também conhecida como 5-MeO-DMT — produzida de forma sintética e investigada para depressão resistente ao tratamento.
A condição é caracterizada por pacientes que continuam apresentando sintomas importantes mesmo após tratamentos antidepressivos convencionais. É um dos problemas mais difíceis da psiquiatria atual.
O BPL-003 já passou por estudos de Fase 2 e recebeu da FDA, a agência reguladora dos Estados Unidos, a designação de Breakthrough Therapy, criada para acelerar o desenvolvimento de medicamentos destinados a doenças graves quando dados clínicos preliminares indicam a possibilidade de uma melhora relevante sobre as terapias disponíveis. A classificação, no entanto, não significa que o medicamento esteja aprovado.
Em um ensaio de Fase 2b com quase 200 participantes, doses únicas de 8 mg e 12 mg apresentaram redução estatisticamente significativa dos sintomas depressivos em comparação com uma dose-controle de 0,3 mg. Segundo os resultados divulgados pela companhia, diferenças já foram observadas no segundo dia após a administração e se mantiveram ao longo das oito semanas de acompanhamento.
A empresa escolheu a dose de 8 mg para avançar no desenvolvimento e iniciou atividades de Fase 3, etapa normalmente decisiva antes de um eventual pedido de aprovação regulatória.
Resultados de estudos menores com o composto também já chegaram à literatura científica revisada por pares. Um trabalho publicado em 2026 no Journal of Psychopharmacology avaliou BPL-003 em pacientes com depressão resistente, embora o estudo tenha sido aberto e contado com apenas 12 participantes — uma limitação importante na interpretação dos resultados.
DMT também está dentro do negócio
O segundo programa de destaque é o VLS-01, uma formulação de N,N-DMT em filme aplicado na mucosa da boca.
É importante fazer uma distinção: 5-MeO-DMT e N,N-DMT não são a mesma substância. Apesar da semelhança dos nomes, são moléculas diferentes e estão sendo desenvolvidas como medicamentos diferentes.
O VLS-01 está sendo estudado no ensaio Elumina, de Fase 2b, para depressão resistente ao tratamento. O estudo randomizou 156 participantes, e o último paciente recebeu a intervenção em julho de 2026. Os principais resultados são esperados para o quarto trimestre deste ano. A AtaiBeckley já declarou que pretende levar o programa à Fase 3 caso os dados sustentem esse avanço.
A Lilly, portanto, não está simplesmente comprando uma empresa que “pesquisa psicodélicos”. Está adquirindo uma linha de medicamentos experimentais que já alcançou etapas intermediárias e avançadas do desenvolvimento farmacêutico.
E tem MDMA também
Outro candidato da AtaiBeckley é o EMP-01, uma formulação oral de R-MDMA investigada para transtorno de ansiedade social.
Tecnicamente, o MDMA é mais bem descrito como um entactógeno ou empatógeno, e não como um psicodélico clássico como LSD ou psilocibina. Ainda assim, ele costuma ser incluído dentro do campo mais amplo da chamada medicina psicodélica — abordagem adotada inclusive pela FDA em suas orientações para pesquisas clínicas.
Em fevereiro, a AtaiBeckley divulgou resultados de um estudo exploratório de Fase 2a no qual o EMP-01 atingiu seu objetivo principal de segurança e tolerabilidade e apresentou sinais de redução dos sintomas de ansiedade social. Os dados ainda precisam ser confirmados em estudos maiores.
Portanto, não há DMT ou MDMA da Lilly chegando às farmácias neste momento. São candidatos a medicamentos ainda em desenvolvimento.
O bilhão que depende da regulação
Talvez o detalhe mais revelador do acordo esteja no contrato.
Dos até US$ 1 bilhão adicionais previstos na aquisição, os pagamentos estão ligados diretamente ao avanço dos psicodélicos da AtaiBeckley.
Uma parcela será liberada se o VLS-01 iniciar um ensaio de Fase 3. Outras dependem não apenas de eventual aprovação do BPL-003 e do VLS-01 nos Estados Unidos, mas também da reclassificação regulatória das substâncias pela DEA, a agência norte-americana responsável pelo controle de drogas.
Em outras palavras, a Lilly colocou preço no próprio processo de transformação de substâncias hoje fortemente controladas em possíveis medicamentos regulamentados.
É uma aposta científica, mas também regulatória.
O que torna esses compostos atraentes para a indústria?
Há outro ponto menos evidente. Parte do desafio da medicina psicodélica não está apenas em demonstrar eficácia. Está em criar tratamentos que funcionem dentro de hospitais, clínicas e sistemas de saúde.
Uma sessão com alguns psicodélicos pode exigir muitas horas de acompanhamento. Isso torna o tratamento mais caro, complexo e difícil de escalar.
A estratégia da AtaiBeckley é justamente desenvolver moléculas e formulações de ação relativamente curta.
No estudo de Fase 2b do BPL-003, a maioria dos pacientes foi considerada apta a deixar a clínica cerca de 90 minutos após a administração. O VLS-01 também está sendo desenvolvido para se encaixar em uma janela clínica de aproximadamente duas horas.
É uma diferença importante.
A Lilly não está apostando apenas no efeito psicodélico. Está apostando na possibilidade de transformá-lo em um produto farmacêutico administrável em escala.
Lilly não está sozinha
O movimento também não acontece isoladamente. Em 2025, a AbbVie acertou a aquisição por até US$ 1,2 bilhão do programa da Gilgamesh Pharmaceuticals responsável pela bretisilocina, um composto psicodélico de curta duração estudado para depressão maior. A operação foi concluída em outubro daquele ano.
A chegada da Lilly aumenta consideravelmente o peso desse movimento.
Não são mais apenas startups tentando provar que psicodélicos podem virar medicamentos. Algumas das maiores empresas farmacêuticas do planeta começaram a colocar capital próprio nessa hipótese.
E o ambiente regulatório também está mudando. Em julho de 2026, a FDA publicou sua orientação final específica para o desenvolvimento clínico de medicamentos psicodélicos, tratando de temas como segurança, desenho dos ensaios, duração dos efeitos e controle das experiências psicoativas.
Isso não equivale a uma aprovação geral dos psicodélicos. Mas mostra que o assunto deixou definitivamente as margens da pesquisa farmacêutica.
Uma história conhecida por quem acompanha a cannabis
Para quem acompanhou as últimas décadas da cannabis medicinal, a trajetória guarda alguma familiaridade.
Substâncias marcadas durante anos principalmente pela proibição passam a ser isoladas, padronizadas, estudadas em ensaios clínicos e eventualmente transformadas em produtos farmacêuticos.
Isso não significa que todo uso seja terapêutico. Também não significa que resultados preliminares sejam prova de eficácia.
Significa algo diferente: a ciência, os reguladores e o dinheiro da indústria começaram a olhar para essas moléculas de outra maneira.
Quando uma farmacêutica do tamanho da Eli Lilly aceita colocar US$ 2,8 bilhões imediatamente — e potencialmente mais US$ 1 bilhão — em uma empresa cuja principal tecnologia envolve 5-MeO-DMT, DMT e MDMA, a discussão sobre psicodélicos deixa de ser apenas sobre promessa.
Passa a ser também sobre o futuro da indústria farmacêutica.
Fontes
Eli Lilly — anúncio oficial da aquisição da AtaiBeckley
SEC — termos do acordo entre Lilly e AtaiBeckley
AtaiBeckley — resultados de Fase 2b do BPL-003
ClinicalTrials.gov — estudo clínico do BPL-003
PubMed — estudo clínico de BPL-003 em depressão resistente
AtaiBeckley — estudo de Fase 2b do VLS-01 com DMT
FDA — orientação para pesquisas clínicas com psicodélicos
AbbVie — aquisição do programa psicodélico da Gilgamesh




